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Miércoles 23 de Junio de 2021
09:52 hs.

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O CORTIÇO - ALUÍSIO DE AZEVEDO
Moradia, trabalho e saúde: a atualidade do cortiço, obra de Aluísio Azevedo
Kleiton Nogueira
Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)

Publicado em 1890, o romance “O Cortiço” do escritor maranhense Aluísio de Azevedo retrata, através das minúcias do naturalismo, as condições de vida e configuração social de uma sociedade que tem na escravidão o estigma mais hediondo da exploração de classe.

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Imagem: Jornal USP

Podemos considerar o campo literário como lócus didático, muitas vezes as leituras de romances conseguem nos transportar para determinada realidade social de forma profunda e intensa, como se de fato estivéssemos sentindo os prazeres e flagelos dos personagens.

Nesse quesito, a literatura brasileira não nos deixa a desejar, são vários autores e autoras que fazem essa função através de obras profícuas, nos levando ao conhecimento de realidades adversas e nos ensinando sobre a história de nossa formação social. Uma obra que consegue fazer bem essa função é o livro “O Cortiço’’, de Aluísio de Azevedo, obra que retrata bem as relações cotidianas que se estabeleciam num Rio de Janeiro do final do século XIX.

Aluísio de Azevedo (1857-1913) nasceu na cidade de São Luís, estado do Maranhão, sendo considerado um dos precursores do naturalismo no Brasil, faleceu no ano de 1913, na Argentina.

Na sua obra “O Cortiço”, expressa elementos de um Brasil do final do século XIX, com processos políticos e mudanças tais como a “abolição da escravidão” e a proclamação da república. O racismo é um tema nítido, e as ambientações são construídas revigorando o caráter de classe de uma sociedade escravocrata, repleta de desigualdades e exploração.

Alguns personagens se destacam no livro, dos quais podemos citar João Romão, português que por meio de trapaças e da ganância, consegue se tornar comerciante e dono do cortiço, local no qual é ambientado o texto. Temos também Bertoleza, uma escrava que, ao fugir de seu “proprietário”, encontra em João Romão a promessa de compra se sua carta de alforria em troca da prestação de serviços.

No cortiço em específico encontramos figuras curiosas, como Rita Baiana, mulher negra que carrega ares de independência, questionando os padrões patriarcais da época, inclusive no quesito casamento, que para a personagem é uma espécie de prisão. O parceiro de Rita é o firmo, capoeirista que, ao se criar no âmbito da música popular carioca, não esconde sua paixão pela personagem Rita, ao mesmo tempo em que nos remete à prática da capoeira como elemento cultural de nossa formação social.

Outro personagem que se destaca é Jerônimo, um português que trabalha como mineiro na pedreira de João Romão. Jerônimo inicialmente representa na trama o saudosismo de Portugal, com pitadas de melancolia, mas também de descoberta frente à cultura popular brasileira. Há também Pombinha, uma moça que, junto à mãe, fica na espera da “menarca”, ou seja, a primeira menstruação para que, definitivamente possa se casar com seu noivo e finalmente sair do cortiço, local considerado por sua mãe como impróprio para a delicadeza das duas.

Não podemos deixar de apresentar o Miranda e sua família, composto por mulher e filha. Miranda é um típico português que ao se casar com uma brasileira, recebeu um dote que lhe permitiu viver a vida de comerciante pequeno burguês. Sua casa fica ao lado do cortiço de João Romão, e inicialmente vive em pé de guerra com este devido à recusa de João Romão em vender o terreno do cortiço e da pedreira para que Miranda expanda a sua casa.

Não menos importante é o próprio cortiço que na trama acaba sendo também um personagem com vida própria. Local simples e precário no qual o autor procura explorar a ausência de condições satisfatórias de higiene e privacidade. Esse ponto em si chama atenção porque o propósito de João Romão ao construir o Cortiço objetivou alugar às pequenas moradias a gente sem muito dinheiro, mas que devido à ausência de casa própria, necessita da moradia precária. No próprio cortiço João Romão procurou fazer uma espécie de lavanderia, no qual as lavadeiras ali mesmo trabalhavam e consequentemente, pagavam aluguel e alimentação ao comerciante.

Um misto entre insalubridade, exploração, racismo e representação de sentimentos como inveja, paixão, luxúria e tristeza forma a personalidade do cortiço. Cabe destacar que Aluísio de Azevedo, apesar de não explorar o tema de forma profunda no livro, não deixa passar a temática da Febre Amarela no Rio de Janeiro. Essa doença ocasiona sintomas como febre, náuseas e vômitos. Nos casos graves há problemas cardíacos, hepáticos e renais. O nome febre amarela advém do fato das pessoas infectadas ficarem com os olhos e pele amareladas, e sua transmissão é realizada através de mosquitos infectados que transmitiam para os seres humanos o agente infeccioso. Num quadro de época com ausência de saneamento básico e condições mínimas de higiene, o ambiente era propício à disseminação de doenças desse tipo.

De um modo geral podemos dividir a obra em três atos principais: o primeiro vinculado ao cotidiano do cortiço, com seus pagodes, bebidas, brigas entre casais, além do retrato da pobreza e da exploração que fica mais visível com as falas das mulheres lavadeiras, que trabalham de sol a sol para poder realizar o auto-sustento. Nesse cotidiano a figura do sexo é bastante forte, e os lados animalescos parecem ser retomados por Aluísio de Azevedo numa espécie de resgate ao naturalismo.

No segundo momento da obra destacamos o desejo de João Romão ascender de posição Social, deixar de ser um pequeno comerciante para se tornar um grande proprietário. Ele encontra essa possibilidade num possível casamento com a filha do personagem Miranda, que ao ser nomeado ao posto de barão, despertou em João Romão a cobiça por fazer parte dos redutos da burguesia, com o padrão de consumo e boçalidade que salta aos olhos do leitor.

O terceiro momento do livro é baseado na busca de João Romão em se ver livre de Bertoleza. O fato de morar no mesmo teto que a escrava desperta críticas negativas e se torna um impedimento ao seu casamento. Sendo assim, passa a maquinar formas de se livrar da companheira que, num regime de superexploração, o ajudou a construir seu pequeno comércio.

A partir da trama, descrição e enredo da obra, o que nos chama atenção é a atualidade dos temas, categorias como violência contra a mulher, superexploração, especulação imobiliária e racismo são bastante fortes. Aluísio de Azevedo procura traçar um retrato animalesco dos personagens e não poupa o leitor das descrições e ambientações. Num misto paisagístico que releva pobreza, mas ao mesmo tempo a alegria nos raros momentos de divertimento que as trabalhadoras e os trabalhadores possuem, temos a presença da cultura popular através da comida, da música e da capoeira.

Ambientado num momento em que o Brasil vivenciava um regime escravocrata, é comum ver o racismo contra a população negra, culpabilizada pelo atraso do país. Ao mesmo tempo em que há os apoiadores do império, temos também parcelas da sociedade que sonham com a proclamação da república e a constituição de uma “independência” política de Portugal para que o Brasil possa trilhar os próprios rumos.

Com as devidas peculiaridades históricas, os problemas de moradia, trabalho e saúde parecem mais atuais do que nunca. Vivenciamos, passados 131 anos do lançamento do Cortiço, sob a batuta da exploração no trabalho, sem acesso à moradia, alimentação e saúde dignas. O tema da fome, que nos faz lembrar outro grande autor brasileiro, Josué de Castro, ressurge com contornos violentos em pleno século XXI, com a insegurança alimentar batendo à porta do país exportador de soja, considerado como “celeiro do mundo”.

O racismo, mais estrutural do que nunca, é parte constituinte de uma sociedade de classes, que passou a normalizar a morte de jovens negros nas periferias, nas operações policiais como a que ocorreu no Jacarezinho no Rio de Janeiro, no qual a sentença à morte parece estar ligada ao CEP que o indivíduo possui.Enquanto isso, o Brasil é um dos epicentros mais mortais da pandemia de Covid-19, com mais de 420.000 óbitos, em sua maioria da população negra, impossibilidade de praticar o “isolamento social”, já que o auxílio emergencial que o governo federal disponibilizou não consegue suprir as necessidades mais básicas, como alimentação.

Ao ler a obra de Aluísio de Azevedo e olhar para o Brasil, parece que vivenciamos um enorme cortiço com a precariedade do trabalho, da moradia, da alimentação e da saúde.

Enquanto o governo Bolsonaro golpeia as trabalhadoras e os trabalhadores com uma política sanitária assassina, e a burguesia continua lucrando sob o trabalho levado nas costas pelo proletariado, a fome, bala e a ausência de elementos mínimos como a vacinação em massa, tem cancelado inúmeros CPFs no país.

Devido a sua atualidade, em tocar temas tão sensíveis à sociedade brasileira, o cortiço não é indicado apenas pela sua história e enredo, mas pela forma como Aluísio de Azevedo consegue retratar dilemas sociais de uma época, mas que ainda persistem em nossa realidade. De fato, é um livro que nos faz perceber que os processos de mudança não podem ser alcançados com base nas conciliações de classes ou com saídas eminentemente técnicas, como se a Economia não fosse política e estivesse presa ao tacão de um cientificismo vulgar e inerte, que reforça a todo instante que temos que ser resignados diante da acumulação e dos lucros dos capitalistas, sem podermos questionar a propriedade privada.

 
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