ELEIÇÕES BOLÍVIA

Fracasso humilhante dos golpistas na Bolívia é uma grande derrota de Bolsonaro

Há um ano do golpe de Estado da extrema direita xenófoba da Bolívia, orquestrada nos bastidores pelo governo Bolsonaro e o Itamaraty junto à Forças Armadas, as eleições presidenciais bolivianas representaram uma derrota contundente para os golpistas Áñez e Camacho.

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 19 de outubro| Edição do dia

Há um ano do golpe de Estado da extrema direita xenófoba da Bolívia, orquestrada nos bastidores pelo governo Bolsonaro e o Itamaraty junto à Forças Armadas, as eleições presidenciais bolivianas representaram uma derrota contundente para os golpistas Áñez e Camacho. Os resultados de boca de urna mostram que o candidato do MAS, Luis Arce Catacora, venceu o pleito já em primeiro turno, com 52,4% dos votos. O direitista Carlos Mesa ficou num longínquo segundo lugar, com 31% dos votos, e Luís Camacho amargou um humilhante terceiro lugar, com apenas 14% dos votos. Jeanine Áñez, que presidiu a Bolívia por um ano após o golpe, já havia retirado sua candidatura por antecipação, devido à catástrofe dos resultados previstos. Foi a primeira a parabenizar o MAS pelo triunfo, com um tímido desejo de que “governem pela democracia”.

Arce venceu com folga em vários departamentos bolivianos, como La Paz, Cochabamba, Oruro, Pando e Potosí. Mesa conquistou Tarija, Beni e Chuquisaca, enquanto Camacho ficou cercado em seu reduto de Santa Cruz, não podendo ganhar terreno em outros departamentos. O MAS venceu a maioria nas duas Câmaras também, conquistando os votos da classe média de La Paz e outras regiões. Nos departamentos de maioria camponesa e indígena, o candidato do MAS também obteve resultados arrasadores.

Esse resultado é o retrato de um governo catastrófico dos golpistas, prenhe de casos de corrupção envolvendo desvio de verbas que deveriam auxiliar o combate à pandemia, e de duros ataques contra os trabalhadores e camponeses bolivianos.

Para além do fracasso humilhante da extrema direita na Bolívia, os resultados eleitorais representam uma derrota rotunda a Bolsonaro e a extrema direita brasileira. Bolsonaro não foi apenas um apoiador fanático do golpe, mas foi um dos seus parteiros diretos. Como havia divulgado o jornal boliviano El Periodista, em novembro de 2019, a oposição direitista boliviana, em áudios trocados, afirma que sua atuação tem o respaldo direto de Bolsonaro e da cúpula das Igrejas brasileiras. Membros do Partido Republicano de Trump, como o senador Ted Cruz, também participaram da articulação dos policiais e militares de extrema direita. Um lambe-botas exímio de Trump, Bolsonaro já havia apoiado a tentativa de golpe de Juan Guaidó na Venezuela, e não foi diferente na Bolívia.

Áudio dos golpistas envolvendo Bolsonaro no golpe

O “chanceler” bolsonarista, Ernesto Araújo, também envolvido nas negociações de apoio ao golpe de Estado, havia se pronunciado em favor da “transição democrática” encabeçada pelos fuzis do Exército boliviano. Tão mergulhado esteve nas urdiduras golpistas que o porta-voz do Comitê Cívico de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, chefe da extrema direita que foi ao Palácio do Governo armado e com uma Bíblia, tenha se encontrado com Araújo e afirmado que recebeu deste instruções sobre como agir.

Ao golpe de Estado, seguiu-se uma verdadeira “caça às bruxas”, com demonstrações de racismo e violência contra os setores mais oprimidos do país, em especial, os indígenas, com bandeiras Whipala sendo queimadas por policiais, militares e fanáticos religiosos. Instruções à altura do trogloditismo da extrema direita brasileira, apoiado em Trump e no imperialismo norte-americano.

Com todo esse ativismo político na arquitetura do golpe, não há dúvida que o bolsonarismo, e toda a direita latinoamericana (Ivan Duque na Colômbia, Piñera no Chile, etc.) foram os grandes perdedores da jornada. No Chile, a jornada coincidiu com protestos de massas em Santiago no primeiro aniversário da rebelião popular de 2019 contra o regime herdeiro de Pinochet, para pesar de Eduardo Bolsonaro, que derramou suas lágrimas nas redes.

As coisas já não iam bem na Colômbia, cujo governo amigo de Bolsonaro viu protestos de massas da juventude contra a violência policial. Perdido agora o "posto avançado" na vizinha Bolívia, Bolsonaro se dependura cada vez mais do destino incerto de Trump nas presidenciais de 3 de novembro nos Estados Unidos. Uma vitória de Joe Biden e do imperialista Partido Democrata tornaria o final de 2020 no annus horribilis para a extrema direita brasileira, depois de ter acolchoado sua aprovação no auxílio emergencial.

Veja também: Podcast internacional sobre as eleições estadunidenses, Biden v. Trump

Outro grande perdedor foi a cúpula golpista das Forças Armadas. Não apenas na Bolívia, mas também no Brasil, cujo alto comando militar conhecia perfeitamente a situação boliviana, e deu luz verde ao comandante-chefe das Forças Armadas da Bolívia, general Williams Kaliman. O fortalecimento dos militares na política regional, e brasileira em particular pode sofrer o impacto boliviano, já que a situação não é mais àquela em que policiais amotinados desfilavam seu racismo pelas ruas de La Paz.

A vitória de Luis Arce, escusado é dizer, não implica o desaparecimento da corrente camachista na Bolívia. A extrema direita, por mais contundente que se apresente sua derrota e sua incapacidade de avançar além das fronteiras da velha oligarquia cruceña, permanece como corrente política. Camacho buscará aparecer como principal oposição, mesmo tendo ficado atrás de Carlos Mesa, robustecendo com ajuda das potências estrangeiras a política de ódio contra os trabalhadores e camponeses bolivianos.

Tanto maior é o escândalo das negociações e acordos que o MAS de Evo Morales entreteve com os golpistas durante todo o ano de 2020. O MAS freou a resistência heróica da população de El Alto, de Cochabamba e distintos departamentos em função do estabelecimento de um itinerário eleitoral "calmo e pacífico" com a extrema direita. A revolta no bairro de Senkata, que paralisou as instalações energéticas mais importantes do país, foi desativada com a atuação direta dos masistas. O obstáculo do MAS à luta de classes não teve uma responsabilidade menor para os massacres de Senkata, Sacaba e Ovejuyo.

A tal ponto chegaram os acordos com os golpistas que a presidente da Câmara dos Senadores, Eva Copa, do MAS, saiu lado a lado com Áñez assegurando sua cooperação total nos trâmites que pavimentariam as eleições. Mesmo com as manobras antidemocráticas contra o voto popular, como a anulação dos resultados preliminares pelo TSE, Evo Morales chamou todos a "respeitar" o processo e não cair em provocações. O ultrapragmático Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo, tem bom trânsito pelas patronais que avalizaram o golpe de 2019, e já deu sinais de que seguirá a linha de defesa da burguesia boliviana que marcou os governos de Evo, pactuando com os golpistas num governo de "unidade nacional", como ele mesmo disse.

Embora Morales tenha chegado à presidência em 2006, expressando o enorme rechaço social às políticas neoliberais implementadas na Bolívia, uma vez no poder implementou uma forte cooptação e estatização das organizações de massas. Isso debilitou sua capacidade de resistência e as desarmou frente aos ataques da direita. Uma direita que manteve seu poder econômico, político e social, garantidos pelos acordos feitos com o governo de Evo Morales em 2008, na mesma medida que todos os governos “progressistas” sul-americanos. Essa política de cooptação das organizações operárias (como a Central Obrera Boliviana) e camponesas, sob a base da corrupção das camadas dirigentes, estabeleceu sobre elas um férreo controle político e converteu a burocracia sindical em polícia política no interior dos sindicatos colaborando com a perseguição e criminalização dos sindicatos independentes.

Luis Arce terá de lidar com as contradições sociais derivadas da enorme crise econômica e sanitária, e com uma base camponesa, indígena e operária que resistiu ativamente ao golpe. Essa base segue sendo majoritariamente ligada a Evo, o que coloca limites para que Arce imite seu homólogo equatoriano, Lenín Moreno, que assim que assumiu a presidência iniciou a perseguição aos seguidores de Rafael Correa. Arce não é Evo, e o "milagre" econômico com o qual ficou marcado, na década de boom das commodities, já não tem condições de se repetir na atmosfera envenenada da crise mundial.

Como dizem os companheiros da LOR-CI, organização irmã do MRT na Bolívia e que atuaram no seio dos processos de resistência contra o golpe, é compreensível que diante da barbárie direitista a população trabalhadora tenha votado em Arce. Não votamos no MAS, mas acompanhamos o processo dos setores populares com este partido, sem deixar de denunciar suas constantes capitulações, não somente na recente crise política, mas também em seus pactos com diferentes setores da direita durante os 14 anos na administração do Estado capitalista boliviano. A extrema direita precisa ser combatida nas ruas: estamos do lado dos setores mobilizados contra o golpismo. Estivemos e permanecemos junto aos setores populares, frente a qualquer ameaça de fraude e junto ao direito legítimo de defender seu voto, sem que isso signifique dar qualquer apoio político ao MAS.

Na Bolívia como no Brasil, é uma tarefa de primeira ordem preparar as bases de partidos de trabalhadores revolucionários, que superem pela esquerda a experiência dos governos "progressistas pósneoliberais" que abriram caminho às distintas variantes do golpismo de extrema direita.

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