As novas faces do proletariado e a teoria do valor

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IURI TONELO

Número 2, agosto de 2017

Podemos dizer que, referindo-se ao mundo do trabalho, vemos na última década duas tendências opostas se encontrarem: de um lado, uma espécie de “nova reestruturação produtiva” como resposta do capital a crise econômica internacional, ou seja, uma tentativa de devastação do trabalho em termos objetivos. De outro lado, mais recentemente e ligada a um certo esgotamento do ciclo neoliberal, também observamos um acumulo de lutas operárias, desde greves de setores específicos que ganham projeção até greves gerais, como na Grécia e no Brasil, que configuram uma recomposição subjetiva da restência operária. É crucial buscar entender as duas tendências, seja para pensar as novas estratégias do capital, seja para entender a configuração da classe trabalhadora que surge e pensar como conectar o marxismo com as novas expressões de resistência, dando a elas um sentido anticapitalista.

Esta resistência dos trabalhadores expressa um quadro complexo de transformações do mundo do trabalho. Para dar três exemplos emblemáticos nos últimos anos, nós tivemos em 2015 uma greve na rede de fast food McDonald’s que afetou mais de 200 cidades nos EUA e foi convocada como “greve mundial”, tendo proposta de ação em pelo menos 40 países. Ainda que com limites para a paralisação efetiva (muitas vezes conformando mais atos e manifestações), é emblemática porque simboliza uma imensa massa proletária no setor de serviços que vem sendo ponta de lança de primeiras resistência nesse setor com forte peso da juventude trabalhadora, nesse caso, orquestrada em nível internacional.

Para dar outro exemplo significativo da atualidade: em fevereiro 2017, o motorista de UBER Fawzi Kamel recebeu em seu carro o CEO da empresa, Travis Kalinick – e ao final da corrida, o motorista fez reivindicações contra a hiperexploração do trabalho. O CEO da UBER deu uma resposta grosseira ao motorista, bateu a borta e não aceitou conversar com o trabalhador. Não sabia o CEO que na “nova classe trabalhadora” também existe luta de classes. O motorista estava filmando a conversa[1] e divulgou publicamente mostrando o descaso da empresa com os funcionários. Nos dias seguintes estava o CEO pedindo desculpas pelo “lamentável comportamento” perante todos os funcionários da empresa e, três meses depois, um dos maiores bilionários dos Estados Unidos estava renunciando ao cargo[2].

Por fim, no caso brasileiro, em “setores estratégicos” dos serviços, temos visto em 2017 a enorme influência que o metrô e os rodoviários têm e o impacto que causa em toda a greve geral: podemos dizer sem exagerar que o “tom” de greve geral tem forte peso no setor de transportes.

Enxergar essa nova realidade da classe trabalhadora é vital, mas estamos longe dos que acham que a fábrica teria perdido sua potência explosiva: pelo contrário. Para darmos dois exemplos bem recentes, algumas das mais importantes greves de 2016 na Europa foram as greves do movimento operário fabril na França contra a reforma trabalhista. E também na Argentina, já se antecipando a reforma trabalhista, a poderosa luta dos trabalhadores da PepsiCo contra 600 demissões ganhou as manchetes de todos os jornais do país e segue como importante conflito nacional – provas da força que o movimento operário industrial tem com suas lutas e a atualidade estratégica desse setor.

Tendo isso em vista, buscaremos apontar elementos fundamentais para esse debate, compreendendo a dimensão objetiva e subjetiva da classe trabalhadora em suas transformações, sua dinâmica e  sua resistência na última década.

“Fim do trabalho” e o ângulo estratégico para o debate

Sobre o debate teórico em torno do mundo do trabalho, fica cada vez mais arcaica e intempestiva a visão sociológica que proclamava que, com a revolução tecnológica e o desenvolvimento da robótica, chegaríamos a uma sociedade de “fim do trabalho”. Tal era a visão de André Gorz (1987), Claus Offe (1989), Habermas (1991, 1992), e mais atualmente figuras como Manuel Castels (2007), entre outros[3]. Observando a dinâmica das primeiras resistências operárias mundiais à crise e olhando a dimensão do proletariado “clássico” em países como a China, a Índia, o Brasil, é só com uma visão muito ofuscada pelo eurocentrismo que se pode ainda sustentar que vivemos em um mundo meramente “pós-industrial”, de fim do trabalho.

No entanto, o fato de que se prova a cada dia a crise da tese do fim do trabalho (que vem sendo renovada a partir do fetichismo da robótica[4], mas sem o mesmo sucesso anterior), não deve impedir ao marxismo perceber a enorme transformação que vem ocorrendo no mundo operário, como forma de dar uma resposta aberta e não dogmática, mas também de, precisamente quando O Capital de Karl Marx completa 150 anos, colocar à frente, à prova, a teoria do valor, e demonstrar sua enorme riqueza como fonte explicativa do conjunto das transformações no capitalismo internacional. A atualidade da reflexão sobre a teoria do valor e o mundo do trabalho se expressa precisamente num momento de enorme crise econômica, com fortes crises políticas em importantes países do globo e elementos de crise social. Precisamente, nessa dinâmica do capitalismo internacional vai se gestando um novo proletariado de serviços. Se mescla o problema da imigração, feminização do trabalho e etc, que seguramente imprimirá também a faceta da resistência no próximo periodo.

Se antes a questão da estratégia, como na Revolução Russa, foi entender a dinâmica permanente da revolução que levou um proletariado de 4 milhões conduzir uma revolução num país de 80 milhões de camponeses, hoje o crescimento do proletariado, especialmente no sul do mundo, faz com que a própria batalha pela unidade no interior da classe e uma política hegemônica que arraste setores da pequena-burguesa (dita classe média) é fundamental para pensar a revolução no século XXI. Por isso entender a importância de setores tradicionais – sobretudo o proletariado fabril – e sua ligação nas lutas, com as novas formas do trabalho hoje, é crucial ao pensar para além de batalhas econômicas nas greves, mas pensar numa reflexão sobre “a arte de vencer”, ou seja, o problema da estratégia na conformação de bastiões da classe trabalhadora.

Retomando o debate improdutivo e produtivo

Partir dos elementos estratégicos e compreender as formas de resistência dos trabalhadores não deve estar contraposto a entender a dinâmica objetiva do mundo do trabalho, as cadeias de valor e a dinâmica da mais-valia. A socióloga britânica Ursula Huws retoma o debate sobre o trabalho produtivo e improdutivo com uma ótima questão: “Será que não deveríamos apenas aceitar que todos nós somos, de uma forma ou outra, parte de uma enorme força de trabalho indiferenciada, produzindo valor indiferenciado para um capital indiferenciado?” (HUWS, 2014, p. 27). E responde em seguida: “argumento que não”.

Huws busca explicar essa espécie de “nó”, um emaranhado de formas de trabalho que confluem a partir dos objetivos da acumulação capitalista, mas sem perder de vista o “ponto em que os trabalhadores tem poder para desafiar o capital: o centro do nó”, o que atinge diretamente a produção da mais-valia e que mantém vigência e importância estratégica.

Acreditamos que mantém expressiva força e atualidade o modo como Marx coloca a questão, desde que olhemos os quatro livros de O Capital em seu conjunto – e esse é parte do desafio para enfrentar a nova realidade e as novas questões que coloca a classe trabalhadora hoje.

Tendo em vista a acumulação de capital como elemento decisivo, Marx define o trabalhador produtivo não como aquele que produz determinado objeto, mas sim o que expande o capital do empresário. Desse modo, a partir da complexificação da produção capitalista, Marx cria o conceito de “trabalho produtivo” e “trabalho improdutivo” a partir do crivo da produção de mais-valia, conforme escreve:

A produção capitalista não é apenas produção de mercadorias, ela é essencialmente produção de mais-valia. O trabalhador não produz para si, mas para o capital. Por isso, não é mais suficiente que ele apenas produza. Ele tem de produzir mais-valia. Só é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista, servindo assim à auto expansão do capital. Utilizando um exemplo fora da esfera da produção material: um mestre-escola é um trabalhador produtivo quando trabalha não só para desenvolver a mente das crianças, mas também para enriquecer o dono da escola. Que este invista seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa de fazer salsicha, em nada modifica a situação. O conceito de trabalho produtivo não compreende apenas uma relação entre a atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social, de origem histórica, que faz do trabalhador o instrumento direto de criar mais-valia (MARX, 2009, p. 578)

Assim, completa Marx, “ser trabalhador produtivo não é uma felicidade, mas um azar”.

Com a virada do século XX e a supremacia do capital financeiro como pilar da época do capitalismo que se abria, complexificou-se formas do capital que existiam no século XIX, mas que ganharam uma proporção na acumulação capitalista de outra magnitude. O capital bancário complexificou-se a ponto de formar uma nova forma de capital, imbricado ao industiral, chamado de capital financeiro. O capital comercial ganhou corporações globais no capitalismo atual (basta ver que a maior empresa do mundo em quantidade de empregados é o Walmart). E o setor de transportes, com a reestruturação produtiva e o sentido “just in time” também aprofundou enormemente sua importância.

Daqui decorre que a imbricação que começou a existir entre as formas de capital e o impacto na produção da mais-valia devem ser cuidadosamente re-analisadas.

Comércio e transporte: elementos para pensar a imbricação do produtivo-improdutivo

Uma questão nem sempre observada quando se trata do debate entre o “produtivo” e “improdutivo” em Marx é que no próprio O Capital, além de se estabelecer definições que encontramos no livro 1, também se relativiza essas definições quando olhamos o processo global de reprodução do capital.

Em primeiro lugar se tomarmos os trabalhadores do comércio, que trabalham na esfera da circulação, pelas definições do livro primeiro não restaria dúvida sobre seu caráter improdutivo. Mas Marx, por exemplo, no capítulo sobre o capital comercial (o lucro comercial, do Livro III), discute a mesma categoria observando diferentes “pontos de vista”, formas relativas de com quem se relacionam aqueles trabalhadores.

No esquema geral, Marx sintetiza que “Se o trabalho não-pago do trabalhador cria diretamente mais-valia para o capital produtivo, o trabalho não-pago dos trabalhadores comerciais proporciona ao capital mercantil participação nessa mais-valia” (KIII, p. 393).

Ou seja, a princípio, a definição coloca uma fronteira clara: trabalhadores comerciais não produzem mais-valia, mas auxiliam o capital mercantil a participar da mais-valia produzida. Porém, um detalhe nessa reflexão faz toda a diferença: não produzem “diretamente”, pois, indiretamente, é claro que se a circulação aumenta a velocidade da realização das mercadorias, a rotação do capital, até voltar à esfera produtiva, será mais rápida e, por conseguinte, a reprodução ampliada (a acumulação de capital) será maior. É o que diz Marx quando escreve que “Diretamente, o capital mercantil não cria nem valor nem mais-valia. Ao concorrer para abreviar o tempo de circulação, pode indiretamente contribuir para aumentar a mais-valia produzida pelo capitalista industrial” (MARX, 2008, p. 375 – K3, C16).

Mas indo além da questão de que o capital comercial pode auxilar indiretamente na produção da mais-valia, Marx complexifica ainda mais quando, ao discutir a questão do trabalho produtivo e improdutivo, busca relacionar essas categorias ao ângulo sob o qual se observa o problema, ou seja, trabalhadores comerciais para um capitalista industrial fabril são improdutivos, mas aos olhos de um monopólio comercial, são produtivos, porque “geram” mais-valia, um montante da riqueza produzida no conjunto das esferas produtivas do qual o capital comercial se apropria:

Para o capital industrial, os custos de circulação se revelam e são custos necessários, mas não produtivos. Para o comerciante revelam-se fonte de lucro, que – suposta a taxa geral de lucro – está na proporção da magnitudade deles. O desembolso a fazer nesses custos de circulação é, portanto, investimento produtivo para o capital mercantil. Pela mesma razão, o trabalho comercial que compra é para ele diretamente produtivo (MARX, 2008, p. 401 – K3, C17).

Em outras palavras, trabalhadores do comércio apenas realizam a mercadoria, não a produzem, logo, não produzem mais-valia e são improdutivos. No entanto, com a formação de monopólios na esfera comercial, grandes empresas conseguem concentrar e “industrializar”[5] em grande escala essa esfera comercial, o que implica que conseguem agarrar grande parte da mais-valia redistribuida em função da concorrencia capitalista e da imbricação entre a esfera fabril e a esfera comercial. Aos olhos do capital comercial, portanto, esses trabalhadores são diretamente produtivos.

Em outros setores de serviços como o do transporte, Marx já opina mais diretamente sobre a “industrialização” do setor e, nesse sentido, menos em termos relativos e mais em termos absolutos sobre a produção da mais-valia. No Livro Segundo, o autor de O Capital escreve o seguinte:

O transporte não aumenta a quantidade de produtos (…) Mas o valor-de-uso das coisas só se realiza com seu consumo, e esse consumo pode tornar necessário o deslocamento delas, o processo adicional de produção da indústria de transportes. Assim, o capital produtivo nela aplicado acrescenta valor aos produtos transportados, formado pela transferência do valor dos meios de transporte e pelo valor adicional criado pelo trabalho de transporte. Esse valor adicional se divide, como em toda produção capitalista, em reposição de salário e em mais-valia (MARX, L2, p. 166).

Ou seja, já no século XIX Marx conseguia enxergar, na esfera do setor de serviços, a industrialização do setor de transportes, tratando, portanto, como “uma continuação do processo de produção dentro do processo de circulação e para o processo de circulação” (MARX, 2006, p. 168 –  K2, C6), onde ocorre transferência de valor adicional e criação de mais-valia.

A modo de conclusão

A teoria do valor, portanto, contra as teses do fim do trabalho ou as reminiscencias pós-modernas de “sociedade pós-industrial e informacional” mantém enorme atualidade não só para reafirmar a centralidade do trabalho hoje, mas também para compreender as metamorfoses no mundo do trabalho. Dessa forma, nos abre a possibilidade de, compreendendo as transformações objetivas, relacionar também com a resistência e as formas de lutas dos trabalhadores, os aspectos subjetivos e o ângulo da estratégia.

E alguns aspectos portanto devem ser levados em consideração: em primeiro lugar, que não devemos abandonar as categorias de trabalho produtivo e improdutivo, ainda que a imbricação tenha aumentando e que, por vezes, custe mais estabelecer as fronteiras entre ambas as categorias.  Em segundo lugar, como parte de observar as zonas de intersecção entre o produtivo e improdutivo, buscamos retomar, como o próprio Marx utilizou, dois recursos para abordar esse tema: a) de um lado, estabelecer que existem formas diretas e indiretas do trabalho produtivo; b) o elemento relativo do debate, que permite ir percebendo com a formação dos monopólios aonde se imbrica o produtivo/improdutivo.

O intuito do rico e complexo debate dessas categorias, no entanto, não pode desviar do seu norte estratégico: ao compreender as novas formas da organização do proletariado, não se pode perder de vista os núcleos produtivos da mais-valia, de modo a organizar a classe em todos os setores, mas sabendo onde atinge o coração do capital; além disso, orientar o movimento operário no sentido de entender sua rica multiplicidade e os desafios que se colocam para unidade da classe trabalhadora, visando resgatar a perspectiva da revolução social.

[1] https://www.bloomberg.com/news/articles/2017-02-28/in-video-uber-ceo-argues-with-driver-over-falling-fares

[2] https://www.theguardian.com/technology/2017/jun/20/uber-ceo-travis-kalanick-resigns

[3] Ver Ricardo Antunes: Fim do Trabalho?, Os sentidos do Trabalho e mais recentemente o texto “A nova morfologia do trabalho e suas principais tendências”, informalidade, infoproletariado, (i)materialidade e valor”: in: Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil, volume 2.

[4] Ver artigo de Paula Bach, nesta revista.

[5] Sobre a industrialização dos serviços, destacamos o importante livro de Vinícius Oliveira Santos, Trabalho Imaterial e a Teoria do Valor em Marx, Editora Expressão Popular (2013).

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