Internacional

ALEMANHA REPRESSÃO

Após o atentado: enfrentar a militarização e o rearmamento repressivo na Alemanha

A tristeza durou pouco. Imediatamente depois do ataque ao mercado de Natal em Berlin, as forças reacionárias usaram esse fato em seu próprio interesse. O apelo a um maior armamento interno e o crescimento do aparato repressivo racista e antidemocrático é cada vez mais forte.

quinta-feira 22 de dezembro de 2016| Edição do dia

Berlim não deixou a comoção e o medo depois dos acontecimentos na noite de segunda-feira. Muitos questionamentos e diversas especulações circulam na mídia desde então. Entretanto, falsos suspeitos foram presos e logo liberados até que o Estado Islâmico (ISI), na terça-feira à noite, reivindicou a autoria do ataque.

Após os ataques de Würzburg e Ansbach no meio desse ano, o ataque ao mercado de Berlim foi o primeiro de grandes proporções feito pelo ISIS na Alemanha. O atentado causou a morte de uma dúzia de pessoas e deixou cinquenta feridos. Como já ocorreu na Bélgica e na França, agora é a população alemã quem paga com suas vidas o custo das intervenções militares na Síria, Afeganistão, Mali, etc. A política imperialista que leva adiante intervenções militares e o apoio a regimes ditatoriais no exterior se recupera em seu próprio território e, assim, a Alemanha se converte em um alvo para ataques terroristas.

O ataque ao centro político do país e o fato de que o ISIS o tenha reivindicado, anunciam grandes mudanças da conjuntura política, que ainda não tem uma orientação específica, mas que essa será definida nos próximos dias. O que já está claro é que haverá um fortalecimento interno de armamento e militarização. Isso significa maior repressão contra os refugiados e imigrantes, e também uma limitação das liberdades democráticas de trabalhadores, jovens e forças de esquerda.

Enrijecimento da política migratória

Desde Marine Le Pen da Frente Nacional Francesa até Heinz-Christian Strache do Partido da Liberdade austríaco, a extrema direita em toda a Europa se aproveita dos ataques para sua campanha racista, que exige o fechamento de fronteiras e o fim do acolhimento aos refugiados.

A Alternativa para Alemanha (AfD) tenta, através de suas declarações, não apenas legitima o terror direitista e a justiça pelas próprias mãos contra os estrangeiros, como também pede por um enrijecimento na política racista de isolamento e deportações. Em sua declaração oficial na terça-feira, AfD exigiu que “nossas fronteiras, irresponsavelmente abertas, devem ser colocadas sob controle novamente. Devemos recuperar o controle sobre nosso território. A polícia e os serviços secretos devem se armar, potenciais terroristas e quem represente uma ameaça devem se rigorosamente expulsos.”.

Essa organização aproveita o ocorrido no mercado de Breitscheidplatz para aumentar a pressão sobre o governo e entrar fortalecida no ano eleitoral. Na verdade, eles organizaram uma mobilização frente à Chancelaria para quarta-feira. Outros grupos de extrema direita também aproveitam o atentado. Como é o caso do partido nazista NPD, que convocou uma concentração para o mesmo dia nas proximidades da histórica Igreja de Kaiser-Wilhelm em Berlim.

Mas não apenas setores conhecidos como “extrema direita”, como também o CSU (governo da Baviera e sócio de Merkel no governo nacional) e uma parte do CDU (partido de Merkel) exigiram continuar com o endurecimento das leis de asilo. Como disse Horst Seehofer: “Devemos às vítimas, aos afetados e ao povo em seu conjunto, reconsiderar e ajustar conjuntamente a política migratória e a política de segurança”; Com essas declarações, o Ministro Presidente de Baviera usa o atentado para colocar ênfase nas deportações massivas.

O ataque ao campo de refugiados no aeroporto de Tempelhofer e a prisão de um refugiado paquistanês de 23 anos, de quem logo se comprovou a inocência, mostra um aumento da repressão contra refugiados e imigrantes. Isso ocorrerá tanto do lado do Estado – através do aumento do controle e de uma maior política de deportações – como por parte de grupos de direita e seus ataques racistas. Com isso, o contínuo giro à direita – iniciado no ano passado com as inúmeras reformas nas leis de asilo e as recentes deportações em massa para o Afeganistão – vai se aprofundar no próximo período.

Armamento interno

Os representantes mais importantes do governo se comprometem com uma política de uma “unidade nacional”. Os mercados de Natal e outras grandes exposições devem ocorrer como planejado. Para garantir a “segurança”, ao mesmo tempo foram anunciadas na coletiva de imprensa de terça-feira, pela manhã, pelo Ministério do Interior, diversas medidas que conduzirão a uma militarização mais generalizada.

Klaus Bouillon (CDU), ministro de interior de Saarland e porta-voz na conferencia, falou de “estado de guerra” e explicou “vamos lidar com o armamento pesado necessário, ou seja, com armas longas, armas curtas, revólveres, metralhadoras...”. A polícia passou a ocupar todo o território nacional, com o aumento de sua presença e tomando outras medidas no mesmo sentido.

Na França foi declarado estado de emergência logo depois dos ataques em Paris em novembro de 2015, que restringiu direitos democráticos como a liberdade de reunião, as requisições domiciliares foram intensificadas, aumentando a militarização interior. Desde então, o estado de exceção foi prolongado quatro vezes e vai durar até meados do próximo ano, pelo menos.

Na Alemanha, ainda não estamos frente a um salto qualitativo para uma militarização completa e repressão generalizada. Mas o aparato repressivo se fortalece. Em Berlim, assim como em outros Estados federais, foram retomados conceitos de segurança, como por exemplo, os controles de grande parte da cidade através de câmeras de vídeos.

Um programa contra a guerra e o imperialismo

O atentado em Berlim e a autoria reivindicada pelo ISIS reafirmam claramente que as guerras, a exportação de armamento e a política de ocupação do imperialismo alemão não apenas conduzem a maiores sofrimentos, destruição e humilhações nos países semicoloniais, como também se voltam contra a população na própria Alemanha, sendo um alvo de ataques terroristas. A experiência da Franca, onde, apesar do estado de emergência em Nice, em Julho de 2016 , ainda houve outro atentado, mostra que os ataques terroristas não são evitados com “mais segurança”. Pelo contrário, isso agrava a situação e quem mais sofrerá serão os imigrantes – entre eles, pessoas que migram à força de países como a Síria –, e poderão se repetir os ataques múltiplos na Europa.

A única solução progressiva está em denunciar a responsabilidade do imperialismo alemão e levantar um programa antiimperialista, que acabe com as intervenções militares do exército alemão no exterior, que cesse com a exportação de armas e coloque um ponto final aos acordos reacionários com regimes autoritários como a Turquia, para frear as deportações. Ao mesmo tempo, é preciso desenvolver a luta em defesa dos direitos democráticos, contra a militarização interna e o armamento, vinculando essas exigências com a ampliação dos direitos democráticos e sociais para os refugiados.

Tradução: Pammella Teixeira




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