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Sábado 28 de Noviembre de 2020
02:28 hs.

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PT se divide sobre atos antifascistas, mas segue unido por frente com a direita apoiada pela CUT
Ítalo Garcia

Nessa semana, importantes figuras do PT se dividiram frente às manifestações anti-fascistas e anti-racistas convocadas para esse domingo, 7. Gleisi Hoffman, junto à lideranças do PT no Congresso e a CUT, encabeçaram uma resolução do partido apoiando as manifestações, divergindo de gente como Jaques Wagner, vice-lider do PT no Senado, e o governador do Ceará, Camilo Santana. Uma diferenciação que, no entanto, não toca aquilo que é fundamental para ambas as tendências: batalhar por uma recomposição eleitoral do partido cujo centro esteja em forjar alianças com setores da direita do golpe institucional, desarticulando a força dos trabalhadores através da CUT.

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As manifestações anti-fascistas e anti-racistas, que estão reunindo milhares em diversas capitais de todo o país na última semana e no dia de hoje, colocam de volta no tabuleiro político brasileiro o potencial explosivo das lutas sociais no Brasil.
Após o brutal assassinato de George Floyd, sufocado pelo joelho de um policial, explodiram manifestações por todo o território da fortaleza capitalista e imperialista contra a violência racista da polícia, em sua maioria encabeçada por jovens negros e também de brancos. Uma revolta que se espalhou pelo mundo, chegou à Berlim, Londres, e agora chega no Brasil confluindo com o acumulado ódio ao bolsonarismo.
Nessa semana, vimos milhares nas ruas de São Paulo, Porto Alegre, Manaus, e também em São Gonçalo (RJ) repudiando as mortes pela polícia de Witzel de jovens negros como João Pedro, ou em Recife um rechaço ao escândalo da morte do menino Miguel na casa da patroa de sua mãe.

Enquanto Trump se escondia no seu bunker da Casa Branca e taxava os antifascistas de terroristas, o seu capacho Bolsonaro, com apoio de Mourão dizendo que os manifestantes tem que ser tratados “na vara”, também ameaça criminalizar os protestos e prometeu o uso da Força Nacional. Uma nojenta ameaça repressiva, mas que expressa o mesmo medo quando pediu que nesse domingo fossem cancelados os atos de seus apoiadores. Agora que as ruas recebem os ventos quentes da fúria incendiária da luta antirracista nos EUA, Bolsonaro teme que o país veja o enfraquecimento do seu rebanho.

Bolsonaro teme que as consequências causadas pelo seu negacionismo genocida possam despertar a enorme força dos negros e dos trabalhadores no país explosões sociais no país e abalar a tentativa de acordo em favor dos grandes empresários com os seus adversários políticos no STF, nos governos estaduais em prol de uma abertura econômica e maiores ataques aos trabalhadores. Chega ao ponto de tenta ocultar os dados oficiais sobre as mortes e contaminações do coronavírus, que até o dia 8 de maio escondiam distinções de raça nesses números.

Mas não é só Bolsonaro que parece estar preocupado com o descontrole social em termos de pandemia, desemprego e fomes crescentes. É o que está por trás também das diferenças que se expressaram essa semana dentro do PT e de setores da esquerda, como PSOL.

Jaques Wagner, vice-lider do PT no Senado e sócio-político do governador baiano, Rui Costa, assinando junto com senadores da centro-direita, herdeiros do coronelismo nos estados do Nordeste, como Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Eliziane Gama (Cidadania-MA), Weverton Rocha (PDT-MA), Veneziano Vital do Rêgo (PSB-PB) e Otto Alencar (PSD-BA), em uma carta conjunta pedindo o adiamento dos protestos.

“[...] Observando a escalada autoritária do governo federal, devemos preservar a vida e segurança dos brasileiros, não dando ao governo aquilo que ele exatamente deseja, o ambiente para atitudes arbitrárias”, justifica o documento.
Contrariando o posicionamento de Jaques Wagner e de Camilo Santana, a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, soltou nota, assinada também pelos líderes do PT na Câmara, Enio Verri (PR) e do Senado, Rogério Carvalho (PB), em apoio às manifestações. Contudo, garantia que o PT não convocaria sequer a própria militância às manifestações e que “os militantes democráticos que participam destes atos devem também resistir às provocações e isolar os infiltrados, que já vêm agindo para tentar desvirtuar o caráter das manifestações e dar pretexto à repressão e ao discurso de fechamento do regime.”

Com isso faz uma generalização para condenar qualquer setor de manifestantes que se radicalizar como responsáveis pela repressão policial e o autoritarismo de Bolsonaro. Corrobora com a justificativa reacionária de Jaques Wagner e dos demais líderes da oposição do Senado que a radicalização das ruas é “pretexto para autoritarismo”.

O governador do PT no Ceará, Camilo Santana, declarou no sábado, 5, ser “absolutamente contra” os atos antifascistas, sob a justificativa do momento da pandemia. Como aprofundamos nesse outro texto, é ridículo Camilo Santana responsabilizar os manifestantes pela pandemia, enquanto manteve a indústria aberta no estado mesmo durante o período do lockdown, não proibiu demissões e não deu opção para esses trabalhadores, assim como os de entrega por aplicativo, e outros serviços não essenciais a seguirem se expondo ao vírus. Não garantiu testes massivos, nem mesmo EPI para os 17% de trabalhadores da saúde contaminados e os leitos de UTI já estão colapsando, sendo os bairros mais pobres e os negros sendo as principais vítimas da doença no seu estado.

Nos atos de hoje, garantiu helicópteros e um enorme repressivo para impedir que os manifestantes se reunissem na Praça Portugal, e ainda prendeu 12 pessoas, dentre elas um militante do PSOL que se dirigiam ao ato, cumprindo um brilhante papel para Bolsonaro e o fortalecimento do aparato policial no Ceará.

É repugnante até onde está disposto a ir o PT para arrefecer o ódio ao bolsonarismo pela pandemia e pelo seu avanço autoritário, dizendo que não é hora de fortalecer as nossas lutas, que os negros e a classe trabalhadora guarde no bolso o ódio contra as mortes pelas balas da polícia, contra o desemprego e os cortes de salário, e pelas mortes de descaso pelo COVID-19.

Por sua vez, Guilherme Boulos, do PSOL e da Frente Povo Sem Medo, defendeu as manifestações de rua como via de combater o autoritarismo, garantindo brigadas de saúde para garantir as medidas de biossegurança. Ao mesmo tempo, disse preocupar-se “[...] com o objetivo pacífico. Para nós, não interessa o conflito. Só para Bolsonaro interessa uma escalada de violência", deslegitimando qualquer setor radicalizado, dividindo os manifestantes.

Essa a política do PT, apoiada pelas principais figuras do PSOL, não vem de graça. Por um lado, Haddad (PT), Flávio Dino (PCdoB), Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, do PSOL. assinaram manifestos essa semana como o “Estamos Juntos”, ou o “Somos 70%”, que atrai desde setores da direita como FHC, Luciano Huck e outras figuras da velha direta.

Querem vender a ideia que uma “unidade ampla”, mas que exclui os trabalhadores e os negros, ou seja, a real maior parte da população e dos que mais sofrem com a pandemia, para atrair os reacionários do Congresso, e do STF para tirar Bolsonaro através de um “acordão” com os grandes empresários e banqueiros que mandam nesse país. Isso por qualquer via, seja por um impeachment, que coloque Mourão na presidência, seja preparando uma aliança eleitoral para as eleições municipais e de 2022, ou seja, saídas por dentro da “ordem” desse regime pós-golpe institucional, que tem cada vez mais os militares e a alta cúpula do STF, poderes eleitos por ninguém, disputando para ver quem tem o real poder sobre essa democracia de ricos.

Muitos setores questionaram porque Lula não assinou esse texto, dizendo demagogicamente que "tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora". "Tem muita gente de bem que assinou. E tem muita gente que é responsável pelo Bolsonaro. O PT tem que discutir com muita profundidade, para a gente não entrar numa coisa em que outra vez a elite sai por cima da carne seca, e o povo trabalhador não sai na fotografia", criticou ainda, o ex-presidente.

É inacreditável que Lula, que abriu espaço para os bancos lucrarem como nunca no seu governo, para o fortalecimento inédito do agronegócio, da polícia e do exército com a criação das UPPs e das invasões de tropas no Haiti, e de tantos setores da “elite” que ganharam incomparavelmente mais no seu governo do que o resto da população, venha agora tentar convencer que agora os trabalhadores tem que “sair na fotografia”. Apenas não busca se comprometer ainda com tal frente, preocupado unicamente com quais acordos poderá atingir para a recomposição eleitoral do PT nas próximas eleições municipais.

Esse movimento por uma Frente Ampla, que enfraquece a luta contra o autoritarismo de Bolsonaro, dos militares, colocando o ódio dos trabalhadores e dos negros no colo dos atores autoritários desse regime escravista como o STF, foi acompanhado pela secretária-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Carmen Foro. Ela deu uma declaração apoiando as manifestações, ao mesmo tempo em que declarou que a maior central do país não convocou os trabalhadores a se somarem às manifestações por conta da pandemia do coronavírus. Gilson Rodrigues, uma das lideranças da comunidade da Paraisópolis, e pré-candidato do PT à Vereador do município de Pinheiro Machado (SP), declarou que a comunidade, que realizou importantes manifestações denunciando a situação da pandemia nas favelas de São Paulo, também não comporia os atos por conta da pandemia.

"Nas periferias, a situação da pandemia é mais grave e estão morrendo pessoas. Apoiamos iniciativas populares de organização democrática e pacífica, mas nesse momento estamos muito focados em ajudar a população que está desempregada, passando fome."

Com isso, as centrais e lideranças petistas nas favelas, mostram que não acreditam na força da unificação da luta dos trabalhadores, dos negros, das mulheres, e outros movimentos sociais, dos bairros, tomando para si o ódio antirracista e antifascista que tomou as ruas do Brasil e do Mundo, em dar um basta nas mortes pelas balas da polícia, pela fome e desemprego e pelo COVID-19.

Exemplo disso é que a CUT, assim como a CTB controlada pelo PCdoB, estão confortáveis em suas quarentenas dando de bandeja pro Bolsonaro a aplicação das suas MPs da Morte (927 e 936) que aplicam a reforma trabalhista, com suspensões de contrato, redução de jornada, banco de horas e contratos de temporários nos locais de trabalho dos seus sindicatos. Embelezam essas medidas como “prevenção ao desemprego”, assim como diz Bolsonaro e as centrais sindicais patronais como Força Sindical. Enquanto isso, viram a cara para os trabalhadores de entrega por aplicativo, do telemarketing e terceirizados e tantos outros de serviços não essenciais obrigados a trabalhar na pandemia e que começam a se revoltar, como vimos no ato de ontem dos entregadores na Paulista.

Enquanto isso, os governadores do PT e PCdoB nos estados, como já citamos com Camilo Santana, mas também Flávio Dino (PCdoB-MA), ou Fátima Bezerra (PT-RN), conduzem seus estados para uma abertura econômica conciliada com Bolsonaro, enquanto seus hospitais colapsam, e implementam medidas repressivas como lockdown, gastando milhões com equipamento de repressão pra polícia, enquanto mantém setores não essenciais e da indústria trabalhando para os lucros capitalistas e o desemprego crescendo.

Portanto, essas centrais sindicais que dizem representar os trabalhadores, cumprem um papel, por um lado, auxiliar à política tanto dos governadores do PT e PCdoB de garantir os interesses capitalistas nos seus estados e a implementação da reforma trabalhista de Bolsonaro, por outro; de garantidor da passividade da luta de classes para fortalecer as frentes pelo impeachment e eleitoreiras com a direita.

Nós do Esquerda Diário impulsionamos ao máximo os atos antirracistas e antifascistas aqui no Brasil, defendendo que fossem organizadas todas as medidas de prevenção sanitária necessárias, mas sabemos que para dar um basta nas mortes pelas balas da polícia, pelo lucro capitalista e pelo COVID-19, será necessário dar um passo além e organizar em cada local de trabalho uma frente única de todos os trabalhadores, dos movimentos sociais e dos bairros, que é o que realmente bota medo nesses racistas e fascistas.

Só assim será possível derrotar Bolsonaro, mas também Mourão e os militares, sem nenhuma confiança no STF, no Congresso, ou qualquer aliança com a direita inimiga dos trabalhadores, e avançar contra a herança do golpe institucional nesse regime escravista, que está a serviço de aumentar a exploração dos trabalhadores e em especial, dos trabalhadores negros, da mulheres nesse país. Chamamos setores do PSOL e do PSTU, que defendem o Fora Bolsonaro e Mourão, que rompam com saídas como impeachment e eleições gerais, que fortalecem saídas como a Frente Ampla e construam com nós do MRT a batalha por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana.

 
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