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Uberização | A greve dos entregadores de São José e a importância das assembleias de base

Após seis dias de greve, uma paralisação dos entregadores de aplicativos em São José dos Campos obrigou a plataforma de delivery IFood e outros aplicativos a negociarem. Um elemento distinto foi que os trabalhadores organizaram-se por assembleias para discutirem os rumos da luta e votarem seus próprios representantes, para que assim o movimento não seja desviado por alguma liderança ou burocracia sindical que possam estar contra a luta dos trabalhadores.

domingo 26 de setembro | Edição do dia

Os entregadores de aplicativo de São José dos Campos já avisaram que, dependendo do resultado da reunião que terão no dia 28 caso as empresas não acatarem as demandas, a greve volta. Reivindicando uma taxa mínima de R$ 7 de entrega e que seja acrescido R$2 a cada km rodado, os entregadores entraram em greve no último dia 11.

Esse forte movimento, que fez com que a IFood e outras empresas de aplicativo tivessem que se dobrar e parar de ignorar os entregadores, organizou-se com estes trabalhadores se dividindo entre os principais pontos de delivery da cidade. Os entregadores bloquearam restaurantes e foram avisando aqueles que não sabiam da movimentação e apareciam para retirar algum pedido. Isso afetou toda a rede de entregas de São José dos Campos, que conta com 3 mil motoboys cadastrados no iFood. O movimento ganhou força quando os restaurantes passaram a desligar a plataforma em resposta ao breque e, em pouco tempo, quase nenhum estabelecimento aparecia como disponível na plataforma mesmo em horário comercial.

Um detalhe distinto de outras mobilizações de entregadores e que foi fundamental para organizar a luta para que fosse mais forte é que os trabalhadores desde o primeiro dia de paralisação se reuniram para votar a greve e discutir os rumos do movimento em assembleias, algo que é fundamental para que o movimento não seja cooptado e desviado por qualquer liderança ou burocracia sindical que possam estar contra a organização dos trabalhadores. Essa organização através de assembleias, garantindo que todos os trabalhadores possam opinar, tomar os rumos da luta em suas mãos e escolher suas lideranças, é parte do que há de melhor na tradição da luta dos trabalhadores ao longo da história, e é extremamente importante que uma categoria nova como a de entregadores esteja se apropriando e renovando este importante método, que sempre discutimos no Esquerda Diário como algo fundamental para que os próprios entregadores pudessem votar seus representantes e opinar sobre suas reivindicações.

Os grevistas também se organizam em grupos para circular pela cidade e distribuir água e comida para quem estava nos bloqueios. Para contornar a falta de ganhos, eles organizaram também uma campanha virtual de arrecadação de fundos, que foi apoiada inclusive por famosos como Gregorio Duvivier e por sindicatos como o Sindicato dos Metalúrgicos de São José. Em resposta ao movimento o Ifood teve que se comprometer a conceder uma promoção de R$ 3 para os entregadores até o próximo dia 28, o que é uma conquista parcial não pela promoção em si mas por mostrar que a mobilização e a organização dos trabalhadores consegue fazer com que a empresa seja obrigada a se movimentar. Além disso já se estima que até o momento essa já tenha sindo a greve mais longa dos entregadores de aplicativo. Esse é um grande exemplo de organização contra a exploração desses aplicativos, que lucram com a precarização do trabalho de milhões de jovens que vêm nos aplicativos uma forma de garantir alguma renda diante da enorme crise de desemprego.

Os patrões por detrás dos algoritmos vêm nessa crise uma oportunidade, e submetem os entregadores, que inclusive são em sua maioria negros, a condições análogas à escravidão. Não por acaso, a maior investidora deste setor do mercado, a Naspers, é uma empresa da África do Sul que nasce em 1915 e foi, durante o regime do Apartheid, uma das principais porta-vozes dos supremacistas brancos no país africano.

Contra a exploração dos aplicativos, os entregadores de São José estão se articulando com diversos grupos de entregadores de outras cidades da região e até mesmo de outros estados para que o dia 28 seja um dia de luta em apoio à greve em São José dos Campos. Essa unidade é fundamental para expandir essa mobilização e também para generalizar os ensinamentos e lições desse método de organização por assembleias. É preciso organizar assembleias e inclusive obrigar as direções sindicais, associações e lideranças a que coloquem suas forças e seu dinheiro para ajudar a divulgar e construir essas assembleias, com panfletagens, campanha nas redes e discutindo com cada trabalhador. Só assim será possível colocar os aplicativos na parede e mostrar que seus lucros não podem valer mais do que as vidas dos trabalhadores.




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