Gênero e sexualidade

MARÉ VERDE ARGENTINA

[Argentina] Aborto legal: nos organizemos para ganhar a batalha do Senado

No Senado tem um ninho da reação contra a legalização do aborto. Não devemos semear expectativas na sororidade transversal dos blocos, e sim somente em nossas forças mobilizadas. O resultado da batalha está em nossas mãos.

Andrea D’Atri

@andreadatri

sexta-feira 29 de junho| Edição do dia

A vicepresidenta, Gabriela Michetti, fez uma manobra para demorar o tratamento da legalização do aborto no Senado que já obteve a meia sanção na Câmara de Deputados. Em uma reunião no Episcopado, em que participaram os senadores Esteban Bullrich (PRO), Federico Pinedo (PRO), Guillermo Snopek (PJ) y a senadora Silvia Elías de Pérez (UCR) junto com o cardeal Mario Poli, e o bispo Oscar Ojea e outros membros da Igreja, decidiram girar o projeto que obteve meia sanção à quatro comissões do Senado: Saúde (presidido por um senador “indeciso” da UCR), Justiça e Assuntos Penais (nas mãos de Guastavino, do PJ, que disse estar a favor da legalização) e as insólidas comissões de Assuntos Constitucionais (que preside o justicialista Mera, contrário da legalização) e Orçamento (presidida pelo inefável poeta antiabortista Esteban Bullrich).

Desta maneira, se preparam para nos derrotar na Câmara que concentra os setores mais reacionários dos partidos majoritários, manipulados por governadores e amparados pela Igreja que acusou recibo do golpe que lhe demos no 13J.

Se na Câmara de Deputados o resultado foi ajustadíssimo, e chegou depois de mais de vinte horas de exposições e uma intensa negociação na madrugada, no Senado se desenha como uma nova batalha muito mais difícil.

Não somos derrotistas, porque sabemos que temos a força para ganhar. O 13J foi uma mostra disso. Mas também foi na paralisação do 25J contra os planos do FMI e o governo de Macri, apesar de que a direção sindical não quis que se transformasse em uma grande demonstração de forças. As docentes, enfermeiras, operárias e empregadas de diferentes sindicatos estiveram à frente dos piquetes de greve que, na Ponte Pueyrredón, fizeram retroceder a Prefeitura, com seus lenços verdes. Uniram o que as burocracias sindicais dividem.

Temos a força, então não podemos deixá-la submetida somente à espontaneidade, desde já temos que nos organizar em todos os locais de trabalho para exigir assembleias e paralisação nacional às centrais sindicais. Que os sindicatos que já se pronunciaram a favor do aborto legal disponibilizem transporte a todas as mulheres e companheiros que queiram ir ao Congresso quando ocorra a sessão no Senado! O mesmo temos que fazer nas escolas, os terciários (estudantes que se formam professores do ensino básico na Argentina) e nas universidades. Exijamos das federações universitárias e centros de estudantes, organizemo-nos com toda a comunidade da educação para que nesse dia paralisem as atividades e possamos duplicar, triplicar ou ser dez vezes mais em frente ao Congresso do que as que fomos no 13J.

Sororidade no Senado ou tomar as ruas

Nas horas prévias da massiva mobilização que conseguiu a meia sanção, distintos setores faziam circular a ideia que se não se aprovasse na Câmara de Deputados, de qualquer forma já havíamos ganhado a batalha cultural. Em partes estava certo: a Igreja, os fundamentalistas evangélicos e os setores reacionários não puderam mobilizar nem mais que 500 pessoas atrás das barreiras, enquanto do outro lado, a maré havia se convertido em um tsunami.

Mas se queremos #QueSeaLey (Que seja lei) não podemos relaxar depois dos primeiros êxitos parciais, até que tenhamos a confirmação de nosso triunfo. Dizer que “a batalha cultural está ganha”, quando estamos em meio ao combate, dilapida nossas próprias forças, não permite prepararmo-nos ainda melhor e mais conscientemente para a batalha que segue, tirar as conclusões de onde estiveram nossos pontos débeis que deveremos evitar e aonde estão os deles, para poder golpear com mais precisão.

Por isso a “batalha cultural” também se dá em como se lê o que passou no Congresso. O Pan y Rosas na Frente de Esquerda dos Trabalhadores (FIT em espanhol) expôs claramente que sem essa maré verde que inundou as ruas e as praças, os deputados não haveriam votado a meia sanção. Algo evidente se vemos que o resultado se conseguiu com dois votos inesperados de deputados do PJ de La Pampa, que se “convenceram” na madrugada, vai saber com que argumentos. Argumentos?

Mas o Cambiemos, o PJ, o kirchnerismo e inclusive alguns meios e jornalistas feministas insistem em que a meia sanção foi o resultado da sororidade transversal que percorreu nos blocos governistas e opositores. Não duvidam em converter a deputada macrista Lospenato em uma heroína nem em definir os imprevisíveis deputados do PJ como “os mosqueteiros pampeanos”.

Pelo contrário, devemos tirar a conclusão de que o triunfo foi nosso e só nosso: sem centenas de milhares nas ruas, agitando seus lenços verdes e gritando que se não houvesse meia sanção “se iba a pudrir” (ia ter enfrentamento), como diziam as garotas, não havia sororidade das reacionárias macristas com as kirchneristas que durante os passados treze anos engavetaram esse mesmo projeto; como tampouco havia mosqueteiros de última hora, nem mosqueteira.

Que seja lei...depende de nossas forças!

Nos dizem que não convém falar essas coisas agora porque necessitamos que o Cambiemos e o PJ aprove a lei no Senado. Sabemos perfeitamente que é no Congresso aonde se legisla com o voto de deputados e senadores, ainda que sejam os mesmo que antes aprovaram vergonhosamente o roubo das aposentadas e aposentados, os mesmo que riam com os “tarifaços” que arruínam nossas vidas e que aplaudem os acordos com o FMI que afundam nossas famílias trabalhadoras, exigimos a eles seus votos a favor do aborto legal.

Mas, como já pudemos advertí-los, seus votos não dependem de sua consciência sobre nossos direitos, de sua preocupação para que não morrem mais mulheres pobres por abortos clandestinos nem de sua convicção de que as mulheres têm o direito a decidir sobre nossas vidas. Nossos direitos são utilizados como um “toma lá, dá cá” entre os partidos majoritários, à conveniência de seus próprios interesses.
Seus votos dependem de que voltemos a arrancá-los com nossa força de luta e mobilização. Sabemos que nos sobram vontade, sabemos que este movimento de mulheres que se colocou de pé pode ir pelo direito ao aborto e também por mais. Não vamos permitir que nos convertam de novo a quem pague o pato quando os acordos com o FMI nos afundar na crise e queiram descarregar as piores consequências sobre nossas costas.

Hoje (ocorreu na terça, dia 26/06 ) se realiza uma manifestação nacional com os lenços verdes. Em todas as províncias esperamos ver os lenços verdes que já não saem mais das mochilas das garotas, das carteiras das mulheres adultas, das bonecas, dos companheiros que apoiam nossa luta. Ser centenas de milhares, ser milhões na próxima batalha, não é um desejo, uma aspiração, uma ilusão; é uma tarefa cuja preparação recai em nossas mãos se queremos coroar nossas batalhas com um categórico triunfo. Temos pouco mais de um mês por adiante, mãos à obra!




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