Imperialismo, neopentecostais e sionistas: a que se remete e a quem serve essa unidade?

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Ilustração: Juan Chirioca

Por Simone Ishibashi

No fundo da tela, vê-se nitidamente uma grande bandeira de Israel, enquanto a ministra Damares Regina, pastora da Igreja Batista da Lagoinha,, proferia a sua sentença sobre quais cores meninos e meninas deveriam vestir, uma das declarações que a tornou célebre. Na cerimônia de posse de Bolsonaro, era comum ver pessoas enroladas nas bandeiras de Israel e dos Estados Unidos ao mesmo tempo em que saudavam “Brasil acima de tudo” – sem qualquer autoironia, infelizmente. Nas igrejas evangélicas, tem sido cada vez mais comum ver os símbolos judaicos, e na política, após a ascensão do governo reacionário atual, a defesa dos interesses do Estado de Israel.

A defesa de tudo o que o Estado de Israel quer passou ser a marca da agenda do governo atual. Uma das primeiras medidas em política externa anunciadas por Bolsonaro, ao lado da eterna vociferação e atual posição provocativa em relação à Venezuela, foi o anúncio de transferência da embaixada brasileira para Jerusalém. Depois, mostrando os laços de amizade com o atual governo, o exército israelense veio ao país em uma midiática missão logo nos primeiros dias após o crime capitalista da Vale em Brumadinho. Estavam munidos de seus equipamentos de alta tecnologia capazes de captar calor, que de nada serviram. Os corpos das vítimas da Vale já estavam frios.

Que Bolsonaro quer colocar o país cada vez mais à mercê do imperialismo estadunidense não é segredo para ninguém. Israel, enclave imperialista no coração do Oriente Médio, surge assim como mais um amo ao qual o atual governo brasileiro quer prestar loas. No entanto, existem também motivações internas que estão relacionadas com a proximidade cada vez maior entre neopentecostais e sionistas, como se expressou de forma patente no pequeno teatro de Damares, cujas cenas descrevemos acima.

Marx afirmava que a “religião é apenas um sol fictício que se desloca em torno do homem enquanto este não se move em torno de si mesmo” (MARX, s/p). Tal ficção tem fornecido motivações religiosas para legitimar intenções políticas, como ocorre na história. O uso da escatologia sionista pelos pentecostais  e neopentecostais tem servido como instrumento para legitimar junto a um setor cada vez mais expressivo de fiéis interesses caros à geopolítica imperialista. Isso não é novo e teve origem no próprio imperialismo norte-americano. Retomaremos aqui breves elementos sobre como a ligação entre sionistas e cristãos dispencionalistas, que influenciaram os evangélicos no país.

A proliferação e perfil das igrejas evangélicas no Brasil  

A importância das igrejas neopentecostais, pentecostais e dos evangélicos em geral tem se elevado ao ponto de se constituírem como um dos poderes de fato no sentido gramsciano, atuando na política do país, e se instalado em parte expressiva da classe trabalhadora. A vitória de Bolsonaro, que é da igreja Batista, não teria se dado da mesma forma sem a atuação da bancada evangélica não apenas no parlamento, mas antes de tudo com a ação das igrejas como verdadeiros comitês eleitorais.

Os comumente denominados como evangélicos são parte da religião que mais cresce no país. Em censo do IBGE de 2010, um em cada cinco brasileiros se identificava como evangélico, o que totalizava a quase dez anos 38.146.539 pessoas. Já em 2017, de acordo com o Datafolha, três em cada dez (29%) brasileiros com 16 anos ou mais se declaram evangélicos, “dividindo-se entre aqueles que podem ser classificados como evangélicos pentecostais (22%), em maior número e frequentadores de igrejas como Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus, Congregação Cristã e Quadrangular do Reino de Deus, e 7%, como evangélicos não pentecostais, pertencentes a igrejas como Batista, Presbiteriana e Metodista, entre outras. Haveria hoje cerca de 1.000 denominações de igrejas consideradas evangélicas.

A parcela com renda familiar mensal de até 2 salários mínimos representa 53% dos evangélicos, ante 49% entre os brasileiros. Uma fatia de 33% tem renda entre 2 e 5 salários (no Brasil, 36%), e 9% obtém mais do que 5 salários (na população, são 10%). Dos que se declaram evangélicos, 34% pertencem atualmente à Assembleia de Deus, e num patamar abaixo aparecem, na sequência, Igreja Batista (11%), Universal do Reino de Deus (8%), Congregação Cristã no Brasil (6%), Quadrangular (5%), Deus é Amor (3%), Adventista (3%), Presbiteriana (2%), Internacional da Graça de Deus (2%), Mundial do Poder de Deus (2%), entre outras menos citadas.

As igrejas evangélicas cresceram compartilhando ideologicamente o discurso de que não haveria nenhum valor redentor na pobreza. Muito pelo contrário: o que prima é a noção de que enriquecer é o sinal de que o pastor é um excelente fiel e foi agraciado; por isso não há questionamento por parte dos fiéis sobre o enriquecimento absurdo dos fundadores, como Edir Macedo ou Silas Malafaia, pois não seria amoral que eles ganhassem “a graça divina da riqueza” mesmo com dízimos arrancados de desempregados, trabalhadores precários, etc. De acordo com o perfil elaborado pelo Datafolha, 28% dos evangélicos, “as pessoas pobres, em geral, não têm fé em Deus, e por isso não conseguem sair dessa situação”, sendo que 20% deles concordam totalmente com essa afirmação, e 8%, em parte. Ademais do dízimo, criou-se um mercado religioso que conta com uma indústria cultural gospel, que só em 2015 ganhou cerca de R$ 21 bilhões. Dessa maneira, os pastores das grandes congregações detêm empresas, investimentos e negócios que não ficam detrás de CEOs de diversas corporações.

Mas um aspecto importante a ser ressaltado é a diferença entre conservadorismo, que abarca a maioria dos evangélicos em graus diferentes entre si com alas mais tolerantes, e o extremismo, que é o elemento que tem se elevado, sobretudo entre as matrizes neopentecostais que buscam conformação de um Estado cristão. Assim, por se tratar de um contingente enorme da população brasileira, e da classe trabalhadora, deve-se considerar que há uma série de posicionamentos distintos. Uma demonstração disso é a distinção entre a posição contrária da maioria da população brasileira, da qual fazem parte os evangélicos, sobre a reforma da previdência. Assim, mesmo a unidade entre a bancada evangélica e sua base pode ser quebrada diante de ataques profundos como essa medida.

Consenso de Washington e o cristianismo sionista

Mas a relação entre política imperialista, correntes evangélicas e sionismo nasce nos Estados Unidos, e é exportada para o Brasil. Para apreender alguns elementos de modo a lançar luzes sobre essa relação, é preciso retomar aspectos contidos no movimento de organizações de cristãos pré-milenistas nos Estados Unidos, onde se deu a unidade entre esses setores e parte do movimento sionista político e religioso. Tais correntes cristãs são conhecidas como dispencionalistas, tem como marca uma escatologia marcada pela “distinção entre Israel e a Igreja, o arrebatamento pré-tribulacionista, o retorno dos judeus para a Palestina, a reconstrução do templo, a ascensão do Anticristo, os sete anos da Grande Tribulação, a salvação nacional dos judeus, o retorno de Cristo para Jerusalém e o reino de mil anos de Cristo na terra”. (WILKINSON, p. 13). Assim, a própria fundação do Estado de Israel em 1948 foi encarada por esses setores como parte do cumprimento de profecias contidas em sua escatologia, que já defendia a fundação de um Estado judeu na Palestina pelo menos desde o fim do século XIX, quando William Blackstone, um teólogo dispencionalista impulsionou um abaixo-assinado em 1891 endereçado ao presidente norte-americano, Benjamin Harrison, defendendo a imigração de judeus à Palestina. Após a Guerra dos Seis Dias em 1967 os cristãos dispensacionalistas passaram a assumir para si de maneira ainda mais evidente a defesa política do Estado de Israel e sua agenda (REINKE, p. 76).  Desde então, se fortalece o lobby cristão-judaico no interior dos Estados Unidos para eleger membros alinhados com suas crenças, que traduzidas em política externa levaria ao realinhamento da aliança entre o governo estadunidense e Israel, tendo seu ponto culminante coincidido com a escalada neoliberal e o Consenso de Washington. Durante o governo de Ronald Reagan, portanto, junto com o auge dos ataques neoliberais contra os trabalhadores, os dispensacionalistas encontraram uma via de acesso mais direta ao poder. Cabe lembrar, inclusive, que Reagan por mais de uma ocasião usou a retórica religiosa para realizar a ofensiva neoliberal ao longo de sua campanha presidencial de 1980, mencionando que poderia fazer parte da geração que veria o Armagedom.

É nesse momento que o apoio aberto a Israel e a questão da embaixada em Jerusalém se transforma em parte da agenda protestante, junto com a ofensiva neoliberal. No ano de 1980, o parlamento israelense declarou Jerusalém como capital de Israel. Mas a resposta da maioria dos países foi a negativa em seguir a votação do parlamento israelense de transferência das embaixadas para Tel Aviv, seguindo a Resolução 478 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, não vinculativa, votada com abstenção dos Estados Unidos.

No entanto, isso não reverteu as intenções dos dispencionalistas em apoiar a transferência das embaixadas para Jerusalém. Também no ano de 1980, no dia 30 de setembro, foi fundada a Embaixada Cristã Internacional em Jerusalém, com o intuito de seguir promovendo o lobby sobre a questão. Desde então, várias organizações protestantes e pentecostais e contrárias às demandas palestinas foram criadas para defender os sionistas e a ida da embaixada dos EUA para Jerusalém ao longo do final das últimas décadas. Dentre elas, podemos destacar a Unity Coalition for Israel (Unidade de Coalizão por Israel) fundada em 1991, que é um dos lobbies judaico-cristãos mais ativos, Christian Friends of Israeli Communities (Amigos cristãos da Comunidade de Israela) fundada em 1995 e ligada a cerca de 40 igrejas estadunidenses, que apoiou a expansão colonial israelense em territórios palestinos, levando para lá mais de 220 mil judeus, a Christians for Israel (Cristãos por Israel) de 1979, que publica artigos contrários à causa palestina, e a mais  recente e uma das mais beligerantes Christians United for Israel (Cristãos Unidos por Israel) fundada em 2006, que se autodefine como a maior congregação pró-israelense dos EUA, e diz defender uma estratégia inspirada nas forças militares de Israel para combater aqueles que consideram oponentes de sua causa, como os palestinos e todos os povos árabes oprimidos pela existência do Estado de Israel na região.

Desde então, a relação dos governos imperialistas estadunidenses com essas organizações foi variada. O presidente George Bush foi notoriamente próximo a esses setores e manteve uma política de colaboração aberta em relação a Israel. Bill Clinton seguiu uma agenda de apoio menos ruidoso, mas George Walker Bush retomou fortemente o patrocínio às organizações protestantes pró-Israel. Já no governo de Barack Obama, o apoio aberto foi menos evidente, porém as ações frente à Síria e os conflitos regionais favoreceram Israel. Mas com o presbiteriano Donald John Trump as relações americano-israelenses retomaram sua proximidade histórica, como demonstra a recente retirada norte-americana da UNESCO em apoio a Israel, e a consequente defesa dessa mesma ação por parte do recentemente eleito governo brasileiro de Bolsonaro, algo que na presente conjuntura anuncia uma renovada autorização para o Estado de Israel seguir assassinando, oprimindo e prendendo palestinos.

Breve conclusão

A formação das diferentes vertentes dos evangélicos no Brasil foi diretamente influída pelas correntes norte-americanas. Assim, a adoção da agenda defendida pelos dispencionalistas estadunidenses encaixa perfeitamente no duplo movimento que o governo reacionário de Bolsonaro procura fazer. Enquanto busca submeter o país ainda mais aos Estados Unidos, em meio às renovadas tensões no sistema internacional que envolvem diretamente o terreno latino-americano com a crise venezuelana, tenta ao mesmo tempo atender a sua base constituída pela “bancada evangélica” que congrega 91 parlamentares, num aspecto escatológico, enquanto prepara enormes ataques às condições de vida da base dos trabalhadores frequentadores dessas igrejas. Ainda não podemos prever até onde essa concatenação de interesses levará a uma mudança concreta da agenda de política externa do Brasil. Mas os elementos que antecipa sugerem que se acelera uma situação de crise, na qual a instrumentalização de elementos da crença cristã sionista está a serviço de garantir interesses totalmente alheios aos dos trabalhadores e do povo, isto é, interesses imperialistas, opressores, como os palestinos bem o sabem, e que se reverterão em mais crise e ataques em nosso país. Desvendar essa ligação é, portanto, uma tarefa fundamental.

Referências

FIORI, José L. Geopolítica internacional: a nova estratégia imperial dos Estados Unidos. Rio de Janeiro, v. 42, n. especial 3, p. 10-17, novembro 2018.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. 1843. Disponível em < https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/critica/index.htm>. Acesso em: 20.fev.2019

REINKE, André Daniel. O sionismo cristão e sua influência na cultura protestante brasileira. Disponível em < http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:it-j1B9nOrsJ:dspace.est.edu.br:8080/jspui/bitstream/BR-SlFE/900/1/reinke_ad_tm343.pdf+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>. Acesso em 20.fev.2019

 

 

 

 

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