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Miércoles 12 de Agosto de 2020
18:20 hs.

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PETRÓLEO
O colapso da indústria do petróleo, o primeiro setor capitalista a naufragar em 2020
Leandro Lanfredi
São Paulo | @leandrolanfrdi

O colapso na cotação do petróleo é um sinal da imensa crise que desafia um grande nicho de acumulação no capitalismo mundial. Quais as consequências econômicas, sociais, políticas desses imensos eventos?

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A grave crise econômica chacoalha violentamente um grande nicho de acumulação capitalista: a indústria de petróleo. Enquanto o turismo, o transporte aéreo, a indústria automobilística estão todas elas se beneficiando de vultuosas ajudas de cada governo capitalista, e estão em pausa, à espera do eventual retorno da circulação de pessoas e mercadorias, para aí medir qual empresário viverá e qual entrará em falência; na indústria do petróleo a crise se manifesta hoje mesmo. Suas consequências econômicas, sociais, políticas são imensas, vamos aqui traçar algumas primeiras reflexões.

Colapso histórico nas cotações de petróleo

Dias 20 e 21 de abril de 2020 vimos uma oscilação violenta nas cotações de contratos futuros dos dois maiores “benchmarks”, o West Texas Intermediate que serve de medição de valor para todos contratos nos EUA colapsou. Esse preço de referência chegou a apresentar valores negativos na segunda-feira, ou seja, o vendedor teria que pagar para alguém receber esse petróleo no mês de maio, os estoques de petróleo e seus derivados transbordam em cada país, e particularmente nos EUA que tem uma mega-carga saudita na sua costa.

O autoritário reino aumentou sua exportação aos EUA de 360mil barris/dia em fevereiro para 830mil/dia em março e depois embarcou 18.8milhões de barris em abril, batendo recordes de embarque de petróleo, isso em meio às quarentenas e na véspera dos acordos para redução de produção da OPEP e G-20.

Terminada a catástrofe dos contratos de maio, começaram ontem (21) as negociações dos contratos de junho, a cotação que encerrou o dia foi de US$10,01 por barril, o menor valor em décadas. Ou se preferirmos uma queda de mais de 80% desde sexta-feira, dia 17, quando estava em 18 dólares o barril.

O Brent, que serve de equivalente de valor para o resto do globo, não entrou no terreno negativo de sua contraparte americana, mas “só” caiu de 28 dólares o barril no dia 17, para US$ 19,33 nesta última terça-feira à noite, uma queda de “somente” 31% em dois dias.

A tabela abaixo, com porcentagens de variação em 5 anos, retirada do site financeiro Bloomberg, ilustra o nível histórico do colapso dos últimos dias, o pior resultado na extrema-direita do gráfico era o de sexta-feira, antes dos mergulhos abissais de segunda e terça...


(Na linha preta temos o Brent, na amarela o WTI).

O que motiva essas violentas quedas?

Há um excesso de oferta e uma violenta redução do consumo. Com toda irracionalidade capitalista que concentrou investimentos nesse ramo extremamente rentável e aumentou a produção e agora não encontra vazão. Há uma capacidade de produzir que não encontra comprador para realizar-se.

A Agência Internacional de Energia (AIE), digamos uma equivalente de “energia” da agora famosa OMS, publicou um estudo assustador para todos acionistas das gigantes do petróleo. Segundo a agência, a demanda de petróleo em abril deste ano está 29milhões de barris/dia abaixo da demanda do mesmo mês do ano passado, para se ter noção da magnitude, isso é equivalente ao somatório da produção dos EUA e da Arábia Saudita, ou, se quisermos mais de 9X a produção brasileira, eis quanto se reduziu o consumo mundial.

Para o segundo quadrimestre (de abril a junho) a agência prevê uma queda na demanda de 23,1 milhões barris/dia, e aos poucos se a pandemia for controlada e as economias se recuperarem a agência prevê que em dezembro a demanda mundial estará ainda 2,7milhões de barris/dia abaixo de dezembro de 2019.

Essa violenta contração na demanda encontrou um irracional excesso de oferta. Antes do acordo de redução da produção da OPEP e G-20, a Arábia Saudita aumentou (!) sua produção, aumentou a contratação de navios de grande porte para poder estocar mais petróleo, e muitos outros atores aumentaram sua produção. Cada país e empresa correu para estocar petróleo, vender o máximo que pudesse prevendo a iminente catástrofe de sobreprodução. Até atores secundários como a Petrobras adotaram, em sua escala, a mesma estratégia saudita, aumentando a produção nos campos do pré-sal, e apresentando vendas recordes de petróleo para a China (em valor e mais ainda em volume). O resultado da corrida por lucros e estoques iniciada em fevereiro foi acelerar a crise de sobreprodução de hoje.
Para agravar o quadro, o acordo de redução de produção da OPEP e G-20 só entra em vigor em 01/05, até lá, irracionalmente, cada ator está produzindo como quiser. A AIE estima que houve um irracional aumento de produção dos países signatários em 1milhão de barris/dia durante o caótico mês de abril, o que faz o acordo de redução de produção de 9,7milhões de barris precisar ser aumentado para 10,7 milhões. Mas essa gigantesca redução não é nem metade do que precisa ser reduzido para que a oferta encontre a demanda deprimida.

Os preços seguirão caindo até que empresas entrem em falência e pela via do mercado encontre-se a estabilidade.

Destruição de forças produtivas

E como se chegará na estabilidade? As custas de quem? É um pouco cedo para prever. Se as forças “cegas” do mercado operarem livremente, teríamos a falência daquelas empresas e estados com maior custo de produção, como as areias betuminosas canadenses, o shale americano, o petróleo pesado venezuelano e de parte do Brasil, entre outros perdedores. Mas o que menos existe na indústria do petróleo é a livre mão do mercado, sendo quase a mercadoria por excelência que se mistura com monopólios, com ações de estados nacionais, com guerras imperialistas e a geopolítica em geral.

O mercado de futuros aposta na quebra americana e canadense ao mostrar uma cotação em alta do preço do gás natural nos EUA ao mesmo tempo que cai o preço da gasolina (em cerca de 10%) e o petróleo cru despenca. Sem o shale yankee e o Canadá, o mercado mundial de petróleo voltaria uma década atrás favorecendo a Rússia, Emirados Árabes e outros grandes produtores de gás.

(O gráfico acima ilustra em linha preta o WTI, em amarelo a gasolina e em azul o gás natural nos EUA no último mês)

Dificilmente a redução de produção nesses meses de contração do consumo em dezenas de milhões de barris por dia possa ser temporária. Forças produtivas serão destruídas.

As areias canadenses exigem uma pressão e vapor permanentemente, mesmo para parar o poço é necessário manter seus custos operacionais normais, se parar a injeção de vapor o poço solidifica torna inviável sua recuperação. O shale americano por sua vez poderia ser parado, se for feita uma cara intervenção nos poços (com quais recursos?) mas sua produtividade no eventual retorno será menor que a atual, o mesmo vale para os campos que a Petrobras está hibernando será proibitivo comercialmente retomá-los.

Se, por um lado, a Petrobras tem campos em que o custo da extração compete com o da Arábia Saudita e outros dos mais competitivos exportadores do mundo, por outro lado, o breakeven da empresa como um todo (preço para que a receita de venda se iguale ao custo de extração do barril) é cerca US$ 21,00, muito próximo da atual cotação do Brent.

Essa destruição de forças produtivas também será de empregos se operarem as forças dos governos capitalistas e dos monopólios. A AIE estima que serão destruídos 50 milhões de empregos na indústria de petróleo. Essas demissões, particularmente atingiriam os EUA onde há 10 milhões de empregos no setor da indústria de petróleo. Deve tirar o sono de Trump e outros setores da burguesia americana o potencial de ação desse setor estratégico da economia capitalista se ele se contaminar com as lutas que tem sido protagonizadas por outros trabalhadores daquele país na “primeira linha” do combate à pandemia, como estamos vendo nos trabalhadores da saúde e na greve nacional da Amazon. Oferece mais um receio para Trump o fato desses trabalhadores se concentrarem em estados de maioria eleitoral republicana, mas a perda de apoio nos mesmo poderia oferecer também desafios políticos.

Não à toa Trump anuncia um pacote de recursos para os produtores americanos de shale, anuncia um aumento da reserva estratégica de seu país em 75milhões de barris (o que dá conta nem de 3 dias do excesso de produção mundial) e estuda até mesmo barrar a entrada de petróleo saudita em meio a um avanço de seu discurso xenofóbico que agora significou a reacionária proibição de toda imigração ao gigante imperialista.

As medidas de Trump, do mais poderoso país imperialista do mundo, não dão conta do nível dessa crise de superprodução. O que pode fazer para manter os preços de petróleo? Comprar gás e queimá-lo como fazia a burguesia paulista com o café em 1929?

Não à toa há grande preocupação com a falência de empresas. O presidente da associação patronal de produtores da Bacia Perminiana (o coração do shale americano, no Texas e Novo México) declarou ao New York Times “estou simplesmente vivendo um pesadelo”. A indústria do petróleo nos EUA emprega 10milhões de pessoas entre empregos diretos e indiretos, e as demissões começam a alcançar violentamente esse setor ainda poupado do salto no desemprego nos EUA. Na mesma reportagem um “pequeno” produtor dono de 1211 poços no Texas reclama que terá que parar totalmente sua produção e conclui “Abril será terrível mas maio será simplesmente impossível”.

O mais famoso jornal do mundo preocupa-se com a estimativa feita pela agência de risco Moody’s que fala que os produtores americanos de petróleo têm débitos com vencimentos nos próximos 3 anos no valor de US$86 bilhões, já as empresas de oleoduto e gasodutos tem débitos de US$123 bilhões. Serão resgatados ou entrarão em falência?

Uma perda de empregos dessa magnitude, de 50 milhões de empregos mundialmente, em meio a uma situação mundial convulsionada pela pandemia, pela violenta recessão, promete acrescentar dificuldades políticas e da luta de classes não só nos EUA.

Essa é a preocupação dita em Wall Street, mas do outro lado do atlântico as luzes de alerta também se acendem. O ministro das finanças francesas, Bruno Le Marie, foi ao senado gaulês nesta terça declarar que essa queda das cotações de petróleo coloca a economia global em risco. Se esta crise será desafiadora para a Arábia Saudita, para a Shell, para a BP, mais ainda deve ser para atores menores como a francesa Total, a espanhola Repsol ou a brasileira Petrobras, que tem adotado, como todas as outras, fortes medidas para diminuir empregos e salários (dos petroleiros, enquanto aumenta o teto de bônus dos executivos), mas continua produzindo em seus campos mais rentáveis e aumentando seus estoques, motivada pela mesma irracionalidade capitalista que rege o setor globalmente, enquanto o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) pressiona por flexibilização das medidas de segurança do trabalho e ambiental para continuar expandindo a oferta global!

Riscos aumentados para países, estados e para os trabalhadores

No discurso no senado francês Bruno Le Marie se preocupou não somente com a economia global mas falou de uma preocupação cara ao imperialismo gaulês, suas possessões e interesses africanos. Ele remarcou como há muitos países africanos dependentes da exportação de petróleo e que estas cotações deprimirão suas receitas. E a estabilidade, o controle da luta de classes, de suas antigas possessões coloniais é uma preocupação relevante para um país que volta e meia envia tropas para o Mali e outras antigas colônias.

O desafio a arrecadação dos estados nacionais se fará presente não somente na África mas devem aumentar os desafios na Venezuela e no Irã, países que ainda por cima sofrem embargos americanos.

Essa queda de arrecadação também impactará o Brasil que vinha tendo o petróleo como seu principal produto de exportação nesse ano de 2020. Esse cenário acrescenta nuvens carregadas no horizonte do Rio de Janeiro e diversos municípios do país.

O Sindicato dos Petroleiros Unificado de São Paulo publicou um muito embasado mas super-conservador estudo que leva em consideração um volume estável da exportações com um preço de US$ 33 dólares como média do ano e com base nesses números impraticáveis no volume e no preço, concluiu que haveria uma queda na arrecadação federal com royalties de R$15,7 bilhões, no Rio de Janeiro a queda seria de R$11,1 bilhões. Pode o Rio de Janeiro já em meio a iminente colapso da saúde pública ter tamanha perda na arrecadação? Quais seriam as consequências em cortes de salários, empregos e direitos sociais se tamanha catástrofe for conduzida conforme os ditames de Witzel, da Firjan e da administração entreguista da Petrobras? Witzel não perdeu tempo e já anunciou a privatização da Universidade Estadual, a UERJ, da empresa de água e esgoto, a CEDAE e diversas outras autarquias e empresas.

A crise do petróleo como primeira e clara crise de superprodução nascente da depressão do consumo que estamos vendo em 2020 anuncia novas e aumentadas crises capitalistas nos próximos meses, com direito a irrupções de nacionalismos imperialistas e diversos e ainda imprevisíveis impactos geopolíticos, o que desenvolveremos em outros artigos. Para salvar lucros os capitalistas não pouparam vidas em meio à COVID-19, o farão ainda menos quando suas rendas do petróleo, das ações, e outros investimentos estiverem mais fortemente desafiados.

Os desenvolvimentos futuros dessa catástrofe em desenvolvimento dependerá de diversos fatores, um deles sem sombra de dúvidas é a ação dos diferentes governos. Mas também um fator ainda insondável é a resposta dos trabalhadores. Aceitarão a destruição de empregos que o “mercado” exige? Aceitarão tamanha catástrofe nas receitas dos países, estados e municípios, ou poderão desenvolver uma resposta que coloque em suas mãos riquezas estratégicas como essas do petróleo?

Sob administração democrática dos trabalhadores gigantes como a Petrobras, se tivessem todos recursos do petróleo em suas mãos, em uma empresa 100% estatal, poderiam ser traçados planos racionais de produção que levassem em conta a preservação das riquezas nacionais, aumentando estoques estratégicos, diversificando a matriz energética e sempre garantindo a segurança operacional e ambiental do país e o uso dos recursos não para enriquecer acionistas na Bovespa e Wall Street e a corrupção, mas sim atender necessidades prementes do povo brasileiro como a saúde pública.

 
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