Juventude

DOSSIÊ 8 DE MARÇO

Nesse 8 de Março, lutar contra o machismo na universidade

Neste ano, o 8 de Março ocorrerá frente a um chamado de paralisação internacional, com protagonismo das mulheres. Um 8 de Março com a força das milhões de mulheres que marcharam contra Trump nos Estados Unidos e se levantaram contra os feminicídios na Argentina, pelos métodos da classe trabalhadora. No Brasil, é extensa a lista de ataques que os governos ajustadores querem descarregar sobre nós, ataques estes que, não nos enganemos, vão atingir com ainda mais força as mulheres e os setores mais oprimidos pelo capitalismo. Nas universidades, as reitorias também fazem coro aos governos e assim também nos levantamos neste 8 de Março

sexta-feira 3 de março| Edição do dia

O machismo institucional que estrutura as universidades no Brasil não é de hoje. Para começar, o 8 de Março neste ano se dará em meio à recepção dos ingressantes e às calouradas, que, em muitos cursos, são marcadas por trotes violentos e misóginos. O elitismo que perpassa o ingresso em centros de conhecimento aos quais a maioria da população não tem acesso organiza uma “hierarquia” na qual os veteranos usam da violência e da opressão contra ingressantes (hierarquia que o termo “bixo” já demarca com precisão).

Todos os anos, nessa época de recepção, nossos noticiários ficam repletos de centenas de notícias absurdas, que chegam a queimaduras, mortes e muitas denúncias de estupro. A opressão faz parte do trote. As calouras são forçadas a responder perguntas sobre sua intimidade, assediadas, alcoolizadas, estupradas. Denúncias vêm à tona todos os anos. E a reitoria se cala. A CPI dos estupros na Medicina de prestigiadas universidades como a USP e a Unicamp passa batido. Muito diferente do que quando as e os estudantes se organizam por seus direitos - a resposta repressora é imediata. Os lutadores são punidos, os estupradores, perdoados.

Entretanto, não é apenas aí que o machismo institucional das reitorias se manifesta. As mulheres mães, estudantes e trabalhadoras, são lembradas todos os dias de que a universidade não é para elas. As condições de permanências são precárias ou inexistentes. Na Unicamp, faltam estúdios (casas para as famílias) na moradia estudantil e os horários da creche não batem com as aulas. Exclusão semelhante sofrem as LGBTs, que quando expulsas de casa não têm direito à permanência estudantil, e nem mesmo têm o nome social respeitado pelas instâncias da universidade. Além disso, a assistência psicológica não é pensada para os setores oprimidos, que são hostilizados diariamente dentro e fora do ambiente universitário e não têm nem acesso ao tratamento psicológico necessário para conseguirem lidar com isso.

Em tempos de crise, essa política excludente só se aprofunda. As creches são as primeiras a serem cortadas, assim como as políticas de permanência. Zago, na USP, é o inimigo dos trabalhadores e das creches, como mostra a medida de fechamento da creche Oeste. O intuito é descarregar a crise nas costas dos funcionários, e em especial das funcionárias, e precarizar - demitir e sobrecarregar. Essa é a cara da chamada PEC do Fim da USP que será votada no próximo dia 7 pelo Conselho da Universidade. E sobre a precariedade das condições de trabalho, a UNICAMP tem muito a ensinar. A terceirização do trabalho na limpeza, nos restaurantes e em serviços de manutenção é uma de suas “marcas”, que conta com a precarização do trabalho de centenas de mulheres negras. Também na crise, nesses postos altamente rotativos, muitos são cortados, os materiais são reduzidos e elas devem trabalhar ainda mais, muitas vezes sem reajuste de salário.

A própria produção de conhecimento, lucrativa e voltada às empresas, não responde às necessidades das mulheres trabalhadoras. No ano passado, o escândalo dos casos de anencefalia foi marcado também por uma ausência de resposta, nos grandes centros de pesquisa, que revelou as prioridades das universidades no Brasil, em um tema que dizia respeito diretamente à saúde e ao futuro das mulheres. Não é incomum assistir às aulas com logos de empresas nas salas. Entretanto, a busca por resposta dos problemas que afetam mais diretamente a população não cabem nesse projeto de universidade. Muitas vezes, a história das mulheres e dos setores oprimidos e seus feitos para a ciência não cabem nos currículos e as próprias licenciaturas, desvalorizadas, constituem-se alheias aos debates de gênero e sexualidade, como política dos governos e das reitorias. O que dizer agora com a Reforma do Ensino Médio?

Até mesmo o descaso com hospitais que atendem a população e que têm sofrido cortes milionários na UNICAMP e ameaça de desvinculação na USP atingem em cheio também as mulheres, sendo maioria responsável pelos cuidados da família. Quando o sistema de saúde vai mal, muitas mulheres deixam de trabalhar e tornam-se cuidadoras em casa de seus familiares doentes. Sem falar da própria precariedade da assistência com a saúde da mulher.

Está mais do que claro que a crise e os ataques chegam à universidade e são sentidos todos os dias pela comunidade acadêmica (sem tocar nos privilégios do alto escalão da burocracia, é claro), pela população e pelos setores oprimidos. Neste 8 de Março, nós, mulheres, que construímos a universidade todos os dias, temos um desafio colocado: ligar nossa defesa contra todas as violências que permeiam e ameaçam nossas vidas, como o medo de andar nas ruas e na universidade, à defesa de outro projeto de educação pública, gratuita e de qualidade. Um projeto que realmente sirva às mulheres trabalhadoras, negras, mães, jovens, em aliança com as trabalhadoras e os trabalhadores de nossa universidade e da sociedade que paralisarão nesta data. Contra os projetos privatistas que colocam a universidade em risco, como vemos com a UERJ, a Fundação Santo André, a PEC do Fim da USP e os próprios cortes na UNICAMP, que nos levantemos por nossas vidas e pelo nosso direito ao futuro!




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