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Sábado 15 de Mayo de 2021
14:27 hs.

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TRABALHO PRECÁRIO
Diário de entregador - Sequestraram o futuro da juventude
Vinícius Pereira, entregador por app

Umas das coisas que mais me marca todo dia é como são tão novos meus colegas entregadores, já trampei com um menino de 16 anos que usava um cadastro no nome da mãe. Nós éramos de um grupo de bikers que ficava junto numa esquina. Ele ficava bem animado em conseguir uma renda e ajudar na casa, dando grau entre uma entrega e outra.

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Correndo todo risco das ruas movimentadas em nosso trabalho porque as empresas não dão nem a bag para trabalhar, muito menos capacete e proteção adequada e nem todos têm dinheiro para comprar, como no caso desse menino que às vezes meio afobado tinha alguns acidentes menos graves, corria para conseguir fazer mais dinheiro desgastando sua bike.

Passaram poucas semanas, já considerava um amigo, se ajudando no dia-a-dia, a gente conversava como era difícil as entregas, de ser muito cansativo e ficar muito tempo esperando tocar o aplicativo, para receber tão pouco. Chegamos a trocar ideias sobre o racismo da polícia que passava muitas vezes enquadrando no meio do trabalho.

Teve um dia que ele estava meio preocupado, disse que um cliente questionou porque ele não era a pessoa da foto no aplicativo de delivery. Passaram alguns dias e ele apareceu na esquina, estava muito desapontado e contou que foi bloqueado, além de ter quebrado peças caras da sua bike nas últimas entregas que tinha feito e não voltou mais. Uma amizade que infelizmente durou pouco, mas será mesmo que era para ele estar ali?

Quantos será que trampam com menos de 18 em cadastro de familiares e amigos? Eu tenho certeza que muitos, muitos mesmo que completam 18 anos são empurrados no mesmo instante para se jogar dezenas de horas nas ruas, com todo peso nas costas, as ladeiras exigindo muito das pernas, acidentes, chingos de clientes, impedidos usar banheiros ou tomar uma água, e o acompanhante em todo momento, às vezes despercebido, o cansaço.

Mas o cansaço físico que meus colegas dizem se acostumar, dormindo menos horas, na verdade é a grande perversidade desses bilionários donos das empresas de entrega/delivery por aplicativo.

Sinto um ódio enorme ver eles tão jovens, sendo impedidos de viver esse período da vida, sendo forçados a trabalhar, mesmo a enorme mentira da autonomia de escolher o horário que vai trabalhar, basta conversar que dá para perceber que não é uma questão de vontade estar rodando nas ruas 12 horas, às vezes 16 horas, dependendo do feriado rodar mais de 24 horas, para nós não existe direito ao descanso remunerado, “tirar folga” ou férias significa bem menos dinheiro ao final do mês.

Nunca foi uma escolha essa vida precária, esses aplicativos monstruosos aproveitam a grande exploração em trabalhos CLT de terceirizados, fast-food, telemarketing, trabalho fixo sem carteira assinada. Quando converso com meus colegas, boa parte já passou por isso, é revoltante toda cobrança e assédio dos chefes, os salários baixíssimos com um trabalho sempre muito pesado. É da miséria nesses trabalhos que os app trazem um conto de fadas da flexibilidade e o dinheiro mais fácil. Mas a realidade é a super-exploração, e nos obrigar arcar com todos custos dos meios de trabalho, de descolamento, alimentação, manutenção da bike ou moto, o 3G cara, o celular, tudo sai do nosso bolso. Ou seja, é uma criatividade perversa para encontrar de onde sugar mais ainda dinheiro através da nossa energia.

Muitos já trabalhavam ao final da adolescência e início da juventude, mas quero destacar aqui que esses bilionários donos dos app’s tornaram o trabalho nesse período da vida generalizado. Sequestraram os jovens de suas escolas, da vida social com amigos no final de semana, momento que trabalhamos mais, e querem roubar nosso sonho de se formar em alguma faculdade paga ou conseguir furar o filtro do vestibular. Os app arrancam mais cedo dos estudos, esgotando as energias e a concentração depois de um dia duro de entregas, atrapalhando a vida.

Se já tão jovens esses filhos garantem uma renda à família mesmo recebendo tão pouco, sem nenhum direito, então brilha os olhos gananciosos dos capitalistas em rebaixar mais ainda os salários de todos seus familiares. Essa é a nova grande sacada dos capitalistas para continuar sugando nossas vidas como parasitas e vermes que são.

Apesar de quererem cada vez mais nos esfolar, a classe trabalhadora não está derrotada, nós, tão precarizados podemos nos levantar e novas ondas de luta podem inundar a sede de viver tudo que sempre terá a juventude.

Leia também: O futuro da juventude é carregar uma bag nas costas?

 
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