ATO NO RIO

Em ato com críticas ao governo, Lula promete mudanças mas esconde negociação com direita

Diante de críticas e exigências que se combinavam aos cantos de "Lula lá", o ex-presidente fez promessas de mudar a política econômica e até mesmo de pautar temas democráticos que não havia pautado em seus dois mandatos como educação sexual nas escolas, tratar o aborto como questão de saúde pública e até mesmo alguma regulamentação da mídia. Estas promessas e expectativas se chocarão com um governo que negocia com a direita caso o impeachment seja derrotado?

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

terça-feira 12 de abril de 2016| Edição do dia

Milhares de cariocas se reuniram ao lado dos arcos da Lapa na região central da cidade. Os organizadores, da Frente Brasil Popular e da Frente do Povo sem Medo ainda não divulgaram número de presentes, o Esquerda Diário estima em cerca de 30mil presentes. A manifestação de hoje no Rio de Janeiro é parte de uma série de manifestações marcadas por estas forças até o dia da votação do impeachment no plenário da Câmara domingo.

Debaixo de críticas por não ter implementado a reforma agrária, por não realizar nenhuma democratização dos meios de comunicação e por não governar pelo programa que foi eleito, o tom crítico presente na manifestação de hoje se combinou aos fortes cantos de “Lula lá” e do novo slogan “Lula ladrão, roubou meu coração”. Com esta plateia Lula caprichou nas promessas, da educação sexual nas escolas, passando pela promessa de outra política econômica a até mesmo pautar o aborto como questão de saúde pública e implementar alguma “regulamentação dos meios de comunicação”.

Marcando a diferença do que foi o ajuste até aqui e o ajuste que ele pretende implementar, Lula falou que esta alteração na política econômica era o que havia permitido que ele assumisse um ministério, e, segundo ele, Dilma teria aprendido esta lição. Ao mesmo tempo que Lula teceu promessas, dignas de um discurso eleitoral de 2018, as críticas presentes no dia de hoje marcam uma contradição caso o PT consiga derrotar o impeachment e com a popularidade do ex-presidente conseguir fortalecer o governo.

A contradição do “dia depois de amanhã” (caso o golpe institucional, via parlamentar, seja derrotado) é como não alienar e perder o apoio dessa base crítica que em ampla maioria quer que Lula governe mas quer um governo pautado pelos discursos eleitorais e não pelas negociatas com a direita, de Kátia Abreu, Maluf, Collor e Kassab e outros avatares do "progressismo" e da governabilidade (conservadora).

Muitos artistas e algumas críticas importantes aos governos petistas

A manifestação foi convocada sob o lema “Cultura pela Democracia” reuniu uma parte importante dos artistas e intelectuais do país, e mesmo alguns que não estavam presentes enviaram vídeos ou tiveram seus nomes citados (como Caetano Veloso) em manifesto lido na mesma. Estiveram presentes ou enviaram vídeos: Chico Buarque, Wagner Moura, Simone Spoladore, Leonardo Boff, Otto, Ziraldo, Alceu Valença, Beth Carvalho, Fernando Morais, Gregório Duvivier, Letícia Sabatella, Rico Dalasam, Tico Santa Cruz, Nelson Sargento, Eric Nepomuceno, Luiz Carlos Barreto, Gregório Duvivier, Jards Macalé, Aderbal Freire Filho, Zé Celso, entre outros. A manifestação contou também com a presença de juristas e de dirigentes do PSOL, do presidente nacional do PDT, da CUT, do MST e MTST além de Lula.

Concorrendo com o astro da noite, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, as falas mais aplaudidas foram falas mais críticas ao governo Lula e Dilma, sobretudo do ator e escritor Gregório Duvivier e da liderança indígena Sonia Guajajara.

Entre falas de juristas que destacavam como impeachment sem crime de responsabilidade seria golpe, Duvivier remarcou como nunca tinha votado em Dilma e que estava naquele ato para dizer “mais que fica Dilma” mas que “ela melhore”, que “governe para a esquerda, para o projeto que foi eleita”. Esta crítica, junto a seu canto pelo “fim da polícia militar” foram dos pontos mais aplaudidos do ato junto a fala de Sônia Guajajara que fez enfática defesa da remarcação das terras indígenas criticando os governos petistas ao que foi respondida pelos presentes com cantos exigindo a saída da ruralista, e amiga de Dilma, Kátia Abreu.

O tom crítico marcou muitas falas, até mesmo o MST, que nas palavras de Stédile remarcou tom mais vermelhos do que o usual. Ele cobrou que o governo de agora em diante não negocie com oportunistas da direita, que implemente a reforma agrária, e uma reforma tributária contra os ricos, uma reforma dos meios de comunicação e ainda prometeu que as manifestações de sexta-feira também convocadas pela CUT fossem para parar o país, que ninguém fosse trabalhar.

É digno de nota como tanto o líder do MTST, Guilherme Boulos, como o representante da maioria do PSOL, José Luís Fevereiro da Unidade Socialista, foram menos críticos do que alguns dos artistas presentes. Boulos nem mencionou a palavra ajuste ou fez qualquer crítica ao governo, limitou-se a falar contra a direita e o impeachment e clamar (ao vento) pela continuidade da mobilização depois de domingo. O mesmo tom foi dado pelo representante do PSOL que remarcou como seu partido seria uma “oposição democrática ao PT” e levantou pontos de programa (comuns ao MST, por exemplo) mas que até domingo o país estaria dividido em contra ou a favor do impeachment. Primeiro o impeachment depois o resto parece permear a estratégia dos setores organizados mais críticos neste ato (destoando de artistas mais críticos que esta esquerda, e que ergueram a voz contra a violência policial nas favelas e foram enfáticos em sua defesa das reformas urbana e agrária).

Também é digno de nota como nenhuma das centrais sindicais presentes ecoaram, minimamente a proposta de “parar o país” feita por Stédile do MST. Isto esteve ausente, como esperado, da fala do presidente da CUT, do presidente da CTB mas também da fala de Índio da Intersindical.

Com críticas mas sem nenhuma exigência concreta, sem um movimento real de trabalhadores para lutar, com seus métodos, contra o impeachment, as intermináveis demissões e os ajustes, Lula esteve livre para discursar mesmo com voz embargada para fazer promessas à esquerda sem comprometer-se com nada e ao mesmo tempo omitindo suas negociações com a direita.

Juras de esquerda, cafezinhos com a direita, a contradição de Lula

Lula discursou com voz embargada mas mesmo assim pode exibir sua habitual verve e capacidade de empolgar multidões relatando “causos” como conversas com George W. Bush, negando a apoiar a invasão do Iraque, coisa que até gente de direita como Schroeder e Chirac também negaram.

Além disto Lula apoiou-se em habitual defesa do Prouni e do acesso de milhões às universidades (privadas e garantindo felpudos lucros à Kroton-Anhaguera, Estácio, diga-se de passagem). Porém, além do habitual, Lula discursou como lhe custava encarnar o “Lula, paz amor” mas que, diferente dos tucanos, governaria para todos. Prometendo o que nunca cumpriu, discursou a favor da educação sexual nas escolas, sobre tratar o aborto como questão de saúde pública e até mesmo alguma regulação da mídia passou por suas palavras. Também remarcou como implementaria outra política econômica, não uma recessiva como a de Dilma, mas uma que colocasse dinheiro nas mãos das mulheres pobres que movimentam a economia.

Não só demagogia deve ler-se neste discurso, mas uma tentativa de erguer um outro tipo de ajuste que combine algum incentivo ao crédito com medidas estruturais (reforma da Previdência, por exemplo) para oferecer um ajuste mais palatável ao movimento “não vai ter golpe” ao mesmo tempo que mostre serviço à elite e ao imperialismo.

O que mais chamou atenção no discurso de Lula foi a ausência das negociações com parlamentares da direita e do chamado "baixo clero". Cobrado por Duvivier, por Stédile e por outros, para que ocorresse uma reforma ministerial para ter um governo de esquerda, Lula sequer mencionou as negociações com a direita para barrar o impeachment.

Neste ponto reside uma importante contradição do “depois de amanhã” caso o impeachment seja derrotado. Dilma perdeu apoio rapidamente ao governar fazendo o oposto que tinha prometido. Sob expectativas maiores, diante de um importante movimento democrático do funcionalismo público, da juventude e setores de movimentos sociais, como Lula conseguirá administrar expectativas de maior combate à direita com um governo que precisa da mesma para se manter e oferecer a gregos do “mercado” e troianos dos “movimentos sociais” orientações econômicas e políticas discrepantes?

Rumaremos a um choque entre estas expectativas e a realidade do “governar para todos”, que na verdade sempre favorece mais a FIESP e o imperialismo que o povo?

Lula conta com duas vantagens para seu voo contraditório, vantagens que lhe diminuem as contradições entre o que fala e o que faz.

A primeira e mais importante é a inação da CUT que contenta-se em chamar os trabalhadores com ocasionais panfletos nos locais de trabalho para se somar as manifestações como cidadãos sem lutar contra o impeachment com seus métodos (assembleias, greves, piquetes). Conta também com a mesma central (e também a CTB, e até mesmo a Intersindical) para não promover nenhum sério plano de lutas contra as demissões e os ataques do governo (ao funcionalismo, à educação, à saúde). Do contrário a saia justa providenciada por artistas no dia de hoje pautaria a realidade nacional e colocaria a continuidade do governo com uma corda no pescoço. Há freios burocráticos à ação da classe trabalhadora, não só contra o golpe institucional mas também na defesa de suas reivindicações como emprego, salário, saúde, educação.

Secundariamente, Lula também conta com o silêncio de críticas de Boulos e do MTST a seu governo e também com a fratura que a maioria do PSOL faz entre o que fazer agora (primeiro derrotar o impeachment) e o que fazer depois (sabe-se lá quando, visto que todo ano passado primaram pelos acordos com o MTST e Boulos que secundarizava, tal como hoje, a luta contra os ajustes). Sem um claro movimento que exija da CUT, da CTB, da UNE que larguem sua subserviência ao governo e organizem um plano de lutas, Lula pode falar na Lapa o avesso do que negocia no Golden Tulip, onde instalou seu QG em Brasília.

Estes limites burocráticos e da esquerda são importantes. Mas serão determinantes no caso de uma vitória do governo contra o impeachment, ou uma situação econômica desfavorável cobrará seu preço?

A contradição está lançada. Em uma intensidade maior do que foi o voto “de esquerda” no segundo turno de 2014. Para que esta contradição e experiência seja processada pela esquerda, e não pela desilusão, faz falta uma esquerda revolucionária que trave um combate contra o impeachment, contra os ataques do PT e as demissões patronais em cada local de trabalho. Que busque organizar as forças da classe trabalhadora exigindo dos sindicatos e centrais sindicais ações concretas. Esta é a batalha que o MRT e a Faísca -Juventude Revolucionária e Anticapitalista buscam dar diariamente, seja através do Esquerda Diário em suas páginas online e impressas, mas também para que seja uma posição construída em cada local de trabalho e estudo.




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