Política

GOLPE INSTITUCIONAL

Por que os golpistas querem adiantar a votação do impeachment?

Em dois dias se iniciam os jogos olímpicos no Rio de Janeiro. A expectativa é que até seu encerramento, em 21 de agosto, haja alguma trégua nas disputas políticas em Brasília. Enquanto isso, os articuladores golpistas tem trabalhado para uma antecipação do julgamento do impeachment no senado, indicado pelo presidente do STF, Ricardo Lewandowski, para iniciar dia 29. A proposta que o trio do PMDB, Romero Jucá, Renan Calheiros e Michel Temer, acordou hoje e o presidente do Senado anunciou, é que o julgamento seja iniciado dia 26, com o objetivo de estar encerrado ainda em agosto – na previsão inicial de Lewandowski, que presidirá o julgamento, a duração seria de uma semana.

Evandro Nogueira

São José dos Campos

quarta-feira 3 de agosto de 2016| Edição do dia

O afã de Jucá

Na tentativa de explicar e enfatizar sua pressa, Jucá chegou ao ponto de dizer, “todo mundo trabalha final de semana, porque senador não pode?”. Certamente que o senado poderia funcionar aos finais de semana, em regime que discutisse propostas reais para os grandes problemas do país, como emprego, educação e saúde, porque isso nunca foi questionado antes? Lewandowski, contudo, disse em reunião com o presidente da comissão especial do impeachment no senado, Raimundo Lira (PMDB), que não pretende marcar sessões no sábado e domingo, pois isso seria uma intromissão no processo, já que o senado não trabalha nesses dias.

O afã de Jucá é tanto que chegou a dizer “Não vou aceitar isso, vou fazer confusão! Lewandowski combinou isso com quem? Ele não é senador. A decisão não é dele, é dos senadores. Temos uma reunião com ele quarta-feira, e espero que os líderes tenham coragem de dizer isso a ele, como estou dizendo. Este é o primeiro golpe parcelado da História, é o golpe Casas Bahia, a cada mês uma parcela de golpe”.

Dois pesos, duas medidas

Ainda argumentando sobre essa antecipação, Jucá também disse que "Não dá para o presidente do país chegar a uma reunião do G-20 como interino. Isso faz mal ao país", referindo-se à reunião marcada para o início de setembro, na China. Esse comentário, aliado à indicação de Temer de que não compareceria ao G-20 caso o julgamento não estivesse concluído, desnudam como os próprios articuladores do golpe sentem a pressão internacional sobre a situação mal resolvida, a falta de legitimidade do governo.

Afinal, se é verdade que Temer comparecer como interino ao G-20 “faz mal ao país”, como disse Jucá, porque a condição de interino também não impede Temer de aplicar as medidas que transformarão a CLT em história? A completa falta de legitimidade do governo para comparecer a compromissos internacionais, o que também se percebe, por outro lado, pela baixíssima presença de líderes do G-20 que estarão na cerimônia de abertura das Olimpíadas, não deveria, por lógica, também impedir que o mesmo governo, interino, embarcasse na aplicação de reformas legislativas tão profundas e de graves consequências para o país?

Cunha homem-bomba?

A verdade é que, além da completa falta de coerência dos comentários de Jucá, outro fator político importante pode trazer mais instabilidade ao frágil governo Temer até o final de agosto. Trata-se de uma possível delação premiada de Eduardo Cunha, caso sua cassação seja confirmada pelo plenário da câmara de deputados.

O atual presidente da câmara, Rodrigo Maia (DEM), após ser pressionado para a leitura do parecer que pede a cassação de Cunha, que por sua vez já estava pronto desde antes do recesso parlamentar, disse que "A leitura será na segunda e vamos organizar uma data em que o plenário esteja cheio para realizar a votação”. Há notícias de que Eduardo Cunha está coletando informações sobre financiamento de campanhas e já teria uma “pilha” de documentos que indicam distribuição de cargos e empréstimos. O levantamento sobre sua ajuda aos muitos aliados que teve durante os últimos anos causa medo a Temer, naturalmente, pois eram velhos aliados.

Relatório de Anastasia

Apesar da indefinição sobre o início e prazo do julgamento, nessa terça-feira o relator da comissão especial do impeachment, Antonio Anastasia (PSDB), iniciou sua leitura do documento de mais de 400 páginas. A proposta é que seja votado na próxima terça-feira, 9. No relatório as pedaladas fiscais foram definidas como “atentado à constituição”, seja por ação direta ou por omissão, apontando a aceitação da acusação e prosseguimento do processo, como era esperado.

Chama mais atenção, contudo, certas pérolas de ironia pronunciadas por Anastasia, como os elogios ao poder legislativo, que seria “a caixa de ressonância da sociedade”, seu “representante maior”, enquanto o mesmo poder legislativo há tempos está profundamente questionado, com vários investigados pela própria Lava Jato – basta lembrar que há menos de dois meses vazou pedido de prisão para os dois presidentes do legislativo, Eduardo Cunha, atualmente afastado, e Ranan Calheiros.

Por que os golpistas pressionam por menos de uma semana para votação?

Apesar de alegarem que a pressa na votação esta relacionada ao G20, para fechar logo acordos de comercio internacional, temendo maiores instabilidades geopolíticas. Pós Brexit, uma possível, ainda que não tão provável eleição de Trump que poderia mudar toda a configuração do comercio exterior.

Além disso, é provável que os golpistas estejam preocupados com o quorum da votação do impeachment, uma vez que muitos senados se ausentarão no mês de setembro, para concorrer a eleições e apoiar seus aliados. Daí a pressa.
O fato é que a rejeição ao governo Temer é alta demais e os principais ataques que deve implementar ainda não foram aplicados. A pressão para isso tem crescido diariamente e o governo sabe que resolver a questão do impeachment é vital para isso. Se depender do PT nada além dos discursos será feito contra a consolidação desse golpe institucional.




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