Gênero e sexualidade

ASSÉDIO NO METRO DE SP

Caso chocante de assédio no metrô mostra insuficiência da campanha da empresa

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

sábado 22 de agosto de 2015| Edição do dia

Esta semana, no dia 20, surgiu nas redes sociais um relato chocante em que uma moça descrevia uma cena de assedio sexual que sua amiga tinha presenciado no Metrô de São Paulo. O assedio teria ocorrido na linha 3 - vermelha entre as 8h e as 9h da manhã, horário em que os trens naquele momento circulavam com velocidade reduzida e maior tempo de parada. Uma menina, que pelo relato aparentava entre 16 e 17 anos, começou a ser encoxada no trem e ao questionar o homem que a encoxava ouviu do mesmo que "se ela quisesse espaço não deveria estar lá". Mesmo assim ela continuou a reclamar e ouviu de um terceiro usuário "estupra ela pra ela saber o que é encoxada de verdade", e então o resto do vagão começou a gritar "Estupra! Estupra!". Em seguida os dois homens, o que a encoxava e um outro, foram para cima da menina e tentaram segura-la. A amiga da moça que escreveu esse relato, que foi quem presenciou todo o acontecido, ajudou a menina a se soltar dos homens que a seguravam e a levou até a porta do trem para que ela descesse na próxima estação, Bresser-Mooca.

A menina se encontrava em estado de choque, sem conseguir falar, e a moça que a auxiliou disse ter levado a vítima do assédio para a SSO (Sala de Supervisão Operacional - da estação do Metrô) onde teriam buscado ajuda. Pelo o que conta a usuária que relatou o caso, a resposta que tiveram dos funcionários foi que o registro não poderia ser feito porque a menina não estava em condições de depor. Sendo assim, a moça que a auxiliou só poderia naquele momento aguardar que os parentes da menina agredida a buscasse na estação.

No relato que tomou as redes sociais a usuária questiona a postura dos funcionários do Metrô, que no último mês lançou uma campanha propagandeando em seus trens e estações que as "mulheres não estão sozinhas" e que "o abuso sexual é crime", assim como reivindica que o Metrô treine seus funcionários para agir de forma correta nesses casos.

Em primeiro lugar queremos expressar nossa indignação com um caso tão chocante e brutal do machismo na sociedade, onde uma mulher é vítima de um assédio coletivo como esse, numa incitação ao estupro. Este é mais um caso que mostra a importância dos trabalhadores, e nós metroviários em especial, assumirmos coletivamente, a partir das nossas organizações, como o Sindicato dos Metroviários, a luta contra o machismo e o assédio sexual, pois está claro que a empresa e o governo nada vão fazer de consequente para coibir esse tipo de ação escandalosamente machista.

Além disso, sempre apontamos que a superlotação do Metrô facilita a atuação de abusadores, por exemplo os "encoxadores", que praticavam o assedio sexual nos trens encoxando usuárias, se aproveitando da superlotação, e depois compartilhavam o assedio que tinham cometido em uma página do facebook.

Abuso sexual no Metrô

Conforme texto escrito anteriormente para o Esquerda Diário, essa não é a primeira denuncia que o Metrô de São Paulo recebe por abuso sexual. No caso ocorrido com a jornalista do R7, quando houve a acusação de que os funcionários não prestaram auxílio de forma correta, a empresa responde dizendo que foi um fato isolado e que os funcionários agiram de forma "totalmente contrária à orientação do Metrô de amparar as vítimas e auxiliá-las para a realização de um Boletim de Ocorrência".

Sobre o relato dessa última quinta-feira, a Companhia do Metropolitano de São Paulo foi mais além e afirmou que "analisou as imagens da estação Bresser-Mooca e da SSO da estação, mas não encontrou nenhuma cena onde a suposta vítima e a jovem que a ajudou aparecessem. Além disso, não há registro de boletim de ocorrência nem de testemunha do caso", como declarou ao portal R7. Duvidar do relato da vítima e deslegitimar o que foi dito é um ato utilizado há muito tempo para fazer as mulheres passarem por loucas e dissimuladas.

A Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Metroviários de São Paulo nos informou que está buscando maiores informações sobre o caso, mas de acordo com a mesma, os funcionários da estação Bresser-Mooca afirmam que a vítima não buscou atendimento na estação.

Campanha publicitária do Metrô de São Paulo contra o abuso

A mesma empresa hoje que nega esse caso, e que trata como "caso isolado" os seus funcionários agirem de forma errada, é quem faz a falsa campanha contra abuso sexual em que o mote é a frase: "Você não está sozinha. Abuso sexual é crime. Denuncie" sob fotos de seguranças uniformizados e à paisana, funcionários da estação, e até usuários. A campanha publicitária foi feita depois que o Ministério Público exigiu que o Metrô a fizesse como reparação pela campanha vinculada pela Jovem Pan em que diziam que o Metrô lotado era "um bom lugar para passar cantada", e pela pressão após a denúncia que uma repórter do R7 fez depois de sofrer um abuso sexual no tem superlotado.

É evidente o quanto essa propaganda é apenas "para inglês ver", não dá nenhuma solução e nem tenta criar uma consciência em relação à questão do abuso sexual dentro do transporte público. Para além disso, nem a sensação de segurança que uma propaganda contra o abuso sexual deveria passar pode ser transferida na figura de homens de braços cruzados ou usuários com celulares em mão enquanto todos os dias as mulheres seguem sendo transportadas no Metrô, CPTM e ônibus feito "sardinhas em lata".

Solução

A reivindicação de que o Metrô deveria dar o treinamento adequado para os seus funcionários, que é feita no relato, é correta e é uma reivindicação que os próprios funcionários fazem, para além da cartilha contra o assédio sexual feita pela empresa lançada no mês passado aos funcionários do Metrô – que não foi distribuída à toda a categoria. No atual treinamento que é dado aos funcionários das estações do Metrô não é passado nenhuma orientação de como agir em casos como este, e aos seguranças é dado um treinamento muitíssimo insuficiente.

Esse fator demonstra o quão problemático é culpar individualmente os metroviários quando eles agem de forma errada, tendo em vista que a patronal não lhes dá nenhuma orientação sobre a forma correta de agir, e que, além desta falta de preparo, esses trabalhadores não conseguem prestar o devido atendimento por conta da sobrecarga de trabalho, uma vez que o quadro de funcionários é cada vez menor e, mesmo assim, o Metrô se recusa a abrir novas contratações mantendo o atual quadro funcional cada vez mais insuficiente ao atendimento da população. Desta forma, a Companhia e o governo seguem sendo coniventes com os inúmeros casos cotidianos de assédio sexual e violência dentro dos trens.

Além de treinamento adequado às vítimas de assédio sexual dado pela Secretaria de Mulheres do Sindicato, outras reivindicações dos funcionários do Metrô a partir do último Encontro de Mulheres Metroviárias organizado pelo sindicato da categoria em maio, ha a reivindicação de um kit para atendimento destes casos (com troca de roupa, por exemplo, para quando há a ejaculação na roupa das mulheres), atendimento físico e psicológico para todas as mulheres que passam por essa situação humilhante nos transportes públicos, atestados médicos que sirvam como comprovação para que essas mulheres tenham o tempo necessário para se recuperar e não tenham que ir trabalhar em seguida e o imediato aumento do quadro de funcionários. Até agora nenhuma resposta da Companhia foi dada a isso.

Essas questões se relacionam intrinsecamente com uma questão mais de fundo ainda que é o problema da superlotação do transporte público devido a falta de expansão das linhas, e o sucateamento do sistema, que causa problemas que acarretam não somente em atrasos operacionais do sistema, mas casos cada vez mais generalizados de assédio sexual, incluindo situações graves como essas relatadas nesse caso recente.




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