Teoria

FENOMENO NICOLAS DEL CANO

Uma novidade na esquerda latino-americana se expressa nas eleições argentinas

Iuri Tonelo

São Paulo

segunda-feira 17 de agosto de 2015| Edição do dia

O jovem deputado nacional Nicolas Del Caño, de 35 anos, disputará as eleições presidências em Outubro como parte da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores da Argentina, pelo Partido de Trabalhadores Socialistas. Nico, como é chamado, é sem dúvida uma novidade. O conteúdo desse “novo”, no entanto, é o que mais surpreende: a ideia de uma “nova esquerda” nas últimas décadas tem sido ligada a um abrandamento dos objetivos políticos e da estratégia, e justamente nesse ponto que essa nova alternativa se difere.

Logo depois de vencer outro representante da esquerda argentina - Jorge Altamira, histórico militante do Partido Obrero - na disputa interna da frente, Nicolas Del Caño participou de um programa de televisão muito conhecido em que o entrevistador perguntava se ele “colocará ideias inovadoras?” e dava o sentido de inovação a um “aggiornamento” (abrandamento) do programa. Sem dúvida, essa é a tragédia da esquerda internacional das últimas décadas: com a ofensiva neoliberal e a restauração capitalista nos Estados ditos socialistas, a resposta que se deixava para a esquerda, como fenômeno internacional, era fazer parte do jogo, ou seja, retirar qualquer elemento anticapitalista de sua perspectiva.

Assim, as iniciativas que iam surgindo se incorporavam rapidamente ao sistema e ao regime político, para logo fracassarem como alternativas. Como dizia a música, o novo já nasce velho quando o assunto era conformar uma resposta dos trabalhadores. A experiência do Syriza soa como as novas ilusões perdidas da esquerda internacional, ilusões rapidamente perdidas, pois não duraram nem seis meses.

Qual a novidade então? Para fazer uma abstração filosófica invertendo o discurso dominante, podemos dizer que o novo, nesse caso, é reascender boas ideias que se perderam, resignificá-las e oferecer o combustível que lhes faltava: torná-las força material.

A primeira “causa perdida” - abandonada pela esquerda do último período – que a expressão de Del Caño recoloca é a proposta de renovar a esquerda a partir do único sujeito que pode impactar decisivamente a realidade e criar uma alternativa política real: a classe trabalhadora. Nicolas Del Caño se candidatou numa chapa para as prévias da eleição junto a cerca de outros de 1800 candidatos de sua chapa, sendo alguns lugares como a zona norte de Buenos Aires chegavam a ser 40% dos candidatos operários industriais, o que faz da imagem de Nico não àquele que resolverá os problemas (uma esquerda “em nome dos” trabalhadores), mas o símbolo, a expressão, de uma vanguarda de centenas de operários que querem fazer política.

A ideia resgatada de Marx aqui, valiosa para nossos tempos, é de que “a emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores”. E Nico expressa isso não porque é uma figura apenas das eleições, mas porque atua num partido com uma estratégia de se ligar intimamente a classe (PTS), e desenvolve a atividade parlamentar no mesmo sentido, ganhando como um operário (seguindo as lições da Comuna de Paris) e doando o resto do seu salário para as lutas, atuando na linha de frente dos fechamentos de rua e piquetes dos operários nas suas lutas fabris etc, enfim, estando diretamente ligado aos interesses dos trabalhadores.

A segunda ideia-força da novidade de Del Caño está justamente em combinar a intransigência nas ideias de transformação revolucionária da sociedade com a criatividade e ousadia de pensar as formas de disputar essas ideias hoje. O partido de Del Caño, o PTS, foi impulsionador de uma importantíssima rede de diários latino-americanos La Izquierda Diário (que agora chegou à França e a uma versão em inglês) que buscava pensar todas as formas - e mesmo aprender com outras experiências internacionais - de transmitir a uma escala de centenas de milhares de acessos (chegando a quase um milhão de acessos mensais) a estratégia anticapitalista e a necessidade de uma revolução social, traduzidas em reflexões mesmo cotidianas sobre política, economia, movimento operário, cultura, sexualidade, teoria etc.

O sucesso da iniciativa é impressionante e se expressou na própria campanha política nas eleições, pois criava mecanismos de Nico aparecer para os trabalhadores não só pelas possibilidades que oferecem a estrutura política (como rádio e TV), mas também com notas, vídeos, entrevistas e uma série de recursos no La Izquierda Diário que possibilitavam o público acompanhar, conhecer e se apropriar das ideias defendidas por Del Caño e o PTS. Em síntese, uma combinação audaciosa entre não abrir mão das ideias e, mais que isso, se reinventar e pensar todos os meios para fazê-las chegar aos trabalhadores.

O terceiro elemento da possibilidade de emergência de Nicolas Del Caño está na política no interior da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT). O PTS, partido de Nico, ainda que não tenha a mesma estratégia de organizações como o PO e a Izquierda Socialista, que compõe a frente, foi bastante entusiasta de sua conformação. No entanto, combina o chamado de unidade no interior da frente, com uma defesa incondicional de promover o debate das diferenças estratégicas e táticas no interior da FIT, debate aberto diretamente com a vanguarda dos trabalhadores, com a confiança de que esses debates e a experiência é o que podem ajudar a amadurecer uma alternativa política operária no país.

Por isso travou uma batalha decisiva para que a FIT não se tornasse uma esquerda testemunhal que quisesse “levar a verdade” aos trabalhadores, acabando marginal e superestrutural. Ao contrário, para o PTS, a FIT deveria ser a voz viva desses trabalhadores e, nesse sentido, abrir alas para uma forte renovação. Mesmo as outras organizações divergindo desse conteúdo, o PTS buscou até o último momento uma chapa comum para as eleições e frente a negativa travou o saudável debate que levou a ascensão de Nico como principal figura política nacional hoje da FIT, candidato a presidência em Outubro.

Certa vez, Karl Marx, fundador do socialismo científico, escreveu uma dura crítica a uma unificação programática que houve entre dois grupos do movimento operário internacional (programa de Gotha), dizendo que o acordo no programa era um amálgama sem princípios. Então Marx sugeria que “cada passo no movimento real vale mais do que uma dúzia de programas” [desse tipo]. Expressando esse espírito, o PTS tem a audácia de desenvolver a FIT, sem esconder as diferenças que existem e fazendo o debate sabendo da importância de refleti-las, mas também buscando os acordos que permitem construir uma alternativa de independência de classe hoje na Argentina, na justa medida em que, ao não ser uma experiência na ação (mas um frente eleitoral), a combinação entre os acordos nunca pode se deslocar do aprofundamento dos debates e o embate de ideias e políticas.

Por todos esses motivos, podemos dizer que essa expressão de Nico do PTS é uma forma de leninismo do século XXI. Nessa expressão carrega-se os elementos mais fundamentais de Lenin, a saber, a) a busca de fazer força material nos trabalhadores (militância operária, candidaturas operárias); b) a busca de levar as ideias para milhões, com um jornal diário latino-americano (correspondente a nossa época analogamente ao “jornal centralizado em toda a Rússia” que propunha Lenin em seu tempo); c) a combinação entre intransigência estratégica e flexibilidade tática, ou seja, a manutenção da perspectiva da revolução e de uma estratégia revolucionária, combinada com a audácia política de fazer essa estratégia tornar-se força material, promovendo no plano político a FIT, debatendo com a esquerda, refletindo as táticas utilizadas etc.

Possivelmente, até Outubro a candidatura de Nicolas Del Caño deve crescer ainda mais, atingindo centenas de milhares ou talvez até mesmo mais de um milhão de votos. Frente à bancarrota das formas “bolivarianas” na América-Latina (todas de governos que gestionavam o Estado burguês) e agora da rápida débâcle do Syriza na Grécia, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores da Argentina, com Del Caño como símbolo dessa mudança, pode ser um sintoma do futuro da esquerda na região, uma esquerda que quer colocar os trabalhadores como protagonistas da mudança e que não teme dizer a que veio: lutar pela revolução socialista internacional.




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