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Quilombo, revoltas e greves: a tradição da luta negra e a luta por justiça a João Alberto
Renato Shakur

Neste 20 de novembro não tivemos muito o que comemorar. João Alberto foi brutalmente assassinado a socos e chutes por um policial e um segurança no supermercado Carrefour em Porto Alegre, justamente um dia antes do dia em que relembramos a trajetória de luta contra o sistema escravista e Zumbi dos Palmares, liderança negra cujo quilombo resistiu por mais de 100 anos na Serra da Barriga, em Alagoas.

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No meio de tanta revolta e tristeza o pai de João Alberto, João Batista pediu “para que não seja em vão” a morte de seu filho e “que sua morte sirva de lição para as demais pessoas que quiserem colaborar com as camadas sociais para um dia a gente ter uma igualdade social mais plena nesse país”. O pedido de João Batista se encontra com a força internacional da luta negra que tomou as cidades dos EUA e ecoou pelo mundo inteiro. No Brasil, os atos por justiça a João Alberto e amplo rechaço ao espancamento covarde mostraram também que a população negra e os trabalhadores já não aguentam mais morrer pela violência policial e pelo racismo. No mês da consciência negra vale a pena rememorar alguns exemplos de luta de nossos antepassados, histórias lindas e de profunda inspiração revolucionária nas quais devemos nos apoiar para impor justiça a João Alberto e seguir lutando contra o capitalismo e o racismo com a mesma convicção de seu pai em defende que a morte de nenhum negro será em vão.

Os malungos e a liberdade

Robert Slenes ao analisar a origem da palavra malungo no registro de filólogos e antropólogos indicou como escravos da África bantu não só comunicavam através das palavras, mas também a partir de outros sentidos que essas mesmas palavras podiam sugerir. Malungo em kimbundo significava “companheiro da mesma embarcação”, em umbundu, “companheiros do sofrimento” e em kikongo “barco/navio” (1) Há tambem um sentido metonímico no uso do vocábulo malungo por parte de escravizados que falavam kikongo, umbundo e kimbundo e de muitos outros que apesar de virem de outras regiões do continente africano, aprendiam os fundamentos dessa língua desde o início da vida em cativeiro – como o povo yorubá ou nagô. Tal sentido ainda que pudesse estabelecer comunicação entre diversos povos no caminho para a costa do outro lado do Atlântico, não passou a salvo do conhecimento senhores de escravos, no entanto, algo escapou incólume do domínio senhorial. Eles ignoravam que para muitos cativos da região da África Central, malungo tinha um sentido cosmológico e, curiosamente, por detrás de um tratamento corriqueiro e formal entre negros escravizados havia um significado muito mais profundo da palavra malungo. O significado dele se estendia, Slenes notou que também se referia ao “companheiro da travessia da kalunga”, o vocábulo kalunga presente naqueles idiomas comportava um sentido cosmológico e podia referir-se ao mar, ao mesmo tempo também era a linha divisória entre o mundo dos vivos e dos mortos. Aos olhos dos africanos, chegar até o outro lado da costa do oceano, atravessar a kalunga, seria chegar à terra dos mortos (Mputu), a terra dos brancos. Os cativos que chegavam às Índias Ocidentais não perdiam as lembranças – e isso não podiam lhes tirar – de sua terra e de seu povo e à medida que fossem chegando a “terra dos mortos” e lá se desenvolvessem a vida em cativeiro aquela lembrança se já muito distante não era de maneira alguma algo inviolável.

Regressar do Mputu à África, sair da terra dos brancos à terra dos negros, atravessar a kalunga novamente, mas agora em caminho oposto aquele feito anteriormente das rotas do tráfico atlântico, significava cosmologicamente, retornar à vida. E se a terra dos homens negros, a vida, ainda era algo palpável, a África existia do outro lado do Atlântico – por mais que saibamos as implicações e as dificuldades de um possível retorno ao continente à época e que de forma alguma era ignorado pelos cativos na América – os malungos compartilhavam a partir da realidade material a possibilidade de retornar a vida e pôr fim ao cativeiro. Na ordem do dia dos “companheiros de travessia da kalunga” não se alienavam a possibilidade de resistir e de lutar contra do domínio dos senhores e contra a escravidão negra, pois no imaginário dos malungos ainda havia sua terra de origem completamente tangível, e, portanto, a luta contra aquela condição imposta aos africanos podia ser revertida.

Certamente esse sentido cosmológico da palavra malungo não foi captado pelos senhores de escravos, mas nem por isso não puderam ver com os próprios olhos até onde aquilo poderia chegar. O vocabulário de línguas africanas foi utilizado muitas vezes como forma de dissimulação, e por mais que as autoridades coloniais tentassem a partir de cientistas europeus conhecer o costume e a cultura dos povos escravizados – para reforçar o domínio senhorial – às vezes “não conseguiam penetrar muito além da superfície das palavras, sensibilidades e visões africanas” (2). Por outro lado, e talvez ai esteja contido a criatividade e a perspicácia dos negros para enfrentar a escravidão, até mesmo no vocabulário, o escravizado organizava formas de se libertar, não à toa houve inúmeros motins e revoltas seja na costa africana como nas Américas, de negros africanos em navios negreiros. Uma coisa não podemos negar, desde que o primeiro grilhão foi colocado do pescoço aos pés de um africano para ser negociado e vendido como escravo para algum senhor nas Américas, uma luta incansável pela liberdade se iniciou. A propósito, o capitalismo pode nos tirar quase tudo, nos relegou a condição de sub raças, sub humanos, nos assassinou e nos mata até hoje por lucros, mas a nossa determinação em lutar pela nossa liberdade, isso não conseguiu em lugar nenhum do mundo onde tenha tido escravidao africana retirar. É isso que fundamenta a nossa identidade.

A luta dos negros contra o sistema escravista

A luta dos negros foi contra o sistema escravista, ainda que haja inteletuais que insistam na tese que a branquitue, uma suposta hegemonia branca erguida desde a dominção do homem branco sobre o negro africano, excluindo por completo o conteúdo de classe, ignorando o fato de uma elite senhorial ter enriquecido com o tráfico e o cativeiro. Essa interpretação de que a escravidão é fruto de uma necessidade de imposição da cultura, política e visões de mundo preconceituosas do branco, tampouco explica a unidade entre trabalhadores brancos e negros, formidável aliança que colocou abaixo o regime escravista. Os trabalhadores brancos deram inúmeras batalhas através de suas associações não apenas para admitirem em suas fileiras negros escravizados e “livres”, mas também na compra coletiva de alforrias e em sua libertação (3). Essa acabou se mostrando a verdadeira força que a unidade das fileiras operárias hegemonizando o conjunto dos oprimidos pode ter, no caso brasileiro, a luta abolicionista que juntou na mesma trincheira trabalahdores negros e brancos, escravizados e “livres”. Essa reflexão traz à tona na luta negra os mecanismos por eles encontrados que porventura atingiram em cheio nos bolsos dos senhores de escravos que enriqueciam com os trabalho e o comércio de africanos.

A greve negra da Bahia de 1857 estudada pelo historiador João José Reis é bastante ilustrativa nesse sentido. O movimento começou a partir de um decisão da câmara dos deputados em Salvador de regulamentação do trabalho no ganho, composto por escravizados, livre e libertos e responsáveis pela circulação de mercadorias e pessoas na província, além de ganhadores que desempenhavam ofícios. A medida obrigava os ganhadores a usarem uma chapa de metal pendurada no pescoço uma medida que visava o controle e vigilância do trabalho no ganho que gerou uma paralisação de uma semana nos transporte de mercadorias na província. J.J. Reis afirma que seria a primeira greve geral de um setor importante da economia urbana e que o movimento nada tinha a ver com uma motivação fiscal, mas sim política. Os ganhadores se mobilizaram para greve através dos cantos, forma de organização do trabalho de rua onde os ganhadores encontravam os serviços de transporte e também a partir elementos étnicos culturais, com a identidade étnica e significados culturais que não só deram a marca da greve negra em 1857, mas também os ciclo de revoltas que antecederam a greve. Os nagôs estiveram na vanguarda dessa paralisação (4).

O controle do corpo, obrigando os ganhadores a usarem uma placa como os animais de tração, substituindo no pescoço algum elemento cultural ou religioso de determinada etnia por si só já era um insulto e uma medida que os ganhadores não admitiam. Mas, por trás do controle, como o próprio J.J. Reis explica havia também a necessidade de uma maior vigilância daqueles grupos que haviam protagonizado o ciclo de revoltas em Salvador e a revolta dos Malês em 1835 e compunham essa parte fundamental na vida urbana e do sistema escravista que era o transporte de mercadorias. Essas revoltas que ocorreram entre 1807 a 1820 contabilizando mais de trinta na região com grande participação de africanos haussás e nagôs - no último ano houveram ao menos quinze revoltas nas regiões de engenho na Bahia - criou uma “tradição de audácia” entre os escravizados africanos proveniente de uma “insubordinação permanente” destes (5).

Uma “tradição de audácia” e “insubordinação permanente”, que gostaria de radicalizar e estender a outros ganhadores e escravizados. O historiador Flávio Gomes definiu as fugas de escravizados como um “fenômeno hemisférico” (6) remarcando a importância da resistência negra à escravidao. A escravidão negra africana colocava na ordem do dia dos escravizados a possibilidade dos quilombos e as fugas forjarem comunidades de negros e redes de relação entre libertos e escravizados onde subversão da ordem colonial escravista dava o tom daquela resistência. Haviam alguns exemplos que davam conta da capacidade e dimensão na resistência e luta contra o sistema escravista e o “problema” que causavam a ordem vigente, podemos citar o quilombo de Iguaçu e Sarapuí, o “pequeno Palmares” e, é claro, Palmares.

Não há melhor definição que a que Flávio Gomes utiliza para definir esses quilombos, como uma “hidra no recôncavo da Guanabara”:

“Tal como a hidra os quilombolas reaparecem. Pela análise de diversas batalhas - nas quais autoridades planejaram a destruição deles -, veremos muito mais do que quilombolas, míticos heróis resistindo a reescravização; veremos, sim, fugitivos que reconstroem permanentemente suas comunidades e cenários a sua volta, criando espaços de autonomia que redefiniram a escravidão. De maneira nenhuma tão-somente viveram à margem do sistema escravista. Criaram e recriaram espaços no interior dos diversificados mundos da escravidão. Os mundos quilombolas acabariam por modificar e reestruturar profunda e paulatinamente os mundos dos que permaneceram escravos” (7).

Os quilombos impunham limites ao domínio senhorial, não à toa inúmeras expedições policiais aconteceram. Era difícil destruir aquela hidra, as redes de relações e comércio que os quilombolas da região haviam construído um certo nível de hegemonia onde antecipavam as invasões, trocavam mercadorias com sitiantes e escravizados de plantações vizinhas, organizavam um mundo que desafia a ordem senhorial, um verdadeiro “campo negro” na Guanabara. Além disso, a experiência dos quilombos assim como a revolução do Haiti podia penetrar no mundo daqueles que ainda não haviam experimentado a fuga como resposta à exploração do sistema escravista. As senzalas, por assim dizer não eram isoladas do que acontecia nos mocambos e quilombos, segundo o próprio Flávio Gomes “a existência de Palmares representava mais uma expectativa de liberdade para os negros que continuavam escravos” (8).

“Sem justiça, sem paz”: os fios de continuidade da tradição da luta negra

A burguesia sempre quis fazer parecer que esses exemplos ficaram esquecidos no tempo, que de uma maneira ou de outra nem foram tão importantes assim ou até mesmo quer apagar de nossa história, como tenta fazer Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares. Dizemos para eles que os revolucionários não apenas rememoram esses exemplos como também se inspiram na tradição de luta e insubordinação dos negros contra o sistema escravista. A greve de ganhadores em 1857, mas também a dos tipógrafos em 1858 no Rio de Janeiro, dos escravos das fábricas de vela e sabão em 1854 na mesma cidade, os carpinteiros do Arsenal da Marinha de Recife em 1852, entre outras paralisações no Império, deixam claro que a luta negra não só é inseparável da luta contra o sistema capitalistas, mas também que se as burocracias sindicais se negam a incorporar a luta negra contra violência policial e o racismo às demandas dos trabalhadores, optam por se afastar do que tem de melhor de nossa tradição de luta revolucionária.

A subversão da ordem contida nos quilombos sendo um limite ao avanço da própria escravidão nas Américas nos faz pensar que o sistema que nos oprime não pode ser combatido com saídas individuais. Os quilombolas conseguiram impor aos senhores esse limite porque queriam massificar seu exemplo de luta, se conectavam a outros escravizados, a possibilidade da liberdade e da fuga quando massificada poderia ser revolucionária, por isso o medo tão grande das elites senhoriais da “haitianização”. Tampouco poderia lutar ao lado daqueles que nos reprime, os quilombos guardavam relações com comerciantes, taberneiros, escravizados de plantações, escravizados remadores, mas nunca com a polícia que sempre tentaram destruir os quilombos.

Não há como olhar para as revoltas, quilombos e greves e não concluir escravizados e livres por vezes compartilharam aspirações contra o regime escravista, trazendo pros dias de hoje não há como nao deduzir da que o elemento anticapitalista é chave para a luta antirracista. Essas reflexões servem de alerta ao perigo da cooptação da luta negra pela representatividade vazia, como um fim em si mesmo, como se o capitalismo e o racismo estrutural pudessem ser superados com alguns negros no “topo”, em “espaços de poder”, muitas vezes da prórpria burgusia, como é o caso de Chantal Pillet, mulher negra, diretora do Carrefour ou no um punhado de negros no parlamento. É claro que não podemos negar que o racismo estrutural naturalizou ao longo dos séculos que aos negros restam os piores postos de trabalho, condições precárias de moradia, salários mais baixos. Mas qualquer estratégia que desvia a questão negra da luta de classes ou que mude o centro de gravidade da luta negra da classe trabalhadora à representatividade individual, está fadada ao fracasso e em muito se distancia da luta que nossos antepassados travaram contra o sistema escravista.

A luta por justiça a Joao Alberto deve ser massificada pelos sindicatos e entidadades estudantis, do movimento negro e de favelas. Devemos nos inspirar nesses exemplos, resgatar a tradição de rebeldia e insubordinação dos negros escravizados e assim como o pai dele pediu impor através da luta que a vida dele e de tantos outros não foi em vão e que vidas negras importam. Se a nossa luta pela liberdade começou com o primeiro africano agrilhoado para ser vendido no mercado de escravizados, fruto da sanha capitalista, a igualdade que o pai de João Alberto tanto deseja, só pode existir quando acabamos com o último grilhão que ainda nos prende, o próprio capitalismo.

Referências

Robert Slenes, “Malungu ngoma vem: África coberta e descoberta no Brasil” 1992 p.53.
Ibidem, p.49.
Ver capítulo 2 Marcelo Badaró de Mattos, “Escravizados e livres: experiências comuns na formação da classe trabalhadora carioca”.
Ver capítulo 3, João José Reis, “Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia”.
João José Reis “Rebeliões escravas: a história do levante dos Malês em 1835”, 2018, p.393.
Flávio dos Santos Gomes, “Quilombos e Mocambos: uma historia do campesinato negro no Brasil”, 2015, p.7.
Flávio dos Santos Gomes, “Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX”, 2006, p.26.
Flávio dos Santos Gomes, “Palmares: escravidao e liberdade no Atlântico Sul”, 2020, p.78.

 
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