Política

E A DIREITA, ONDE ESTÁ?

O peso de Kátia Abreu

Desde que Dilma tomou posse para o segundo mandato, muito se falou daqueles ministros e demais membros de sua equipe que representariam os “elementos da direita” no governo. Kátia Abreu, junto ao ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e outros poucos, eram tratados ora como a “encarnação do mal” dentro de um organismo sadio, ora como meros apêndices ou até "penduricalhos" à direita.

Edison Urbano

São Paulo

quarta-feira 27 de janeiro de 2016| Edição do dia

Kátia Abreu, Dilma Rousseff, Mauricio Macri

De um modo ou de outro, tudo enquadrado como um simples gesto de conciliação, destinado a garantir estabilidade ao governo; tudo, enfim, bem na lógica do petismo mais profundo...

O tema foi tratado em prosa e verso, e em particular a esquerda petista e demais governistas envergonhados o seguem explorando. Alguns com a ilusão de que alguma pressão poderia fazer Dilma se desfazer desses maus elementos. Outros, mais cinicamente, usavam e usam a crítica exclusiva a esses alvos, como forma sorrateira de tentar “salvar” a imagem do governo – e da presidente e seu partido - como se estes ainda pudessem vir a encabeçar um governo de transformação social, desde que “depurados” das más influências.

É evidente a ingenuidade ou hipocrisia da narrativa. A começar pelas pastas que Levy e Kátia Abreu ocupavam. Sobre a Fazenda, nem cabe comentário; mas sobre a pasta de Agricultura, da sra. ministra, vale refletir um pouco mais. Afinal, num país de formação semicolonial como o nosso, o entrelaçamento entre o interesse do latifúndio e o das finanças internacionais parece que nunca será suficientemente ressaltado.

Um braço forte do governo

Não é só pelas declaração duras que deu desde empossada, nem apenas pelas inúmeras fotos e demonstrações públicas de harmonia com a presidente Dilma. Em diversos temas críticos para o governo, como sobre a questão indígena e em particular durante o auge do massacre dos Guarani-Kaiwaá (que ainda persiste), Kátia Abreu mostrou sempre falar com autoridade pelo governo a partir de sua pasta estratégica. Convém não esquecer ainda que Kátia Abreu foi cogitada para ocupar a vaga de Mercadante na Casa Civil, antes da opção pelo petista Jacques Wagner.

Mas é na atual conjuntura que a sra Abreu pode ganhar um peso político ainda superior, quando o governo ainda não pôde derrotar totalmente o fantasma do impeachment, enquanto o cenário econônomico segue se deteriorando. E isso no quadro mais amplo do giro à direita em todo o mapa político da América do Sul.

Dilma-Macri: Uma agenda neoliberal profunda?

Do ponto de vista objetivo, não surpreende que o giro à direita nas cúpulas políticas da região fortaleça também aqui, em nível nacional, os elementos mais reacionários, seja no governo petista ou fosse em qualquer outro governo burguês, a menos que a resposta das massas se fizesse sentir com força através de uma mobilização independente.

Depois da vitória de Macri na Argentina – logo seguida pela da oposição de direita na Venezuela –, a ministra Kátia Abreu parece querer aproveitar o cenário para se projetar com um novo protagonismo, dentro de um gabinete com pouca iniciativa devido à crise política.

Na segunda-feira, a Folha de São Paulo deu destaque para uma entrevista com a ministra, onde dizia que o país precisa ser mais "ambicioso e agressivo" e acabar com a proteção contra concorrência externa para alguns setores.
"Não pode ter proteção", disse Kátia à Folha ao propor que o Brasil busque mais acordos de livre comércio com outros países. Sobre o novo presidente direitista Mauricio Macri, ela nutre esperanças que vá trazer “credibilidade” e ”revitalização ao Mercosul”.

Em outras palavras, Abreu vê a vitória de Macri como uma oportunidade para que Brasil, Argentina e toda a região possam aceitar um grau maior de subordinação às potências imperialistas, limitando-se a tentar tirar algum proveito disso para seus interesses estreitos de classe.

Para deixar claro a que veio, a ministra usou uma fraseologia de impacto: "Dizem que para uns viverem outros têm que morrer. Quando você abre um mercado, é claro que uns adoecem e outros falecem, mas é o jogo", justificou a ministra. Sua meta pessoal é elevar a participação do agronegócio brasileiro no comércio mundial de 7% para 10% até 2018. Se isso conduz o país a retroceder ainda mais em seu nível de industrialização, e aprofundar seu status subordinado, isso não faz parte das preocupações da ministra, ou dos setores de classe que ela representa. Parece que também faz cada vez menos do governo de que participa, a despeito de toda a retórica “soberanista” de petista e consortes.




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