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O "chefe secreto" e a mídia burguesa

No último domingo (04-01), o programa "Fantástico", da Rede Globo, apresentou mais uma edição da série "O chefe secreto", que consiste em disfarçar um patrão e infiltrá-lo como operário de sua empresa. O fato é que, por trás da peruca e da dentadura, não há nada de secreto nesse chefe, encontra-se o patrão que os trabalhadores estão cansados de conhecer, que assedia e explora, e uma mídia à serviço da burguesia.

terça-feira 5 de janeiro de 2016| Edição do dia

"Ele está no topo, é o cabeça, o homem mais importante da empresa"

No último domingo (04-01), o programa "Fantástico", da Rede Globo, apresentou mais uma edição da série "O chefe secreto", que consiste em disfarçar um patrão e infiltrá-lo como operário de sua empresa.

A reportagem tem início com a declaração de que "o homem mais importante da empresa " vai "conhecer o outro lado da moeda, ver a empresa pelo lado dos funcionários". É o patrão que pensa, que comanda, o líder, sem o qual a empresa não funcionaria, mesmo que, no chão da fábrica, ele não tenha a menor ideia do que se passa no dia-a-dia do trabalhador. E, ainda que seu trabalho intelectual seja insubstituível - diante da massa de trabalhadores braçais descartáveis do outro lado -, esse patrão se importa com seus funcionários: vai deixar seu cargo de lado por uns dias, para entender (e, claro, melhorar) a vida do trabalhador em sua empresa, "descobrir os sonhos de quem faz diferença" ali.

Trata-se de uma empresa paranaense que fabrica produtos plásticos de engenharia, com 7 unidades no país e 950 funcionários. O chefe, Gilmar Lima, segundo a notícia, teve de ralar muito para se tornar engenheiro e chegar onde chegou e, ainda por cima, ser um pai exemplar, com fama de "presidente bonitão". Passará por três estados estratégicos para sua empresa, para descobrir se ela "está no caminho certo". Quer "aproveitar ao máximo essa oportunidade e iniciar uma transformação na organização".

"Faz uns trinta anos que eu não entro em um ônibus"

A ideologia burguesa por trás da proposta e do discurso da reportagem está mais do que nítida. Para a Globo, o telespectador não pode desconfiar que, em uma empresa, o homem mais importante seja aquele que produz, o operário, o trabalhador, mas deve assimilar a necessidade de um proprietário que, com seu "calibre intelectual proveniente apenas de mérito", assiste de fora, sem nem saber o que se passa no chão da fábrica, lucrando e tendo um padrão de vida imensamente superior, a partir da exploração do trabalho alheio.

E, na verdade, no lugar de querer conhecer "os sonhos de quem faz a diferença", como se referem ao trabalhador que deve se iludir achando que pode mudar de vida e, para isso, tem que dar seu suor na empresa - sem que, do outro lado, o patrão transpire uma gota sequer -, o intuito da experiência está nas entrelinhas: fazer crer no chefe "bom moço", como se este não dependesse, para existir, do roubo de horas de trabalho do operário (a tal mais-valia, para Marx), e, claro, melhorar a produtividade da empresa, seja identificando equipamentos que prejudicam o ritmo de trabalho, seja identificando os trabalhadores que, segundo uma nota do G1, "fazem corpo mole". Em última instância, a proposta é maximizar a exploração, assediar e demitir.

O Esquerda Diário

Desde seu lançamento no Brasil, em 2015, e como parte da rede internacional de diários digitais, a proposta do Esquerda Diário tem sido dar voz aos setores mais oprimidos e explorados da sociedade. Assm, em tempos de "O Chefe Secreto" no horário nobre, que serve, mais do que nunca, para enterrar qualquer dúvida de que uma mídia burguesa possa ser progressista ou estar ao lado dos interesses das mulheres, dos negros, dos LGBTs e da classe operária como um todo no Brasil, surgimos como uma mídia que se propõe a ser uma alternativa, financiada independentemente.

Com a crise econômica e política e os trabalhadores na mira dos ajustes, questionamos a fundo a propriedade privada como base de um sistema que depende da exploração e que tem golpeado com violência os setores de onde provém seu lucro para tentar se recuperar. Por isso esse chefe e qualquer outro patrão nunca será secreto: numa sociedade de classes, pautada pela propriedade privada, ele é irremediavelmente parte de uma classe, que tem interesses próprios e inconciliáveis aos dos trabalhadores. Estes que, por sua vez, como força independente, carregam os germes para se libertar dos grilhões da propriedade privada e construir outra sociedade, sem patrões.




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