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Eleições Argentina
Milei, ceticismo e a política da esquerda trotskista
Rosa Linh
Estudante de Relações Internacionais na UnB

O “liberfacho” Javier Milei foi eleito presidente da Argentina, após um governo catastrófico do peronismo que aplicou os ataques do FMI contra os trabalhadores. Não é hora para lamentações, mas de redobrar a organização e enfrentar a extrema-direita com a força dos trabalhadores, jovens e mulheres – esse é o chamado dos trotskistas do PTS, partido irmão do MRT, na Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade (FIT-U).

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Saudoso da ditadura, misógino, ultraliberal e fanático religioso. Esses são alguns dos adjetivos que caracterizam Javier Milei, uma espécie de Trump portenho. O “capitão anarcocapitalista” é economista de formação e professor universitário, promoveu-se como um “outsider” contra a “casta política”, uma versão argentina do “contra tudo isso que está aí”. Ganhou holofotes (com ajuda dos grandes meios de comunicação de massa) ao dizer coisas bastante estúpidas, como quando falou que iria “explodir o Banco Central” ou que “a venda de órgãos humanos é um mercado a mais”. Ele é sempre o primeiro a dizer que não houve 30 mil mortos na ditadura, nas listas de sua candidatura estava o filho de um militar torturador, Ricardo Bussi, fora que sua vice, Vitória Villaroel, visitou e estava na lista de contatos importantes do presidente genocida Videla quando este esteve preso - como bem denunciou a candidata a presidente Myriam Bregman do PTS nos debates.

Como afirmou Bolsonaro em vídeo de apoio ao candidato, “Nós defendemos a família, a propriedade privada, o livre mercado, a liberdade de expressão, o legítimo direito à defesa”, ou seja, a “liberdade” dos patrões de explorar e oprimir os trabalhadores; a propriedade dos grandes capitalistas que destroem o meio ambiente e enriquecem enquanto o povo passa fome; a “família e os bons costumes” da casta política e dos ricos contra os direitos à liberdade sexual e de gênero da juventude, LGBTQIAP+, o direito ao próprio corpo com o aborto para todes que tenham capacidade de gestar; o direito de defesa de Israel que massacra o povo palestino e o da polícia de assassinar impunemente. Milei faz demagogia contra o sistema político, mas no segundo turno foi indispensável o apoio do ex-presidente e um dos empresários mais ricos da Argentina, Mauricio Macri, e de sua ex-secretária de segurança e ex-candidata à presidência Patricia Bullrich. Não há nada em Milei contra a “casta” militar ou a “casta” econômica, muito pelo contrário.

Ainda que seja preciso avaliar quais serão os ritmos, a conformação exata e as políticas que levaram a frente seu governo, considerando que Milei já anunciou que irá privatizar algumas empresas estatais, e contando desde já com uma configuração de fragmentação política que impossibilita maioria para todas as coalizões burguesas majoritárias no Congresso, é fato de que o fundamental será decidido no terreno da luta de classes. Ou seja, é preciso redobrar a organização, com assembleias de base em cada local de trabalho e estudo, para exigir das centrais sindicais e movimentos sociais um verdadeiro plano de lutas para barrar os ataques e ajustes que virão. Esse é o chamado que o PTS, à frente da FIT-U, está fazendo frente ao resultado do balotaje, chamando para um forte ato de mulheres no próximo dia 25 de novembro.

Leia mais: Ganhou a direita de Milei: enfrentar nas ruas os novos ajustes e ataques que virão

A esquerda brasileira, no entanto, vende apenas lamentações. E isso se explica pelo grande fracasso de seu candidato, Sérgio Massa, perdendo por 12 pontos de diferença. Diante de um governo que aplicou fortes ajustes contra os trabalhadores e o povo pobre, viu subir uma inflação aos 150% e uma taxa de 40% de pobreza, Massa foi o “superministro” da economia e o responsável por articular o acordo para pagar a fraudulenta dívida pública ao Fundo Monetário Internacional. Atuando como um verdadeiro embaixador dos Estados Unidos, Massa tinha apoio de parcela significativa do capital financeiro internacional e do Partido Democrata de Biden. Pois bem, a estratégia de vender o “mal menor” como saída para “combater o fascismo” (uma fraseologia comum para os oportunistas encobrirem sua política de conciliação de classes e não enfrentarem seriamente a extrema-direita), de que era preciso “ir mais à direita” para pegar os votos da direita tradicional, chegando ao ponto de chamar o próprio Libertad Avanza de Milei para compor governo nos debates presidenciais – ora, isso se mostrou totalmente falido. É justamente isso que gesta todo o desamparo e desmoralização, a conciliação de classes do peronismo abriu espaço para a extrema-direita, ele é o principal culpado pela ascensão de Milei, deixando os grandes sindicatos que dirigem paralisados há anos mesmo diante de tamanha crise social.

Junto dos stalinistas da UP e do PCB, o PSOL apoiou sem meias palavras Massa, e estiveram, inclusive, no bunker eleitoral do peronista. Com a derrota, elogiaram-no por “aceitar o resultado” das eleições, muito parecido com a reação de Lula, parabenizando o reacionário pela vitória e chegando ao cúmulo de lhe desejar boa sorte. Não à toa, o PSOL é base desse governo de frente ampla, não por acaso sua figura mais proeminente, Guilherme Boulos, está completamente ausente diante do genocídio palestino, sem dizer uma só palavra e pensando unicamente nas eleições para prefeito de São Paulo no ano que vem. Como responderiam os militantes do PSOL ao serem questionados sobre o apoio de Massa ao genocídio palestino quando esteve junto das associações pró-Israel? Aqui cabe mencionar que Israel felicitou a vitória de Milei e aproveitou para “inaugurar” a embaixada da Argentina em Jerusalém. Por isso, é no mínimo cínica toda a política do peronismo, e que encontra eco na esquerda brasileira, de que o PTS e a FIT-U, por se manterem independentes politicamente de Massa para enfrentar consequentemente a extrema-direita, foram cúmplices da ascensão de Milei. Myriam Bregman foi a mais fervorosa opositora ao reacionário nos debates transmitidos em rede nacional, chamando-o de “gatinho mimoso do poder econômico”, fora as inúmeras denúncias no Congresso, sendo linha de frente das lutas, de onde a esquerda trotskista nunca saiu.

O voto em Milei foi muito mais contra a política desastrosa do peronismo, de ódio contra o sistema político diante de tamanha crise social, do que um endosso ao conjunto do programa de ajustes e ataques da extrema-direita. Evidentemente, há uma base fascistizante no meio disso tudo, mas desconsiderar a situação de forte crise orgânica, como diria Gramsci, uma crise entre representantes e representados, seria um apagamento cético do potencial da classe trabalhadora de barrar as políticas de Milei. A correlação de forças não está dada de antemão, é preciso construí-la, por isso não é hora para lamentações, mas sim de analisar como chegamos até aqui e qual o caminho para mudar as coisas. Seu governo mostra sinais de debilidade em terrenos importantes, em especial na luta de classes, ainda que tudo deverá ser medida na realidade dos fatos quando realmente iniciar o seu governo. Pode gozar do apoio de setores majoritários do grande capital (e para isso deve ser enfrentado nas ruas por uma ampla frente única operária junto aos movimentos sociais, como sugeriu Myriam Bregman ao dizer que “enfrentaremos as forças do céu com a força da luta nas ruas”), e certamente viverá instabilidade como os bonapartismos que o antecederam, de Trump a Bolsonaro. O mundo está em outra situação, marcada por guerras como a da Ucrânia, uma situação precária e frágil da economia, além de um histórico movimento anti-guerra, que remonta os grandes protestos contra a Guerra do Vietnã, que colocam milhões nas ruas contra o massacre palestino, chegando a criar fissuras na maior potência imperialista do mundo. A única perspectiva realista para enfrentar a extrema-direita, assim como foi aqui no Brasil com Bolsonaro, é dedicar esforços para construir uma ferramenta-partido de independência de classe, que não seja nem cúmplice dos ajustes e nem submetida ao FMI, que aposte na auto-organização dos trabalhadores junto de seus aliados nos movimentos sociais para botar essa escória fascistóide na lata do lixo da história, “dar vuelta a la historia” e enterrar de uma vez por todas o capitalismo que, em suas distintas variantes, apenas roubam o futuro da humanidade.

 
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