Economia

CRISE ECONÔMICA NO BRASIL

Brasil: a crise econômica devora a indústria e o crescimento, e aumenta a austeridade

O último relatório do FMI aborda o crescimento brasileiro dobrando suas previsões de queda do PIB: antes previsão 1,5% de recuo, agora já falam numa importante queda de 3% para 2015 e outra queda de 1% para 2016. Em síntese, a crise econômica no Brasil chegou e veio pra ficar.

Iuri Tonelo

São Paulo

quinta-feira 8 de outubro de 2015| Edição do dia

Foto: Evelson de Freitas/Folha

Como nós sabemos que esses analistas do mainstream do pensamento econômico são sempre otimistas com a recuperação do sistema, nós podemos ter alguma ideia de que as condições econômicas tendem a se deteriorar ainda mais, concretizando, em âmbito internacional, uma nova fase da crise econômica que afeta, sobretudo, os BRICs, já que vemos impactos importantes na economia russa e, sobretudo, na economia chinesa.

Essa nova configuração global é o ponto de partida das análises da economia brasileira e dão o tom de um duplo movimento que aponta um futuro recessivo, ou até menos elementos catastróficos na economia nacional, confluindo internamente uma queda de investimentos, maior inflação, maior desemprego, queda no consumo com uma queda na economia internacional (3,1% de crescimento, diminuindo as expectativas do FMI) e impacto em economias de forte influência no Brasil, como a economia chinesa.

A indústria nacional sob os efeitos da crise

Os pilares do antigo crescimento estão se desfazendo um a um no Brasil e podemos dizer que combina-se um fim de ciclo petista com uma nova configuração do país na crise econômica internacional.

Se antes uma alta nos preços das commodities, um forte fluxo de capital para os emergentes e uma política ofensiva de crédito foram de certa forma os pilares do crescimento, hoje a situação se inverteu completamente e demonstram cabalmente a fragilidade da economia nacional.

A base fundamental está justamente na indústria, onde a queda é expressiva. Segundo dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), “o setor industrial acumulou queda de 6,9% nos primeiros oito meses do ano. No acumulado dos últimos doze meses, o recuo é de 5,7%, o pior resultado desde dezembro de 2009 (–7,1%)”[i]. Em outras palavras, o que se aponta é que a queda industrial no Brasil é a maior desde o início da crise internacional, de 2008-2009. Comparando-se agosto de 2015 a agosto de 2014, a queda mais expressiva é na indústria de bens de capital, chegando a 33,2%.

Em carta da AFAVEA, apresenta-se um recuo na indústria automobilística também dramática de 42,1% comparando setembro de 2015 com setembro de 2014, uma queda que tende a se acentuar se continua a tendência predominante, já que só no último mês a variação negativa foi de mais de 19% (o que já tem sido sentido pelos trabalhadores nas montadoras, com demissões massivas no setor, descarregando a crise nos trabalhadores).

A explicação que é feita pelos próprios economistas do Comitê de Política Monetária do Brasil é que além dos impactos negativos internacionais em geral, as quedas de crescimento na América Latina afetam bastante a economia e a exportação nacional, e que só um ajuste “mais intenso e mais longo” poderia recriar alguma perspectiva (o que mesmo para um pensamento keynesiano soaria improvável).

Sem dúvida, um dos principais componentes que vão afetar decisivamente a dinâmica de exportações nacional é a vertiginosa valorização do dólar, que ainda que pudesse oferecer uma perspectiva mais favorável à exportação nacional em alguns setores, pelas debilidades extremas da indústria brasileira (e sua total dependência do capital financeiro, além também das combinações que implicam em dificuldades de importação de matérias-primas para a produção) tem feito, pelo contrário, acelerar sua derrubada e ampliar as tendências de primarização da economia nacional.

Em síntese, a imagem do Brasil potência se converteu em um pesadelo: há alguns anos, a revista The Economist dizia com bom grado que o Brasil era a fazenda do mundo, mas a visão era de uma fazenda próspera e moderna: agora, resta a imagem de uma fazenda cada vez mais rudimentar, sem tecnologia e produtividade, enviando suas matérias-primas para importar os produtos a preços caríssimos no futuro.

Petrobrás e empreiteiras em meio à crise

A situação econômica que tem impactado profundamente a economia brasileira se combina com a forte crise política no país, que tem afetado o conjunto da economia (sobretudo as perspectivas de investimento) e, particularmente, tem sua raiz nos escândalos de corrupção na Petrobrás e a operação Lava-Jato.

Do ponto de vista do cenário internacional e o preço do petróleo, as cotações médias do barril de petróleo dos tipos Brent e WTI atingiram, na ordem, US$46,99 e US$42,86 em agosto, recuando 27,2% e 27,7%, respectivamente, em relação a maio. E essa queda no preço do petróleo já tem implicado em impactos importantes na empresa e na economia nacional, já que a importância do setor de petróleo e gás do ponto de vista da crise econômica é vital, pois corresponde a 13% do PIB nacional.

Isso se combina com o aumento do dólar, que na estatal tem um impacto decisivo. Em dois meses a dívida da Petrobrás cresceu 100 bilhões[ii], podendo ultrapassar a cifra de R$ 510 bilhões, aproximadamente 10% do PIB da economia brasileira em 2014. Isso porque aproximadamente 70% da dívida da Petrobras se dá em moeda estrangeira, estando completamente vulnerável às oscilações monetárias.

Além de tudo isso, a crise política e a operação Lava-Jato também são decisivas para o futuro da Petrobrás e a situação econômica: um dos focos da operação, que é a relação da estatal com as empreiteiras, tem escancarado um quadro abismal de corrupção envolvendo partidos políticos, e feito distintos interesses (incluindo imperialistas) operarem para por lenha na fogueira da privatização e indicar que a solução seria abrir o capital da estatal, ou seja, implementar substancialmente o processo de privatização.

Do ponto de vista da economia, também a construção civil – tendo os empreiteiros no foco desse escândalo de corrupção - tem sido duramente afetada por todo esse contexto: o recuo da construção civil com relação ao primeiro trimestre do ano passado aponta 8,2%.

Com inter-relação entre a Petrobrás e as empreiteiras imersas na Lava-Jato, outros pilares fortes do lulismo se desmancham no ar com os efeitos da crise política, a escancarada corrupção estrutural e os efeitos devastadores da crise econômica.

Ajuste ou... a austeridade concentrada

Se na Europa deu-se o nome de austeridade as políticas implementadas para reduzir as condições de vida e retirar os direitos dos trabalhadores e a juventude no interior da crise, no Brasil o linguajar adotado foi de “ajuste fiscal”.

Porém o que se está configurando passa longe de um mero ajuste. Em primeiro lugar, pelo impacto enorme que vem tendo na classe trabalhadora, com crescimento importante do desemprego no último trimestre, que fechou com uma taxa de 8,3% (IBGE).

Mas não para por aí, porque o desemprego tem se combinado com uma inflação cada vez maior que tem devorado o nível de vida da população, atingindo mais de 9%. Por fim, essa situação se combina com uma queda do consumo e do crédito[iii], que também era parte fundamental do ciclo anterior e que, nesse momento, tem deixado uma população asfixiada pelas dívidas e o aumento dos preços.

De todo modo, não se pode esperar mais nada para esse ano e o ano que vem senão uma carga ainda mais pesada da austeridade aos trabalhadores, demissões massivas na indústria e uma diminuição das condições de vida: definitivamente, um país completamente imerso na crise econômica e reproduzindo a fórmula aplicada na Europa e em distintos países no mundo, descarregando a crise nos trabalhadores.

Acordo Transpacífico e o cenário difícil que se avizinha

Não podemos esperar um cenário melhor no próximo período se depender do capital financeiro nacional. O último movimento que aponta uma contradição ainda maior para a economia brasileira é o anúncio de um novo acordo transpacífico de livre comércio que reúne 12 países, da Ásia e das Américas. Entre eles, além dos EUA, Japão, Austrália, México, e na América do Sul, Peru e Chile. O bloco de países reúne 40% do PIB mundial e tem 793 milhões de consumidores. A expectativa é que, se o acordo realmente sair, o pacto movimente, a partir de 2025, US$ 223 bilhões por ano.

Uma nova movimentação que muitos têm analisado como importante avanço na política norte-americana no que tange aos conflitos interestatais em detrimento da EU e, particularmente, da China. No que tange à economia nacional, o impacto sem dúvida pode ser muito importante, tanto pelo debilitamento da China (e as consequências imediatas nas exportações nacionais) como pela dificuldade maior de exportação brasileira para o conjunto desses países. O próprio ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Armando Monteiro Neto, deixava implícito em declarações na última segunda (5) um claro fortalecimento dos EUA na América do Sul, recorrendo à Europa como novo possível parceiro futuro, ainda que num cenário de extrema debilidade da economia nacional.

A depender da economia internacional e da política econômica brasileira, o país está entregue a mais pilhagem imperialista do capital estrangeiro e mais austeridade. Apenas uma resposta política dos trabalhadores independente desse governo e focada nas lutas e greves contra os ajustes e a austeridade podem criar uma força social capaz de mudar o curso do país, que deve começar por fazer com que a crise não seja descarregada nas costas dos trabalhadores.

[i] Os relatório do IEDI pode ser acessado em: http://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_699.html
[ii] Dados retirados de pesquisa da agência deconsultoria Economática, publicado no Estado de São Paulo, de 22 de Setembro de 2015
[iii] Ver parte terceira do último relatório de inflação do Banco central, no link a seguir: http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2015/09/ri201509c3p.pdf




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