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Miércoles 13 de Noviembre de 2019
20:38 hs.

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IMPERIALISMO
O militarismo funciona como estímulo ou como problema para a economia norte-americana?
Gilson Dantas
Brasília

Impasses e limites do desproporcional setor bélico na economia norte-americana [Parte I].

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O democrata Obama, continuando os governos anteriores, continua promovendo os gastos militares e as intervenções bélicas no exterior. Neste sentido, existe um debate antigo sobre tais gastos – que se apoiam no maior orçamento de defesa do mundo, maior que a soma dos dez maiores gastadores depois dos USA – e que gira em torno do seguinte: quais as vantagens ou as desvantagens daqueles gastos para a economia dos Estados Unidos?

A economia armamentista norte-americana, ainda quando possa ser tomada na sua condição de estímulo econômico, mesmo neste papel ela implica em contradições de grande porte para o sistema como um todo.

Ou seja, se aceitarmos a hipótese de que os gastos militares desproporcionais funcionam como estímulo econômico – hipótese de Gill (1996) e de tantos outros autores –, a seguinte questão será inevitável: por que então, desde a recessão de meados dos anos 70, os gastos bélicos gigantescos e ascendentes já não mais parecem funcionar como antes? Ao contrário: os gastos militares assumiram dimensões trilionárias e a economia americana por mais que oscile em suas taxas e indicadores econômicos, não se desvencilha da sua tendência, desde o início dos anos 1970, a desenvolver estagnação e bolhas (crises agudas por sobreacumulação de capitais) e desde 2008 vive sua mais grave crise rastejante, de proporções históricas.

O gráfico a seguir dá uma ideia da desproporção dos gastos dos Estados Unidos em relação aos gastos mundiais. O grau de aberração chega ao ponto de que se somarmos os próximos orçamentos, um a um, o dos Estados Unidos ainda é maior que quase todos os demais juntos...E a China cujos gastos veem crescendo, é o segundo da lista, mas parte de um patamar bem baixo em relação aos norte-americanos.

Tabela 1 – Os 20 maiores orçamentos de defesa do mundo [2013]

Na literatura marxista, desde Kidron (1970) e outros, vem sendo examinada a questão do keynesianismo militar (MATTICK, 1980), de avultados gastos bélicos estatais como os dos Estados Unidos, mas dificilmente será encontrada a ideia de que os gastos públicos – mesmo os militares – sejam capazes de impulsionar a economia de forma autossustentada. Existe a consciência de que o gasto público – seja em armas, hospitais ou rodovias – é gasto: ele não se transforma em lucro para o Estado. Isto é, para o governo, é um custo que tem de ser reposto, que tem de ser novamente subtraído de algum lugar e os impostos são sua fonte essencial. Mesmo que pela via da dívida pública, aqui, novamente, os impostos seguem sendo sua fonte essencial.

Historicamente, se aquela crise geral dos anos 30, nos USA sobretudo, desembocou numa economia do armamentismo permanente, o fato é que após a II Guerra Mundial, este setor bélico na economia, por sua vez, não parece contribuir para conduzir o sistema para mais equilíbrio, de forma a poder retornar, por exemplo, à fase em que os Estados Unidos não só não dependiam do setor bélico, como sequer possuíam uma economia bélica significativa, e sua economia produzia, fundamentalmente, automóveis e outros bens de consumo duráveis.

Certamente a parte determinante do fardo dessa fatia bélica do PIB recai nos impostos sobre os salários, e a carga tributária estabelece certo limite no processo, derivado do sufoco obvio de qualquer política de sobrecarga fiscal.

Outro limite, também estrutural, parece ser o de que o gasto militar, que vem como uma contratendência à estagnação econômica (da economia não militar, da economia de conjunto), estimula o crescimento econômico em geral, com sua demanda, mas depende de que aquele capital, da economia não militar – assim como também o próprio capital do setor bélico - por sua vez, aumente a taxa de extração de mais-valia, explore o trabalho vivo, consiga aumentar sua massa de lucro, caso contrário, o setor de “bens de destruição” [bélico] não terá onde se apoiar continuadamente. É preciso que a economia real cresça (ou então que viva em estado de guerra mundial, por exemplo, isto é, onde o PIB seja absolutamente voltado para o esforço de guerra, como se deu na II Guerra).

A expansão daquele setor bélico tem a ver e se desenvolve lado a lado com a expansão colossal do capital financeiro.

Por outro lado, é possível presumir que enquanto a economia não bélica – nas décadas pós-II Guerra – pôde crescer, apoiada, em parte, no impulso dos gastos militares e, sobretudo, nas condições excepcionais criadas pela II Guerra Mundial¹ , a punção dos gastos militares sobre ela ainda não se fazia sentir abertamente, não impactava tanto, em seus efeitos contraditórios, sobre o funcionamento da economia, nos marcos de uma economia em crescimento. Aumentava-se a dose do remédio e o paciente, que ameaçava entrar em recessão, reagia, respirava, caminhava. Os gastos da Guerra da Coréia diante da recessão de 1949 tiveram, em boa medida, esse sentido.

A partir de certo ponto, por mais que se aumentassem os gastos militares, como na guerra do Vietnã, a crise do sistema tendeu a se avolumar e se complicar. A economia norte-americana não mais refletiria em toda sua amplitude o impacto dos gastos militares no que ele traz de “virtuoso”.

A hipótese aqui é de que nem o gasto militar vem surtindo o efeito que teve nos tempos do boom do pós-guerra e nem a economia não bélica – em que pese todo o empenho neoliberal na destruição de direitos sociais e trabalhistas na precarização do trabalho e no saque por todas as formas possíveis, às nações e aos povos, e no derrame de dinheiro público [Quantitative easing] a favor das instituições financeiras, a cada crise que aconteceu, nenhuma daquelas contratendências tem conseguido arrancar a economia da recessão. Tampouco o recurso do gasto bélico. Estamos aqui diante de uma medida histórica da profundidade da crise capitalista, mesmo diante das respostas estatais. O gráfico a seguir evidencia essa tendência.

Tabela 2 – Crescimento econômico se desenvolve a taxas menores nos países mais desenvolvidos/regiões – incluindo USA/Europa.

Fonte-KPCB, BEA, FMI, dados 4/11[PIB ajustado pela inflação]

Como, por outro lado, o capital não pode deter sua acumulação sob pena do colapso, é de se imaginar que continuará tendo que recorrer ao setor bélico, portanto, seguirá tensionando o Estado militarista, provavelmente com tanto mais ênfase quanto menos possa controlar a decadência de sua hegemonia como imperialismo de primeira ordem.
O elemento central dos gastos militares tem a ver com crise das finanças públicas americanas (diretamente relacionada à crise do dólar), na mesma medida em que ele é coberto por dívidas em uma economia que saiu da fase de boom e, estando fora dela, a dívida estatal tende a crescer.
Desde a grande crise dos meados dos 70, o pesado endividamento norte-americano, hoje maior que seu PIB, mais a tendência secular, na média, a um declínio nas taxas de crescimento do produto bruto mundial são características da crise capitalista global.

Tabela 3 – Crescimento desde os anos 1980 da dívida bruta do mundo

Dados a respeito constam de Beinstein (2001) assim como também na OECD (2009).

Na segunda parte deste artigo, examinaremos o vínculo entre gastos militares e financeirização, dívida pública e crise econômica global.

Notas: ¹ As condições excepcionais já citadas têm a ver com: a destruição de forças produtivas, promovida pela II Guerra; a imensa acumulação de mais-valia na economia industrial civil nos anos de guerra e nas décadas pós-guerra do boom, por conta das altas taxas de exploração do trabalho que foram possíveis naquela conjuntura política (onde o pacto de Yalta, com Stálin, amparou o capitalismo politicamente); e outros fatores com capacidade de funcionar como contratendências à queda da taxa de lucro.

Referências = AMADEO, Kimberly, 2015. US Military budget: components, challenges, growth. Disponível em: http://useconomy.about.com/od/usfederalbudget/p/military_budget.htm / BEINSTEIN, Jorge, 2001. Capitalismo senil: a grande crise da economia global. Rio de Janeiro: Record. / DANTAS, Gilson, 2013. O militarismo norte-americano, o terrorismo infinito e a crise econômica mundial. In Contra a Corrente, ano 5, n.10, p. 37-45. / GILL, Louis, 1996. Fondements et limites du capitalismo. Montreal, Quebec: Boreal. / HUSSON, Michel, 2008. Un pur capitalism. Paris: Editions Page Deux. / KIDRON Michael, 1970. Western Capitalism Since The War. Pelikan Books, USA. / MATTICK, Paul. 1980. Crítica de la teoria econômica contemporânea. México: Ediciones Era. / OECD, 2014. OECD-Rate of change of Gross domestic product, world andOECD, since 1961. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Economic_growth /

 
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