SEMANÁRIO

A invenção do “marxismo cultural” e do “politicamente correto”, e seu uso pela ultradireita e militares no Brasil

Simone Ishibashi

A invenção do “marxismo cultural” e do “politicamente correto”, e seu uso pela ultradireita e militares no Brasil

Simone Ishibashi

imagem - Closeup of “The War is Over”

O surgimento da ultradireita em escala internacional tem colocado, entre outras questões, uma ressignificação de conceitos e termos. Isso porque, na articulação do seu discurso, tão abjeto quanto suas políticas, figuram combates a socialismos que jamais foram socialismo. Declaram guerra cultural a uma espécie de coringa identificado como “politicamente correto”, que parece designar toda e qualquer demanda democrática. Identificam como “marxismo cultural” movimentos identitários cuja heterogeneidade é tão grande, que faz com que algumas de suas alas sejam abertamente inspiradas na teoria de Michel Foucault, o qual, cabe lembrar, ocupou boa parte de suas obras polemizando com o marxismo. Assim, a ultradireita em sua versão brasileira assumiu um especial apreço pelas teorias anticientíficas mais extravagantes, pela escatologia neopentecostal e decretou a “guerra cultural” como uma de suas prioridades.

Evidentemente, o ataque aos trabalhadores de modo a fazer com que paguem pela crise econômica sem que se toque em um único centavo dos capitalistas é o fundamento crucial da ofensiva da ultradireita. Afinal, qual o objetivo de manter universidades públicas se o país será reduzido a uma espécie de armazém de produção de baixo valor agregado, com todas as riquezas estratégicas privatizadas em prol do imperialismo? Ademais, juventude educada em universidade e sem trabalho ou perspectiva de futuro pode dar luta de classes.

Mas não se pode ignorar que existe uma elaboração ideológica que subjaz a esse conjunto obscurantista de elementos que compõe o discurso da “seita olavista”. E que Bolsonaro e seus chegados estão profundamente convencidos do que dizem. Essa semana o mundo embasbacou-se diante do discurso proferido por Bolsonaro na tribuna da ONU. Responsabilizando as próprias comunidades indígenas pelas queimadas na Amazônia, renovando as juras de amor à privatização e à entrega do país, e dizendo que está revertendo o “socialismo” no Brasil, Bolsonaro fez um discurso no qual reafirmou seus anseios entreguistas coloridos pela reacionária realidade paralela que caracteriza suas falas em público.

Novamente, nomeou o afamado Foro de São Paulo como uma grande ameaça aos capitalistas, vendendo a falsa imagem de que seria uma espécie de versão atual da III Internacional Comunista em meio à Revolução Russa. Tornou-se ainda mais patente que, para Bolsonaro, esse desfile de sandices não se trata de meras manobras para justificar sua existência no cargo, mas, antes, que ele realmente crê no que afirma e se percebe como porta-voz da ultradireita em combate contra o “marxismo cultural” e o “politicamente correto”.

Mas sob qual operação o marxismo transformou-se em algo meramente “cultural” e “politicamente correto”? O que querem dizer Bolsonaro e seus filhos, o ideólogo-tarólogo Olavo de Carvalho e parte dos generais, como Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, que ajudaram a cunhar tais termos para justificar o sentido de suas existências? No esforço de dar nexo ao ilógico, faz-se necessário recuar até o coração originário da ideologia dessa ultradireita, que emana, como não poderia deixar de ser, dos Estados Unidos.

Como retoma o economista Eduardo Costa Pinto [1], o mosaico que dá forma à ideologia de Bolsonaro tem suas raízes originais no pensamento neoconservador estadunidense emergido das profundezas dos anos 1980 e 1990, o qual, por sua vez, é um desdobramento dos paleoconsertives (paleoconservadores), que se articulam em meio à crise de 1929 como uma espécie de coletivismo de direita contra as orientações keynesianas do New Deal. Suas características fundamentais eram um feroz anticomunismo, uma defesa impregnada de traços religiosos judaico-cristãos, aliados à defesa da descentralização estatal. Esse conjunto de fatores os diferia do liberalismo tradicional, já que, na vertente paleoconsertive se opunha ao livre comércio internacional, caracterizando-se como protecionistas e isolacionistas.

Parte dessas noções seria revistada pelos neoconservadores estadunidenses durante as décadas de 1980 e 1990. Como se sabe, estas foram as décadas do auge do neoliberalismo, articulado através do Consenso de Washington. De maneira distinta às loas dadas por Margaret Thatcher e Ronald Reagan ao livre comércio, os paleoconsertives enfatizavam a defesa dos “valores americanos”, algo caro também a ideólogos da direita como Samuel Huntington que, em seu Choque de civilizações declara os imigrantes como fatores que colocariam tais valores em perigo. Trump – ademais do nacionalismo econômico e beligerante que professa o esgotamento de uma ordem de relativa colaboração entre China como produtor manufatureiro mundial e os Estados Unidos como comprador internacional – retoma parte do ideário paleoconsertive, ampliando ainda mais a dimensão da pretensa guerra cultural contra o multiculturalismo.

A esse conjunto ideológico um novo elemento será agregado, além de potencializado com o advento das redes sociais e da internet: as teorias da conspiração. Novamente de acordo com Eduardo Costa, são Pat Buchanan, Samuel Francis, Paul Gottfried, Gerald Atkinson, Paul Weyrich, William Lind alguns dos responsáveis pela elaboração teórica dessa ultradireita conspiratória. Não se trata apenas de acadêmicos, mas de conselheiros de algumas das administrações estadunidenses mais agressivas contra os trabalhadores e representantes de grandes grupos capitalistas. Pat Buchanan foi parte do governo Nixon e diretor de comunicações da Casa Branca durante o governo de Ronald Reagan. Samuel Francis foi editor do Washington Post, demitido em 1995 após fazer declarações racistas publicamente. Paul Weyrich é cofundador do think-tank Heritage Foundation, apoiador direto de Donald Trump. William Lind é especialista em teoria militar e um dos mais ferrenhos defensores da guerra híbrida. Para todos eles, a dimensão fundamental a ser preservada seria o combate ao “marxismo cultural”, já que esta seria a ferramenta usada por todos os que não compartilham de suas crenças reacionárias no intuito destruir os valores estadunidenses.

Os “paleoconservadores” identificam como “marxismo cultural” a leitura particular que fazem de Gramsci, em especial no que se refere à questão da conquista da hegemonia na sociedade civil e dos temas relativos à ampliação do Estado, e da Escola de Frankfurt e sua crítica ao nazismo e ao fascismo como subprodutos da renúncia ao pensamento crítico imposta pela razão instrumental reinante nas sociedades capitalistas contemporâneas. De acordo com os paleoconservadores, tanto Gramsci quanto Adorno e Horkheimer estariam decididos a destruir os valores ocidentais, ou seja, estadunidenses, não através da tomada do poder e da socialização dos meios de produção, mas da cultura. Disso deriva, em partes, a obsessão da ultradireita com a pretensa guerra cultural e a tentativa de ideologizar a ciência e as universidades pela direita, com grandes serviços prestados pelos neopentecostais.

A influência dessas ideias no Brasil

Qualquer pessoa em sã consciência já deve ter se espantado com a relação que a turba ultradireitista, sem qualquer pudor, traça a todo instante entre o socialismo e, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso. Por mais delirante que efetivamente seja, tal relação deriva da adaptação das noções tipicamente “paleoconservadoras” estadunidenses ao Brasil, pela mediação das obras do general Sérgio Augusto de Avellar Coutinho, autor de livros como Revolução gramscista no Ocidente e Cadernos da liberdade, que vociferam um raivoso anticomunismo. Antecipando a toada do cabo Daciolo durante as eleições presidenciais de 2018, ao indicar Ciro Gomes como parte da URSAL, o general Avellar Coutinho defendeu que Fernando Henrique Cardoso, em 1994, seria um representante do MCI, que seria um pretenso Movimento Comunista Internacional.

Citando o próprio general Coutinho, o economista Eduardo Costa ressalta como o nexo com a questão do politicamente correto emerge na medida em que seria a principal arma para vencer a “guerra moral e ideológica”, que teria se transformado no epicentro da estratégia comunista após a queda da URSS. Dessa maneira, de acordo com o general Coutinho:

“[...] a reforma intelectual e moral que Gramsci recomenda como instrumento da luta pela hegemonia no seio da sociedade civil já produziu efeitos muito mais profundos e danosos no Brasil do que se poderia imaginar. Em trinta anos de atuação, os intelectuais orgânicos, os neomarxistas de linha gramscista, conseguiram obter uma conformação, involuntária e despercebida, do senso comum dos integrantes da sociedade nacional às ideologias intermediárias e às palavras-de-ordem das esquerdas. Aceitação passiva do que se estabeleceu ser ‘politicamente correto’. [...] O objetivo intencional desta penetração cultural é a mudança do senso comum burguês ligado às tradições históricas, morais e culturais da sociedade nacional”. Sérgio Augusto de Avellar Coutinho. [2]

Os marxistas revolucionários, que ao longo da história do movimento operário atuaram como defensores da abolição da apropriação privada dos meios de produção, transformam-se para esses “paleonconservadores” em sua versão militar brasileira em meros defensores do “politicamente correto”. Torna-se patente, então, que na concepção do general Coutinho e de seus seguidores o “politicamente correto” converte-se em uma espécie de arma de guerra de quarta geração, uma guerra híbrida, usada pela esquerda para silenciosamente obter a hegemonia nas escolas e nas universidades.

Assim, para os “paleoconservadores”, quando uma parcela da opinião pública brasileira – ainda que menos numerosa do que um escândalo, como é este caso, mereceria – denuncia o racismo estrutural do Estado brasileiro, que ceifa vidas como a da menina Ágatha Félix no Rio de Janeiro, isso seria não a repreensão genuína contra o assassinato que o Estado promove contra a população trabalhadora, negra e pobre. Mas produto de uma “manipulação comunista” promovida pelo “politicamente correto” sob uma guerra híbrida desferida há décadas pela ação de “comunistas” da estirpe de Fernando Henrique Cardoso e Lula. Internacionalmente, a lista de “defensores do politicamente correto”, ou seja, de “comunistas” financiadores de ONGs dedicadas a “promover a democracia”, seria tão ampla quanto delirante, envolvendo desde magnatas muito capitalistas, como George Soros, como os nomes mais conhecidos do Partido Democrata, inclusive os tradicionalmente alinhados com a ala falcão, tais como Hillary Clinton.

Esse discurso encontrou eco em setores das Forças Armadas, como o próprio general Villas Bôas que já citou o combate ao “politicamente correto” como prioridade. Já a defesa do neoliberalismo na economia ficou a cargo do general Hamilton Mourão. Mas a guerra cultural do governo Bolsonaro ganhou ainda um aliado fundamental, tanto em ideologia como em negócios bilionários, na disseminação das igrejas neopentecostais. Será através dela que a lacuna da ampliação do Estado gramsciana se daria para que a ultradireita definitivamente ganhasse terreno para formar um novo consenso reacionário. Assim, o fio condutor da narrativa ensandecida que une Trump, Bolsonaro, os militares de sua base e as igrejas neopentecostais é a tentativa de construção de um novo senso comum de ultradireita marcado pelo combate a uma ameaça comunista, que de comunista mesmo nada tem.

O general Avellar Coutinho, morto em 2011, deu antes disso numerosas palestras no Clube Militar, disseminando sua versão do pensamento de Gramsci de modo a instar os militares a contra-atacar o que caracterizava como uma guerra cultural que estaria sendo travada, mediante táticas da guerra híbrida. Não pôde testemunhar o uso das fakenews nas eleições de 2018, mas deixou o fio condutor da narrativa conspiratória do combate ao “politicamente correto comunista” bem explorada por Bolsonaro.

Mas essa construção não é perfeita. E não substitui a vida real, a experiência vivida das massas trabalhadoras do país, que sofrem com as consequências das odiosas políticas de Bolsonaro, e seus equivalentes regionais, como o reacionário governador Witzel. Que gritam de revolta quando crianças negras como Ágatha Félix são mortas. Enquanto 13 milhões de pessoas são lançadas nas ruas sem a perspectiva de trabalho, a popularidade de Bolsonaro cai a cada dia, obrigando-o a adaptar cada vez mais seus intentos de impor um bonapartismo imperial para si e seus filhos. Nada menos que 44% dentre os participantes de uma pesquisa afirmaram que não acreditam em nada do que Bolsonaro diz, enquanto sua popularidade decai, sobretudo, na juventude, que já protagonizou importantes lutas contra os ataques à universidade, nas quais mostrou não ter medo de desmantelar nas ruas o ridículo discurso da ultradireita e desnudar os seus reais objetivos de preservar os mesmos interesses capitalistas de sempre.

Aprofundar essa perspectiva, que já se colocou na realidade como uma demonstração de que não há enxurradas de fakenews capaz de deter os combates reais, é o nosso desafio.

Arte de Coty Schwabe Abstract Art [3]

veja todos os artigos desta edição
FOOTNOTES

[2Cadernos da liberdade: uma visão do mundo diferente do senso comum modificado, Sografe, 2003, p. 13-16.
CATEGORÍAS

[Militares na política]   /   [Karl Marx]   /   [Marxismo]   /   [Teoria]

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro
Editora da revista Ideias de Esquerda e Doutoranda em Economia Política Internacional pela UFRJ.
Comentários