Cultura

CENSURA

O que a censura da Banda Aláfia nos diz sobre a TV Cultura

Apesar de ter recuado uma semana depois após as críticas, o fato é que a TV Cultura censurou um trecho da música “Liga nas de Cem” da banda Aláfia que criticava Dória e Alckmin no programa Cultura Livre, além de mudar a linha do Programa Roda Viva para favorecer Temer e as Reformas. Qual o impacto do Golpe institucional na linha da emissora?

Pedro Pellegrino

Estudante de Ciências Sociais da UNESP

sexta-feira 28 de abril| Edição do dia

Quem é o Aláfia?

A banda paulistana Aláfia formada em 2011, possui três album lançados e estão na estrada há quase seis anos. Com influências dos mais diferenciados estilos musicais de origem negra e letras que confrontam com duras críticas os diversos tipos de preconceito de nossa sociedade. Traça em sua musicalidade um caminho que vai dos toques de terreiro do Candomblé ao Funk Carioca. Passando pela Funk Music, Jazz, ritmos Latinos e com notada ênfase nos elementos da cultura Hip-Hop, criando uma atmosfera musical única. O conteúdo crítico das letras impressiona os ouvintes com o choque de realidade, denunciando as diversas formas de opressão do sistema capitalista, remonta passagens da escravidão até os dias atuais. O racismo é tema central, mas o preconceito de classe, o machismo, a LGBTfobia e a intolerância religiosa não ficam de fora. Ao som de instrumentos ancestrais e sintetizadores, as mazelas do capitalismo são colocadas em evidência. Dando voz a todas as ‘quebradas’ e indivíduos que sofrem às mais diversas formas de violência as margens da sociedade.

A Censura

No dia 11 de abril, o Aláfia participou do programa “Cultura Livre” da TV Cultura. O programa idealizado por Roberta Martinelli, está no ar desde 2009 e tem como intenção abrir espaço para novos artistas e bandas brasileiras. Todas as músicas apresentadas neste dia, por meio de transmissão ao vivo, não sofreram nenhuma alteração ou interferência. Porém, no dia 18 do mesmo mês, quando editada para ser disponibilizada via internet, a faixa ‘Liga nas de cem’ do ultimo álbum lançado pela banda (SP não é sopa, na beirada esquenta) sofreu uma descarada censura na parte da letra onde criticam os políticos tucanos João Doria e Geraldo Alckmin. A censura ocorreu de maneira sutil, os editores do programa cortaram o trecho em que os nomes são citados. Após o ocorrido a apresentadora declarou nas redes sociais (Facebook) “sempre lutei pela liberdade na curadoria e para os artistas. Assim, o programa virou um importante canal da música brasileira que acontece agora. Jamais censuraria qualquer tipo de posicionamento político, editaria ou tiraria vídeos do ar por motivo de livre manifestação. Não aprovo tal prática”

“Liga nas de cem que trinca
Nas pedra que brilha
Na noite que finca as garra
SP é fio de navalha
O pior do ruim
Doria, Alckmin
Não encosta em mim playboy
Eu sei que tu quer o meu fim.”

Um dos integrantes da banda, Jairo Pereira, em depoimento disse: “A violência se mostra nos vetos e cortes, já vimos isso num passado recente, qual será o próximo episódio? Silenciar nossa voz, que clama por justiça, num veículo que devia dar voz a povo, por ser um veículo público de comunicação, só nos mostra o tamanho da cerca que estão construindo”.

E segue:

“Somos contra a violência do Estado, somos contra a higienização sistêmica que zela pelos direitos do opressor pintando de cinza a existência do oprimido. Nossa liberdade de expressão não elegeu alvos, muito pelo contrário, ela denuncia a massa de mira voltada cotidianamente contra nossas testas. Ao editarem nossa música, provaram por A + B que a carapuça está de acordo com o tamanho. Não houve consulta nem aviso prévio. O que fizeram foi uma violência contra nossa arte e isso deve ser denunciado, para que coletivamente possamos compreender que estamos diante de uma política inspirada no AI-5, um atentado desumano contra nosso direito de manifestar nossa insatisfação e repúdio ao que nos fere.” (Entrevista para coluna da revista Forum)

Programa Roda Viva: A mudança da linha editorial para embelezar as Reformas

Em sua fala, Jairo, mostra seu repúdio e preocupação com o fato ocorrido. Faz referência as medidas repressoras (AI-5) tomadas nos anos de ditadura no país e o quanto a atual conjuntura política com os abusos e ataques desse governo golpista tem violentado toda a população: do artista ao trabalhador precarizado. A notável mudança da linha editorial do programa Roda Viva que vem visando embelezar Temer e as suas reformas é outro exemplo claro. Pouco tempo após ao golpe, foi ao ar no dia 14/11, a entrevista com Temer feita por jornalistas do Grupo Estado e da Folha que possuía claramente suavizar as reformas e o próprio golpe. Na época essa entrevista fez o cantor Chico Buarque retirasse a sua música “Roda Viva” da abertura do programa (link). Pouco tempo antes havia ido ao ar o programa que entrevistou o Ministro da Educação Mendonça Filho e da mesma forma serviu apenas para tentar legitimar a absurda Reforma do Ensino Médio, tendo entre seus entrevistadores apoiadores de peso do projeto como Mozart Neves Ramos (diretor do Instituto Ayrton Senna), Monica Weinberg (editora-executiva da revista Veja), Maria Alice Setubal (presidente do conselho do Cenpec e herdeira do Itaú) e Guiomar Namo de Mello (integrante do Conselho Estadual de Educação de São Paulo). No programa desse último dia 17/04 o plano de embelezar a Reforma Trabalhista a partir da entrevista do deputado relator do projeto Rogério Marinho do PSDB, só não deu certo porque entre os entrevistadores estavam o Juiz do Trabalho Jorge Luiz Souto Maior que foi a “contra mola que resiste” e roubou a cena ao denunciar e desmascarar os argumentos do deputado sobre esse grande ataque aos trabalhadores de todo o país.

TV Cultura e Após o Golpe

Este episódio da Censura da Banda Aláfia nos abre o debate para colocarmos em discussão qual o verdadeiro papel da emissora, sendo ela uma TV pública. A TV cultura foi criada em 1960, mantida pela Fundação Padre Anchieta que se sustenta com verba pública do governo estadual de São Paulo e com recursos privados. Neste contexto, não é de se espantar que a emissora proteja quem financia sua existência. A censura no ‘Cultura Livre’ nos esfrega na cara a contradição de uma TV pública que se expõe autônoma dos interesses políticos, mas por debaixo dos panos protege o governo golpista tucano.




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