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A luta da Sun Tech e algumas lições

No início do mês a empresa Sun Tech, que montava celulares para a LG de Taubaté, anunciou o fechamento da planta, deixando o calote de presente de natal para 320 trabalhadoras, que passaram a contar com campanha de solidariedade do sindicato para arrecadação de mantimentos. Estavam numa situação dramática, com os salários atrasados há dois meses, sem 13º e sem depósitos do FGTS há seis meses.

quarta-feira 23 de dezembro de 2015| Edição do dia

Preparar grandes batalhas para barrar fechamentos de fábricas

Desde o dia 17 as operárias da Sun Tech, em São José dos Campos, respiram um pouco mais aliviadas. No início do mês a empresa, que montava celulares para a LG de Taubaté, anunciou o fechamento da planta, deixando o calote de presente de natal para as trabalhadoras, que passaram a contar com campanha de solidariedade do sindicato para arrecadação de mantimentos.

Ali trabalhavam 320 mulheres, que estavam numa situação dramática, com os salários atrasados há dois meses, sem 13º e sem depósitos do FGTS há seis meses. A justiça determinou que a LG é responsável solidária pela Sun Tech, “diante dos evidentes sinais de terceirização ilícita, por tratar-se de terceirização de atividade-fim”, e portanto deverá pagar os dois salários atrasados e o 13º, uma conquista importante, mas com a grande contradição que é o fato de se manter o fechamento da empresa e as demissões.

Fábricas de diversos ramos estão fechando pelo país, tais como a Gerdau, que no final do ano passado fechou uma unidade em Curitiba, demitindo 600 trabalhadores; a Metalúrgica Tubos de Precisão (MTP), que em janeiro encerrou a produção em Guarulhos, demitindo 770 operários; mesmo mês em que a autopeças Federal Magul fechou sua unidade em Diadema, demitindo 230 trabalhadores; a fábrica Basf, de compostos de plástico, em São Bernardo do Campo, fechou em junho, causando 90 demissões; mesmo mês em que a fábrica Doctor Pé, em Franca, anunciou seu fechamento e demissão dos 80 trabalhadores; a Indústria Cachoeira LTDA (ICL), têxtil, em setembro fechou sua unidade em Betim e demitiu 280 trabalhadores; a autopeças Delphi já fechou três unidades esse ano, sendo 800 demitidos em Itabirito, fechada em março, 140 com o encerramento da produção em Mococa, em abril, e em agosto fechou a unidade de Cotia, demitindo 700 operários; a autopeças Schrader, encerrou as atividades em Jacareí, no final de agosto, demitindo 190 operários; outra autopeças, Vibracoustic, no último dia 15 fechou as portas em Taubaté, demitindo 106 trabalhadores e para fevereiro está anunciado o fechamento da Navistar, em Canoas, na região de Porto Alegre, que acarretará 600 demissões.

O contexto do fechamento da Sun Tech

O cenário de crise e ataques aos trabalhadores na indústria em geral não é diferente no caso específico dos eletroeletrônicos, que deve fechar 2015 com praticamente todos os indicadores em queda de pelo menos 10%, regredindo aos patamares de 2009 e 2011, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). A mesma associação também apontou recuo de 58% nas vendas, na comparação entre novembro desse ano com do ano passado, com estoques muito elevados hoje. A Consultoria IDC projeta queda de 27% no mercado de telefones celulares.

Em setembro o governo Dilma/PT editou a MP 690, como parte dos ajustes, que entre outras coisas, revoga três artigos da chamada “Lei do Bem”, de 2005, que concedia incentivos fiscais para a produção de computadores, tablets e smartphones, como parte de uma política de inclusão digital. O Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Absemi) ameaçou descarregar diretamente sobre os trabalhadores, com demissões e fechamentos de fábricas, “as mudanças negativas que vêm sendo promovidas nos programas de desenvolvimento da indústria local de microinformática e de estímulo ao consumo de bens finais fatalmente culminarão na eliminação de dezenas de milhares de empregos diretos e levarão ao fechamento de fábricas.”

Grandes marcas como Sony, Samsung e Motorola tem aproveitado a crise para demitir milhares e reestruturar sua produção mundialmente, sendo que a Motorola já anunciou que pretende demitir no Brasil também, assim como fez a Samsung, que demitiu quase 2 mil em Manaus. A LG de Taubaté, mesmo já tendo demitido 285 trabalhadores esse ano, dispensou 453 no início de dezembro. Na mesma semana do fechamento da Sun Tech, outra empresa que também presta serviço para a LG, a Blue Tech, demitiu 50 operários da sua unidade em Caçapava, que tinha 120, anunciando que pode demitir mais até março.

As operárias da Sun Tech foram grandes lutadoras

Na luta contra as demissões na LG os trabalhadores sustentaram uma greve por 12 dias e fizeram uma significativa demonstração de forças, tomando as principais ruas da cidade no dia 3/12, com cerca de 1.200 operários, considerando que a planta tinha 2 mil antes dos cortes. A greve foi encerrada pelo sindicato no último dia 17/12 e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas acabou suspendendo as demissões no dia 20/12. A estratégia do sindicato da Central Única dos Trabalhadores (CUT) foi de canalizar a disposição de resistência dos trabalhadores para pressionar a empresa a aceitar o Plano de Proteção ao Emprego (PPE).

No caso da Sun Tech, as operárias vinham de protagonizar muitas greves e paralisações nos sete anos de funcionamento da fábrica, incluindo uma em 2013 contra o assédio sexual de um encarregado, que acabou demitido. Esse ano já tinham barrado 50 demissões em maio, e em julho iniciaram uma greve duríssima, de 35 dias, por uma PLR (Participação de Lucros e Resultados) mais justa, sendo que apesar da patronal ter vencido na justiça o pagamento da PLR rebaixada, as trabalhadoras arrancaram o pagamento dos dias parados e estabilidade por três meses. Não resta dúvida de que era uma fábrica com espírito muito combativo. Contudo, desde o início de outubro as trabalhadoras já sentiam falta dos salários que começaram a atrasar, sendo que somente depois da patronal interromper a produção por tempo indeterminado, no final de novembro, é que a direção do sindicato começou de fato a organizar a luta contra o fechamento da planta, anunciado na semana seguinte.

Nós, do Esquerda Diário e do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), assim que soubemos do ocorrido passamos a denunciar e nos colocamos à disposição para fortalecer a luta contra o fechamento da planta. Partimos de reconhecer e saudar a combatividade das operárias da Sun Tech e justamente por isso consideramos importante abrir um debate com a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e com o PSTU, que não preparou as trabalhadoras para resistirem organizadamente ao fechamento e às demissões, que como mostramos, desde setembro era tema no discurso de representantes patronais como resposta à situação econômica do setor.

A CSP-Conlutas deve cercar de solidariedade ativa as lutas para organizar um pólo de resistência aos ajustes do governo e aos ataques da patronal

O PSTU, que dirige a CSP-Conlutas e o Sindimetal de SJC, deveria encarar ataques como esse da Sun Tech como oportunidades para dar exemplos de como organizar a resistência operária, defendendo com os métodos da luta de classes (greve, ocupação, piquete) a permanência dos postos de trabalho, convocando todos os setores da CSP-Conlutas a cercar de solidariedade ativa a luta em curso e fazer com que os trabalhadores da base da CUT, como na LG, vejam como enfrentar os ajustes do governo e os ataques da patronal. As lutas travadas pelas operárias da Sun Tech nunca tiveram destaque nos encontros da CSP-Conlutas, não foram levadas adiante campanhas estaduais ou nacionais em apoio a elas, com vídeos, fotos e atos, por exemplo, tendo que resistir isoladas frente aos ataques da patronal. Frente ao fechamento, a ocupação da fábrica poderia ter sido articulada de modo a evitar que as máquinas, estoques etc., fossem retirados e pela tradição de combatividade dessas operárias, uma grande batalha de classe poderia ter sido travada.




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