UNICAMP

Estudantes da Unicamp realizam cortejo de protesto no Instituto de Artes

quinta-feira 2 de abril de 2015| Edição do dia

Na última terça-feira (31 de março), cerca de 70 pessoas participaram do cortejo pela inauguração do teatro-laboratório do Instituto de Artes da Unicamp, cuja construção está paralisada por quase dois anos.

A concentração para o cortejo aconteceu no vão ao lado do Instituto, local ocupado pelos estudantes em 2013 como espaço de vivência, e cerceado pela reitoria no final de 2014 com os mesmos cortes de árvores vistos no Instituto de Estudos da Linguagem e na Faculdade de Educação. Coincidentemente, esses três institutos estavam entre os mais ativos durante a greve das três estaduais paulistas no ano passado, provando que os cortes das árvores são apenas mais uma faceta do projeto de “campus tranquilo” da reitoria, que ataca a vivência no ambiente universitário, estruturando-o de uma forma que impede a socialização e consequente mobilização dos estudantes.

Em ato, os estudantes seguiram pela rua que contorna a praça do Ciclo Básico, cantando palavras de ordem relacionando a construção inacabada - que se transformou em criadouro de mosquitos da dengue - aos diversos ataques à educação desferidos pelos governos estadual e federal.

Depois de passar em frente a diversos institutos, o cortejo finalizou em um terreno vazio ao lado da obra abandonada. Lá, os alunos cortaram uma fita vermelha esticada, simulando um ritual de inauguração que abriu espaço para a atuação simultânea de quatro cenas de teatro pelos veteranos do curso de Artes Cênicas.

O evento se locomoveu de volta ao vão da concentração inicial, continuando com várias apresentações artísticas dos estudantes. Caio Thompson, membro da atual gestão do Centro Acadêmico do Instituto de Artes (CAIA) e estudante de Midialogia, foi um dos organizadores do cortejo, e afirmou ao Esquerda Diário que “o Instituto de Artes na Unicamp é sem dúvidas o mais sucateado de todos aqui, ele representa o que é o sucateamento das universidades estaduais".

Sobre a importância do cortejo, Caio afirma que “lutar pelo que sabemos ter direito é um passo muito importante para incutir nos estudantes a luta pelo que queremos. O cortejo é importante para mostrar pros estudantes da universidade que estamos mobilizados, que não só podemos como queremos lutar pelo que temos direito. E isso é só o começo. Com a pauta do teatro inserida, podemos inserir outras grandes pautas e daí unificar com os estudantes de outros institutos, de dentro e de fora da Unicamp, e derrubar esse projeto de universidade que está sendo imposto a nós”.

Entre o público que acompanhou a mobilização, um grupo de ingressantes no curso de Medicina se destacou, por ser uma presença incomum no Instituto. Quando perguntados sobre a importância do cortejo, dois deles - Paula e Pedro - responderam que “é necessário, completamente necessário que lutem pelo teatro do IA. É um absurdo que um dos pilares da universidade seja a extensão e não exista um teatro”, e que “é também ridículo que não exista verba, porque a Unicamp gasta 8 milhões para a assinatura de revistas científicas online, que não são usadas e estão disponíveis apenas para alunos da Unicamp e diz não ter verba para arrumar o teatro. Ainda mais por receber a 2ª maior verba entre todas as universidades públicas no país, sendo que divide essa verba em um número muito baixo de cursos”.

O barracão

Enquanto a construção do teatro não é finalizada, os estudantes têm suas aulas teóricas e práticas no pavilhão conhecido como “barracão”. Ingressante no curso de Artes Cênicas, Débora relatou ao Esquerda Diário as condições estruturais do local: “a gente sofre bastante com a estrutura, as paredes das salas são pretas e fazemos aula sem ventilador. Os professores não gostam que liguemos os ventiladores. O que acontece é que suamos muito, passamos mal e nossa pressão cai”.

Gabriel, também calouro do mesmo curso, completou que “além das questões estruturais, as pessoas acabam criando a ideia de que a arte tem de ser improvisada, que não existem condições para que ela possa ser produzida, que ela não precisa de estrutura nem investimento”.

O estudante também destacou a importância social do teatro como instrumento que emana cultura para fora do Instituto, apontando que sua ausência “impede que outras pessoas conheçam nosso trabalho e tenham acesso”.

Sobre a construção

A obra do teatro-laboratório do Instituto de Artes da Unicamp, iniciada em 13 de junho de 2011, estava prevista para terminar em um prazo de dois anos, mas se encontra parada na primeira etapa de construção desde setembro de 2013, devido a falhas de execução encontradas durante uma fiscalização pela equipe de Coordenadoria de Projetos e Obras da Unicamp.

Um laudo pericial feito pelo Departamento de Estruturas da Faculdade de Engenharia Civil apontou problemas dentre os quais se encontram fissuras nas paredes, trincas e deslocamentos de vigas de sustentação. Enquanto a responsabilidade pelos erros é empurrada entre empresa e construtora, a reitoria se ausenta do debate, embora estudantes afirmem que ela negligenciou as fiscalizações iniciais, que poderiam ter constatado os problemas antes que eles alcançassem maiores proporções.

Até o momento não foi apresentado um prazo para o início das correções e retomada da construção. O local encontra-se abandonado e parcialmente engolido por mato alto, e materiais de construção - além de duas escadas de metal incompletas - apodrecem com a exposição à chuva e ao sol. Somando-se a isso, a execução incompleta do subsolo do prédio criou um vão de água represada, transformando o local em ponto de água parada em uma região conhecida por apresentar surtos de dengue. Embora os responsáveis afirmem que a água é retirada diariamente, estudantes delatam que os intervalos entre os serviços de drenagem chegam a uma semana, o que deixa a população universitária à mercê do Aedes aegypti e aumenta ainda mais as filas de espera nos corredores já superlotados do Hospital de Clínicas.




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