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ELEIÇÕES SP | Não é possivel enfrentar a extrema direita com a política de Haddad

Pela primeira vez em décadas, o estado de São Paulo vê a hegemonia tucana do PSDB no governo ameaçada, ainda que seja sempre bom ressaltar que não está morta. Isso porque em todas as pesquisas até o momento Rodrigo Garcia, o candidato oficial do PSDB ficou em 4º lugar, atrás de Fernando Haddad (PT), Tarcísio de Freitas (Republicanos – o candidato de Bolsonaro) e Márcio França (PSB). Em algumas pesquisas Garcia chegou a marcar míseros 5% das intenções de voto.

sábado 25 de junho | Edição do dia

Esse cenário também nos coloca diante de uma outra novidade, um petista estar à frente das intenções de voto no estado de São Paulo, reduto e bastião psdebista histórico. Junto com outra novidade histórica, que é o fortalecimento do candidato bolsonarista, o general da reserva Tarcísio de Freitas, com um perfil político muito parecido com o que foi o malufismo, que representava a continuidade com a ditadura simbolizadas em alguns bordões como “rouba mas faz”, “rota na rua”, “estupra, mas não mata”. Esse setor político nunca sumiu. Depois da decadência eleitoral de Paulo Maluf, foi o PSDB que absorveu a direita mais dura e nojenta de São Paulo. Em 2018 o “Bolsodoria” foi a expressão de que junto com o bolsonarismo o velho malufismo - e todo o seu peso das polícias militares e nos porões - voltariam com força. Para combater esse setor, que representa a reação mais violenta contra a classe trabalhadora, o povo negro e as periferias, a juventude, os LGBT, é preciso luta e mobilização e não aliança com o PSDB.

Fazendo um retrospecto rápido, o estado de São Paulo é governado pelos tucanos há 25 anos, e é justo lembrar que dessas mais de duas décadas mais da metade com Geraldo Alckmin. Dória, que não é do núcleo fundador e mais tradicional do PSDB, um estranho no ninho, já foi expressão da crise desse domínio do PSDB tradicional em São Paulo, que o PT, por sua capitulação, adaptação e adoção do neoliberalismo e das alianças com a direita (como o aperto de mão de Lula e Haddad em Paulo Maluf para firmar o apoio deste à candidatura de Haddad a prefeitura), não conseguiu capitalizar. Mas Dória derreteu por que frente a polarização social crescente, deu sinais contraditórios. Da fórmula Bolsodoria, se fortaleceu o bolsonarismo em detrimento de Dória e do PSDB. A principal fraqueza de Rodrigo Garcia, para além da falta de entusiasmo na máquina do PSDB pela sua candidatura é que representa a continuação da mesma política de Dória. Márcio França, que durante boa parte dessas décadas governou junto com Alckmin e o PSDB, talvez seja inclusive a opção preferencial de continuidade para o tucanato neoliberal histórico em São Paulo, na medida em que não conta com o desgaste histórico do PSDB.

É nesse contexto que Fernando Haddad e o PT aparecem em primeiro lugar na disputa eleitoral para governador de SP, fortalecido pela polarização política nacional entre Bolsonaro e Lula, que também se expressa nas eleições locais. E precisamos dizer bem abertamente: sua política representa uma boia de salvação para o tucanato tradicional e é impotente para combater a extrema-direita que se aglutina em torno de Tarcísio. Alckmin pretende usar sua influência como vice de Lula, evidentemente, para se fortalecer na sua base tradicional e, se Haddad vencer, lotear o máximo que puder o secretariado do Haddad com tucanos do ninho. Em recente participação no programa Roda Viva da TV Cultura, Fernando Haddad apontou de forma bastante transparente quais serão as táticas adotas pelo partido para lidar com os seus competidores durante a campanha eleitoral. Além de Tarcísio de Freitas, que mencionamos acima, Haddad também precisou responder como fará a sua campanha para o governo de São Paulo tendo que encarar a contradição de que a atuação do PT no estado sempre foi de oposição aos governos do PSDB e, principalmente, de oposição aos governos de Geraldo Alckmin, histórico quadro e dirigente tucano, que oportunamente trocou o partido pelo PSB para ser o candidato a vice de Lula na campanha presidencial.

O legado do PSDB e de Alckmin de ataques ao funcionalismo paulista, desvio de verbas, ataques, privatizações e inúmeros absurdos contra a educação, foi colocado por Haddad no campo das pequenas divergências, disputas menores, que o PT historicamente teve e tem com o PSDB, no marco de serem os dois grandes irmãos do regime político de 1988. O diálogo e trânsito, como os políticos burgueses costumam falar, entre Haddad e Alckmin foi bastante elogiado pelo petista na entrevista, relembrando quando estavam na prefeitura e governo, respectivamente, e juntos atuaram reprimindo e contendo as mobilizações de Junho de 2013. Agora Fernando Haddad conta novamente com a dupla e dobradinha com o eterno tucano Geraldo Alckmin, para subir nos palanques eleitorais e diminuir a resistência da base paulista do PSDB ao PT, com o discurso de que os antigos adversários respeitosos se juntem agora para derrotar o candidato de Bolsonaro.

Mas a tática de Haddad não foi só subestimar os ataques do PSDB no estado e colocar tudo como divergências menores dentro da democracia. Também usou um recorte temporal para conseguir criticar de alguma forma o PSDB. Para o petista o dramático e problemático está somente nos anos de João Doria que, vejam só, “comprometeu o partido ao aderir ao bolsonarismo”. Além disso, reforçou o quanto considera estratégico ter ao seu lado Márcio França (PSB), ex-governador e vice de Alckmin, como seu vice ou como candidato ao Senado. E fez isso dizendo orgulhoso que seu aliado é um tucano histórico dentro do PSB. Essa fala de Haddad mostra que para o petismo é fundamental as alianças com o maior número possível de tucanos, neoliberais e representantes da direita, justamente por isso também destacou a aliança com Marina Silva, da Rede e ligada ao banco Itaú.

Nas últimas décadas, mais ainda em São Paulo, nos acostumamos a ver PT e PSDB como os grandes rivais da política, que teriam projetos contrapostos. As declarações de Lula, que disse que as brigas com PSDB eram como brigas de amigos e outras como essas de Haddad e outros petistas podem parecer chocantes, mas a verdade é que as declarações atuais são mais condizentes com a real política petista das últimas décadas, mais do que toda a retórica de polarização eleitoral anterior entre os dois partidos, se olharmos a fundo e não de maneira superficial.

Basta ver, por exemplo, como Haddad fala sobre economia, como fez no Roda Viva recentemente, relembrando que quando foi prefeito deixou os cofres da prefeitura de São Paulo positivos, numa cidade com déficit habitacional, déficit de vagas em creches e pré-escolas, transporte público sucateado e servidores municipais sem reajuste salarial há anos. Garantindo aos empresários seus compromissos com a responsabilidade fiscal acima de tudo, para além da retórica. Se colocou como quem entende os empresários, explicando que na verdade antes de professor, é um empresário do ramo do comércio. Que mesmo que esteja ali alertando os empresários, como um bom conselheiro, que só com ataques, sem nenhuma concessão, a crise social pode explodir e atrapalhar os lucros. E mesmo assim, entende as necessidades de “fechar a folha”, o que em bom português significa maximizar os lucros a cada dia, demitindo, reduzindo salários, aumentando preços, ou como seja.

A confluência com a política do PSDB se revela também se junta a esse posicionamento de amigo dos empresários, olharmos a política do PT nos sindicatos, para além dos discursos em época de eleição ou na tribuna parlamentar. São Paulo, o ninho tucano por excelência, também é onde o PT dirige os principais sindicatos do país, entre eles o sindicato de professores do estado de São Paulo, o maior sindicato do Brasil, a Apeoesp.Uma das principais bases sindicais e políticas do PT em São Paulo são os professores, uma categoria massiva e que em diversos momentos mostrou força e compreensão da situação política do país. Não por acaso, foi às ruas em 2016 contra o golpe institucional, mesmo enquanto a Apeoesp e Maria Izabel Noronha, presidente do sindicato e deputada estadual pelo PT, desorganizavam a luta dos professores e praticamente pediam que ficassem quietos nas suas escolas, enquanto Alckmin implementava de forma velada a reorganização escolar, que na prática era o fechamento de dezenas de escolas e centenas de salas de aula, que no ano anterior os estudantes barraram com as ocupações de escolas e os professores mostraram uma força tremenda com uma greve de 92 dias, que ganhou uma adesão que há muito não se via. O PT fechou os olhos para a disposição de luta dos estudantes e professores não só em relação aos ataques brutais que Alckmin estava fazendo no governo, mas também contra a investida reacionária do golpe institucional que o PSDB estava comprometido. Portanto, também em São Paulo e mesmo no momento decisivo, o que primou para o PT foi a colaboração histórica entre amigos, como afirmam agora Haddad, Gleisi Hoffmann e Lula em toda e qualquer oportunidade.

Para enfrentar a extrema direita Bolsonarista, representada pelo general Tarcísio de Freitas nas eleições e acertar as contas com esse passado tucano neoliberal em São Paulo, faz falta uma alternativa independente, que retome a experiência de décadas de lutas contra o PSDB e o malufismo e supere a política de conciliação do PT. O PSOL, com suas alianças com a Rede de Marina Silva, seu apoio ao PT e sua política de boa vizinhança com o mercado financeiro não é essa alternativa. O PT e o Haddad jogam agora uma boia salva-vidas para esse partido que compartilhou com o petismo a estrutura política do país nas últimas décadas. Somente pela via da mobilização, unificando trabalhadores do município e de todo o estado, com o conjunto da classe trabalhadora é que realmente acabaremos com as políticas tucanas em São Paulo.




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