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Jueves 17 de Junio de 2021
17:13 hs.

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COLUNA
Combater a fome no celeiro do mundo
Thiago Flamé
São Paulo

A produção agrícola brasileira alimentou em 2020 o equivalente a 10% da população mundial, cerca de 800 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo estudos da Embrapa, com crescimento de cerca de 11% da produção durante a pandemia. Enquanto isso, segundo levantamento mais recente, para novembro e dezembro do ano passado, 59% dos brasileiros passou por algum tipo de insegurança alimentar no último trimestre do ano, sendo que cerca sofreu 13% insegurança grave, ou seja, fome.

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Esses números se referem ao final do ano passado, meses de pagamento das últimas parcelas do auxílio emergencial. Na falta de estudos mais recentes, podemos ver na multiplicação das campanhas de arrecadação de alimentos promovidas pelas ONG, associações empresariais e pela grande imprensa, que cada vez mais pessoas passam fome no Brasil.

O cinismo dessas iniciativas é revoltante. Numa conta simples, com apenas 30% da produção brasileira, o equivalente a 30 bilhões de dólares, seria possível alimentar com sobra toda a população. Com uma fração bem menor dessa produção, seria possível erradicar por completo a insegurança alimentar em todos os níveis e a fome. Em tempos de pandemia viral, o combate a fome deveria se colocar como a medida sanitária mais elementar e urgente, já que a medida mais básica para elevar a imunidade contra o vírus é garantir três refeições por dia para toda a população. Se cruzarmos o mapa da fome com o mapa das mortes por covid, não será nenhuma surpresa ver como a pandemia também faz maiores estragos nas periferias e entre o povo negro, entre os quais o problema da fome é mais grave.

Começa a aparecer nas classes dominantes o medo de revoltas da fome e as referências à recessão de 1981/83 trazem consigo o temor de grandes rebeliões. Como a de 1983, quando explodiu uma onda de saques na cidade de São Paulo, que abrangeu a região que vai de Santo Amaro na Zona Sul até o centro da cidade e durou mais de três dias ininterruptos. Essa revolta social profunda não se ligou ao movimento operário que lutava contra as demissões e a inflação pelo corporativismo das direções sindicais lulistas, que não incorporaram as demandas dos setores pauperizados, numa luta comum contra a fome, o desemprego e a ditadura militar.

Frente a uma catástrofe social tão profunda, o desespero das camadas mais profundas da classe trabalhadora e dos setores populares empobrecidos se torna um campo fértil para que todo tipo de demagogia por parte das classe dominantes. O Ceagesp bolsonarista distribui alimentos para a população em São Paulo, enquanto Dória, com diversas associações patronais e centrais sindicais como Força Sindical, UGT e CTB, assinam carta pelo retorno do auxilio emergencial.

As centrais sindicais de conjunto respondem a situação com aquele mesmo corporativismo do início dos anos oitenta. Diante da crise cada vez maior, aplicam a estratégia da salve-se quem puder. Cada sindicato pede vacina para os seus e fogem de qualquer luta unificada que levaria a um questionamento mais estrutural, enquanto apostam suas fichas nas eleições de 2022 e, quando muito, organizam suas próprias campanhas de solidariedade ou se somam as campanhas patronais.

É urgente uma resposta unificada que venha da classe trabalhadora e de suas organizações para a catástrofe da fome e da pandemia. Os sindicatos poderiam encabeçar uma ampla mobilização de solidariedade e arrecadação de alimentos, convocando a classe trabalhadora empregada e se colocar na linha de frente em defesa dos empregados e informais que são obrigados e viver na miséria do auxilio emergencial e dependentes da filantropia burguesa. Comitês de distribuição de alimentos organizados pelos sindicatos, articulado com medidas de vigilância das condições sanitárias nos bairros e locais de trabalho e estudo, seriam uma poderosa ferramenta para forjar uma forte aliança entre a classe trabalhadora e o povo, articulado junto a demandas como a construção de restaurantes populares nas periferias e confisco dos estoques do agronegócio que também seria uma medida para enfrentar o desemprego e generalizando a demanda de vacina para todos, quebra de patentes para acelerar a produção das vacinas.

 
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