A caminho de um impasse estratégico entre Macron e os Coletes Amarelos?

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por Juan Chingo

O encerramento do “Grande Debate” reabre uma série de contradições, não apenas táticas como também estruturais, para Macron. Da parte dos Coletes Amarelos, estes conseguiram se estruturar ao longo do tempo e conservar o apoio social, mas sem atingir sua principal demanda que é a renúncia de Macron. É um duplo impasse estratégico, que dificilmente poderá ser mantido por muito tempo. 

O desenvolvimento do “Grande Debate Nacional” [uma manobra de consultas cidadãs impulsionada pelo governo de Macron] permitiu ao executivo francês retomar o controle de sua ação e comunicação governamental após o catastrófico mês de dezembro, quando o poder foi surpreendido pela ação espontânea dos Coletes Amarelos. Agora, com o “Grande Debate” já concluído, se reabre uma série de contradições não apenas táticas como também estruturais do macronismo, que colocam em dúvida sua capacidade de manter a ordem frente a possíveis novas erupções de contestações sociais, assim como a facilidade com que poderá retomar a ofensiva, sem grandes riscos de comprometer definitivamente um regime carcomido como o da V República.

Da parte da mobilização dos Coletes Amarelos, estes conseguiram, de maneira bastante surpreendente, se estruturar ao longo do tempo e conservar um apoio da população superior a 50%. Isso foi conseguido independentemente da conjuntura, da difamação sistemática da mobilização da parte do governo, e da repressão violenta da qual foram alvo. No entanto, as próprias características do movimento dos Coletes Amarelos o impediram de se estender para outros setores sociais de maneira a possibilitar a conquista de sua principal demanda: a renúncia de Macron. Este duplo impasse estratégico, do lado do poder e do lado dos Coletes Amarelos, dificilmente pode ser mantido no tempo.

As hesitações do governo: entre um novo imobilismo e o risco de uma crise ainda maior

As pesquisas de opinião demonstram: a magia do “Grande Debate” se dissipou. Ou, como disse um analista, atingimos “os limites da terapia de grupo”. Após uma ligeira recuperação nas últimas semanas, a aprovação do executivo recomeçou a cair, especialmente em uma parte do eleitorado de direita, ao qual buscava seduzir para compensar a perda da parte mais de esquerda de seu eleitorado. Estes setores de direita questionam a incapacidade do governo de manter a ordem depois de que as forças de repressão se expandiram novamente durante o ato XX (no sábado 30 de março).

Porém, [se no terreno da segurança as falhas têm um caráter estrutural->http://laizquierdadiario.com/Ante-el-fracaso-para-mantener-el-orden-Macron-manda-el-Ejercito-contra-los-Chalecos-Amarillos], no terreno político as contradições do macronismo não são menores. 

O governo deve se preparar, segundo alguns analistas, para tomar uma certa quantidade de decisões nesta semana. Sua procrastinação, até o momento, é resultante do fato de que Macron está ciente de que estas medidas, longe de serem unânimes e de satisfazerem a opinião de sua base, têm mais probabilidade de a decepcionar, o que agravaria a crise de legitimidade do poder, depois do “circo democrático” com o qual tentou atenuar a crise dos Coletes Amarelos.

Como dizem os jornais, seu círculo próximo está inquieto: “Às vezes o presidente vacila. Para apagar a revolta que sacode seu mandato, sonha com uma ‘medida surpreendente’. Ao fazer durar o suspense e prolongar sem cessar o ‘grande debate’, acaba preocupando seus setores mais próximos: ‘Se ele decepciona, está morto. E vai decepcionar… ’ estremeceu um deles. ‘Não vejo como saímos disso’, disse outro, angustiado. Com o retorno dos dias de sol, os Coletes Amarelos retornarão e vão instalar churrasqueiras nos cruzamentos”. 

A realidade é que os fatores que permitiram a Macron e sua construção política “nem de direita, nem de esquerda” avançar, estão chegando a limites intransponíveis. Se por um tempo a ofensiva macronista conseguiu passar uma série de contrarreformas (trabalhista, universitária como Parcoursup, ferroviária) sem grande desgaste, foi graças à tolerância de boa parte da população frente a qual o governo aparecia como da “nova política” e ao vazio gerado pela destruição das velhas coalizões políticas e o sólido apoio ou silêncio cúmplice das direções sindicais. A crise dos Coletes Amarelos colocou um grande sinal de interrogação em relação a seu “movimento triunfante”. 

A crise sem fim provocada pelo caso Benalla, o responsável pela segurança presidencial que se fez passar de policial e agrediu dois manifestantes durante o ato de 1° de maio de 2018 em Paris, danificou a aura imaculada de Macron. Por outro lado, as oposições políticas ganharam novo ímpeto, apesar de não estarem recompostas organicamente como mostram as dificuldades de uns e de outros frente às próximas eleições europeias. Testemunho disso é o papel contrabalançador do Senado frente ao caso Benalla ou a união sagrada e inédita entre socialistas, comunistas e gaullistas para lançar um Referendo de Iniciativa Compartilhada (RIP) em torno na privatização do aeroporto de Paris, pretendida por Macron: duas questões que deslocaram abertamente o Executivo, acostumado em sua vontade bonapartista – agora em crise – a governar sem oposição política e, sobretudo, social. 

O único elemento que escandalosamente se mantém é a continuação do diálogo social traidor das direções sindicais, mesmo o governo continuando a passar por cima de suas cabeças, como na recente crise da negociação sobre a reforma do seguro desemprego ou na continuidade de seu diálogo sobre a reforma da previdência. Esta política aberta de conciliação de classes de parte das direções sindicais é a outra cara de sua política criminosa em relação à mobilização dos Coletes Amarelos. Apesar de estes últimos levantarem uma demanda por melhora do poder aquisitivo, incluindo o aumento do salário mínimo, as direções sindicais mantiveram um silêncio ensurdecedor e não realizaram sequer uma mínima ação frente a repressão policial inédita e as centenas de presos e mutilados. 

Neste contexto, completamente distinto do primeiro período de seu mandato, as decisões de Macron para relançar sua presidência serão cada vez mais controversas. Se, escutando aos setores de esquerda de sua formação política, a República em Marcha (LREM), busca reduzir as tensões e fraturas sociais e territoriais (recuperando uma parte do eleitorado socialdemocrata que o apoiou no primeiro ou no segundo turno das presidenciais) através da aparência de um “giro social”, o fantasma do imobilismo e da “hollandização” (em relação ao ressonante fim da presidência de Hollande) podem persegui-lo no restante de seu mandato. 

Isto é o que temem os colunistas mais ferrenhos da patronal, como o editorialista do jornal “Les Echos”, Jean-Francis Pecresse, que considera que “o liberalismo é refém do grande debate”. Com um certo delírio político, ele afirma: “Mas, para onde foi o liberalismo? É provável que saia do grande debate pela porta dos fundos, a da redução dos impostos. Desejo ou decisão, o ministro das contas públicas, Gérald Darmanin, o confirmou neste domingo. Mas, por outro lado, não devemos esperar, lamentavelmente, que a partir de segunda-feira as queixas dos franceses no Grande Debate desemboquem em uma aspiração de maior liberdade para os empreendedores, os produtores ou os comerciantes, nem menos garantias para os trabalhadores, menos prestações sociais ou menos serviços públicos. Este não é um paradoxo menor. Por qual assombroso fenômeno um movimento social nascido de uma demanda liberalista termina em uma demanda socialista?”, para concluir reclamando que “A saudável ira do início foi tão bem desviada pela esquerda radical que será difícil, agora, para Emmanuel Macron não deixar neste Grande Debate uma parte de sua ambição liberal”. Sem compartilhar nem minimamente de sua paranoia reacionária, que vê socialismo e esquerda radical por todos os lados, seu temor é que o executivo perca “sua ambição liberal”. 

Se, empurrado pelos setores de direita de seu gabinete – do primeiro ministro até os responsáveis do Ministério das Finanças – assim como pelo Grande Capital mais concentrado, continua e radicaliza suas reformas, corre o risco de transformar o descontentamento atual em uma crise histórica da V República. Isso é o que já começa a ser percebido em relação aos mal-entendidos do gabinete, tanto em relação às questões tributárias como, principalmente, à sensível e socialmente explosiva reforma previdenciária. 

Como disse Stéphane Dupont do mesmo jornal de Pecresse: “Esta nova cacofonia, após a dos impostos, iniciada no marco do grande debate, provoca maior ansiedade. Os franceses se perguntam cada vez mais o quê vai cair em cima deles. Durante sua campanha, Emmanuel Macron prometeu não tocar na idade legal de aposentadoria de 62 anos. E este compromisso foi reiterado oficialmente no outono passado pelo Alto Comissionado para a Reforma da Previdência, Jean-Paul Delevoye. Porém, hoje isto está sendo posto em dúvida. E se voltar a se confirmar nas instâncias de alto nível, que credibilidade teria daqui em diante? Muitos franceses estão convencidos de que seus direitos serão limitados de uma forma ou de outra. Um clima de desconfiança que pesará inevitavelmente sobre a futura reforma previdenciária”.

Inclusive, não está descartado que, procurando manter sua já estreita base social, tente manter seu caduco equilíbrio político (o famoso ao “mesmo tempo” macroniano). Não só a fórmula está desgastada, mesmo tendo apenas dois anos, mas ela não satisfaz nem uns nem os outros. Aumenta as tendências centrífugas dentro do poder e alimenta os riscos de uma maior oposição política e, principalmente, social. 

A continuidade dos Coletes Amarelos e as dificuldades de sua extensão social

Com suas manifestações semanais, todos os sábados, nos últimos cinco meses, a insurreição dos Coletes Amarelos se tornou o movimento social mais longo da história do país, pelo menos nas últimas décadas. Constatar isso também significa que a aposta de Macron de combinar algumas pequenas concessões, como em dezembro – e que foram uma real humilhação para o atual poder – e uma linha muito dura em termos de repressão, de maneira a dobrar o adversário, não funcionou.

Isso não quer dizer que, do ponto de vista de sua massividade e espontaneidade, o movimento dos Coletes Amarelos não recuou, embora sem diminuir sua capacidade de resistência. Condenado a fechar sobre si mesmo, o movimento não conseguiu se expandir a outros setores sociais, em especial os jovens dos bairros populares e fundamentalmente a classe operária das grandes empresas. Os discursos emanados da esquerda institucional assim como da burocracia reformista, centrados no fato de que os Coletes Amarelos encarnariam uma mobilização de direita e potencialmente fascista, tiveram um papel evidente e evitar o contágio do movimento. A demanda de Macron aos principais patrões e CEOs de contribuir com uma bonificação de fim de ano dirigido especialmente aos trabalhadores de grandes empresas demonstra que este medo de contágio existia. Mas este risco foi interrompido, como já dissemos, pelo papel criminoso das direções sindicais que dão as costas aos setores mais empobrecidos do proletariado, que estão à frente dos protestos.

Ao mesmo tempo, é evidente que a forma particular em que o movimento se estruturou relativamente como expressão do “povo” – o que não quer dizer que foi capaz de integrar trabalhadores sindicalizados e jovens racializados – também pesou. Estas integrações de trabalhadores se realizam sobre a base da dissolução de seus pertencimentos sociais e políticos dentro de um vasto conglomerado policlassista chamado “povo”. Ou seja, não gera uma nova articulação potencialmente mais hegemônica, seja expandindo suas reivindicações (contra o racismo de Estado, por exemplo), seja com os métodos de luta próprios do movimento operário. Esta característica constitui uma das forças de atração do movimento, mas, ao mesmo tempo, é um dos limites para sua extensão. Neste contexto, entre as dificuldades inerentes ao movimento para sua extensão e a recusa do governo em encarar uma negociação séria que permita um novo pacto social com os setores mais subalternos ou marginais – socialmente ou politicamente – do proletariado, ainda mais depois de sua erupção súbita e impressionante ao final de 2018, os Coletes Amarelos estão agora em um impasse estratégico, apesar dos altos e baixos que mostram as mobilizações de cada sábado.

Dentro dessa estabilização na forma atual do movimento, alguns elementos, mesmo embrionários, nos permitiriam conjecturar a abertura de uma dinâmica que pode ser diferente. Por fora do movimento e em uma escala importante, pela primeira vez desde o início de sua luta, o “espírito Coletes Amarelos” se estendeu a um novo setor social: os professores, em especial os dos jardins de infância e das escolas primárias. Como disse um editorialista do Les Echos em um artigo intitulado “Blanquer e seus Coletes Amarelos” (em alusão ao ministro da Educação que até pouco tempo era um dos “bulldozer” reformadores do governo, e que conseguira colocar os sindicatos na defensiva). Frente a uma reforma considerada como menor, o ministro da Educação terá que enfrentar, um pouco como Macron, seus próprios “Coletes Amarelos”. Jean-Michel Blanquer “enfrenta um movimento muito difícil de apreender, porque é em parte espontâneo, multifacetado, cheio de rumores e de informações falsas e instrumentalizado pela esquerda radical. Se os sindicatos estão presentes, nem sempre estão no comando. Foram hostis com ele [Blanquer] desde que assumiu o cargo, mas nesse momento o ministro ainda contava com o apoio dos pais dos alunos. Este não foi o caso das últimas semanas”. Após a operação demagógica de sedução representada pela “lição de casa feita” ou duplicação (das salas de aula), primeiramente nas áreas carentes – mas que pesaram os ataques frontais a todas as diretrizes que ainda estavam em vigor para a educação primária.

Seria isso um sinal da entrada do conjunto dos 800.000 professores do setor público, apoiados pelos pais de alunos, em uma luta generalizada e, ao mesmo tempo, de uma possível generalização deste espírito de revolta a outros setores do movimento operário organizado? Embora a mobilização docente esteja crescendo e preocupando enormemente as autoridades, que não descartam as ameaças e gestos conciliadores para extingui-la antes que ela se desenvolva fortemente, isso ainda não foi alcançado em uma escala que permita afirmá-lo.

 

Por outro lado, a última “Assembleia das Assembleias” dos Coletes Amarelos deu um salto em escala em relação à primeira iniciativa realizada em Commercy. A última Assembleia que se realizou entre os dias 5 e 7 de abril em Saint Nazaire, reuniu mais de 200 delegações provenientes de toda a França. Isso mostra um pequeno salto na estruturação do movimento, bem como um polo alternativo em oposição aberta aos líderes autoproclamados do movimento.

 

Estas iniciativas que combinam “enfrentamento social, politização e democratização” se chocam com as duas “armadilhas” apontadas por Isabelle Garo no último capítulo – Por uma estratégia das mediações – de seu interessante livro Comunismo e Estratégia quando afirma: “Assim, em alguns aspectos, o entusiasmo pela democracia direta transmite a ilusão de um povo potencialmente reunificado, capaz de resolver as questões sociais pela via majoritária e por referendos, ignorando o choque de classes fundamental do capitalismo. Mas, ao mesmo tempo, testemunha a busca por formas contemporâneas de autogoverno que deem lugar à decisão e ao debate coletivos, levando a sério o princípio da soberania popular, contra as medidas impostas, apesar de seu rechaço majoritário nos processos eleitorais distorcidos pela chantagem do voto útil e a abstenção em massa”.

As mobilizações atuais são confrontadas diretamente com a necessidade estratégica de “reexaminar o problema da transformação social radical e de renovar a cultura revolucionária, evitando tanto o fetichismo da insurreição espontânea quanto o “cretinismo parlamentar” e a idolatria republicana, versões simétricas da recusa em considerar a construção política e social de uma correlação de força de classe como condição para a invenção de uma alternativa efetiva ao capitalismo.” 

O NPA [Novo Paritdo Anticapitalista] deveria tomar a iniciativa de ajudar a resolver essa necessidade estratégica que entra em contradição com seu projeto original baseado nos partidos anticapitalistas amplos, ou seja, um projeto partidário de caráter ambíguo programática e estrategicamente. Esta debilidade teórico-política frente ao atual movimento se expressou em uma orientação que oscila entre um apoio aos Coletes Amarelos e um desejo mais ou menos reprimido de retomar às mobilizações mais institucionais de esquerda ou ainda aos velhos movimentos sociais anti-neoliberais de décadas passadas, minimizando ou subvalorizando o caráter subversivo e revolucionário da insurgência atual, e isso apesar de todas as suas contradições. O NPA deveria tirar todas as conclusões do movimento atual que colocam mais agudamente do que nunca a questão da construção de um partido de trabalhadores e trabalhadoras revolucionários, ferramenta absolutamente central para lutar por uma hegemonia operária frente à aliança de classe necessária de maneira a levar até o fim, de maneira revolucionária, aquilo que mobilizava em seu ápice, a insurreição dos Coletes Amarelos: a renúncia de Macron – “Macron démission”.

A volta da questão social

As coordenadas da situação atual apontam, por ora, os elementos de impasse estratégico. Para definir a situação atual de confronto entre Macron e os Coletes Amarelos, é tentador utilizar a categoria de “Empate hegemônico” que Juan Carlos Portantiero, um marxista gramsciniano argentino, utilizou em seu momento. Seria uma situação onde, de um lado, o bonapartismo fraco de Macron mostra enormes dificuldades de impor um modelo de sociedade baseado em crescentes desigualdades estruturais, ou seja, exigindo sacrifícios quando os mesmos não são acompanhados por nenhuma promessa, como era o caso de Margaret Thatcher na Grâ-Bretanha, em relação às classes médias. De outro lado, apesar de que os Coletes Amarelos conseguiram colocar a questão social no centro da situação, e são sem dúvida a principal oposição a Macron, eles se enfrentam com fortes dificuldades para representar uma alternativa efetiva ao capitalismo neoliberal, que o presidente encarna.

No entanto, as tendências ao aprofundamento da crise orgânica do capitalismo francês, que se aprofundaram desde 2008 e da qual Macron e os Coletes Amarelos são dois exemplos eloquentes – um da destruição do velho sistema político e outro da crise histórica das direções sindicais frente à ofensiva neoliberal atual -, tornam pouco provável que esta situação possa se prolongar ao longo do tempo.

Por ora, a menos que o Executivo decida retroceder abertamente em suas ambições reformadoras buscando o apaziguamento social como uma parte da classe dominante recomenda, o cenário mais provável é o de uma continuidade, possivelmente radicalizada, da ofensiva atual. Deste ponto de vista, é uma aposta segura que os Coletes Amarelos serão apenas uma das primeiras expressões de uma oposição social crescente. 

Tradução: Lina Hamdan

Texto original: 

https://www.revolutionpermanente.fr/Vers-une-impasse-strategique-entre-Macron-et-les-Gilets-Jaunes

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