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Ato Contra o Aumento da Tarifa em Marília: O tempo neste nosso Tempo

Após anúncio de absurdo aumento da tarifa do ônibus para 3,00 em Marília, a Frente de Lutas formada por trabalhadores e estudantes convoca ato para esta Quinta (17/09). A Poesia "O tempo neste Tempo" escrita a partir da experiencia cotidiana de um professor no aperto dos ônibus lotados nos trajetos de ida e volta do trabalho nos serve de inspiração para essa luta.

segunda-feira 14 de setembro de 2015| Edição do dia

A tarifa está aumentando na cidade de Marília pela segunda vez no ano. Os trabalhadores dos transportes estão cada vez mais explorados, os trabalhadores em geral estão sofrendo com cortes na educação, na saúde, inflação elevada, desemprego, e agora mais essa.

A partir disso, foi formada por estudantes e trabalhadores uma FRENTE DE LUTAS PELO TRANSPORTE que está chamando um GRANDE ATO para esta Quinta-Feira (17/09) para darmos início à luta contra os interesses dessas empresas sanguessugas e dessa prefeitura de privilegiados que só representam os mais poderosos! A próxima reunião da Frente será no dia 23/09 na sede da Apeoesp-Marília.

Somente com a luta poderemos vestir nossos olhos de poesia!

Utilizando o transporte publico da cidade para dar aulas nas escolas da periferia da cidade, vi situações que me inspiraram a escrever a poesia que compartilho agora. Que a arte também nos arme para essa luta.

O tempo neste Tempo

O relógio é um cão de guarda
As horas passam como viaturas policiais à paisana
Os minutos como inspetores de escola ou carcereiros vigilantes
Os segundos encurralam à velocidade contínua

Este Tempo para nós é como uma chibata de correção
Dói na pele
O corpo se rebela toda manhã
Contra o desperta-dor
Seu som está fora de mim,
Mas me invade em estupro

O tempo da frota de coletivos impõe a velocidade de meus gestos matinais, e de minhas pernas a caminho do ponto. Dentro do ônibus, as massas amassadas, durante aquele tempo mais curto para o relógio que para os corpos, saem cozidas, prontas para o consumo do chefe, a gosto do freguês.
Este tempo no veículo-coletivo-de classe é por demais educativo. O convite está feito: se desejar fugir por alguns segundos, fuja! Os belos outdoors, como fossem devaneios, estão aí para isto. A cor e o tratamento das peles daquelas modelos não se parecem com os que tem ao seu redor. Nem suas promessas parecem o que se vê ao lado.
Chegando lá, outra traição deste canalha de ponteiros:
Definitivamente. O tempo do meu trabalho não é o do meu salário.
A velocidade das metas impõe ao meu corpo técnicas. Uma média de sorrisos programados aos “fregueses” por minuto. Os músculos do rosto logo aprendem, o tom de voz se afina, e afia. Mas a dor da luta de meus pés contra os saltos dura mais tempo que a carga horária de serviço oficial. Esta eu levo para casa. Uma dúzia de emoções podadas por dia, e a gente acostuma. Ou acostumam a gente...

Estes fregueses que entram no corre-corre do dia-a-dia parecem cada vez mais educados pelos outdoors das janelas, ou quaisquer outras telas. Os ângulos das primeiras olhadas são como os das câmeras das propagandas de cerveja. O decote é na altura-média-padrão para este serviço, nada que um canto de olho não alcance por baixo da mais ou menos aclamada moralidade aparente.
Quando passam de olhares, contra meu gosto, o sorriso programado fecha. O chefe me chama atenção. Mau comportamento o meu. Nesta hora, a seta dos minutos parece imóvel, eternamente. O patrão brinca dizendo que não entendo meu ofício porque vim da África. Após o comentário, ele sorri, e seu olhar me esquarteja: peito, bunda, pernas. A carne moída está pronta para o consumo do freguês.
Uma coxa de galinha da Angola e uma playboy completam o prato-feito na bandeja de prata com decoração colonial.
E o gosto do Tempo que amarga,
Que é chibata, que educa.
E meu corpo se revolta, que luta....
que almeja
para o Tempo do horizonte longínquo:
Ah se o tempo desse tempo... se fosse outro, assim, para todos...

Mas num sopro de realidade, estes números dispostos em série contínua e ritmada de tic-tac, que não nos damos conta mas aí estão a nos ritmar, se desnudam e mostram a face concreta:
O tempo da vida é mundano demais,
De neutro nada tem,
e como é típico deste Tempo da história em que estamos,
ele está a favor de um dos lados da realidade:
Ele tem cor, gênero e tem classe.

Mas e nós, o que temos?

Temos os bilhões do outro lado!
Carregamos no sangue a história de um povo oprimido. Levamos na garganta o grito de gerações de explorados que se organizaram para acabar com a miséria social, com a miséria sexual. Carregamos toda a solidariedade das lutadoras! Levamos no coração e na mente a força de tantas e tantos que ficaram na história, e hoje vivem em em nossa luta!
Somos da selva, somos leões, somos demais pro seu quintal!




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