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Viernes 5 de Junio de 2020
19:35 hs.

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Coronavírus na África: para OMS, a solução é “se preparar para o pior”
Redação

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio de seu diretor geral Tedros Adhanom, declarou que a África “precisa despertar” diante da ameaça do corona vírus e que o continente “precisa se preparar para o pior”.

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A declaração sobre a África "ter que despertar" soa como se sair de todas as dificuldades, sobretudo econômicas, enfrentadas pelos países africanos há tempos, pudessem ser ultrapassadas magicamente pela força de vontade e que essa seria a solução para o enfrentamento da pandemia. Além disso, colocam de "se preparar para o pior" como uma sugestão de se conformar, pois não há o que fazer diante dos problemas que o continente enfrentará durante a pandemia. Mas a perspectiva colocada por Tedros não condiz com as reais possibilidades para o povo africano.

A situação da população africana não decorre de um despertar que não chega, como sugeriu Tedros, mas de uma espoliação histórica que enriqueceu as principais nações imperialistas do mundo. Não bastasse a invasão portuguesa que se iniciou no século XV e sequestrou centenas de milhares de africanos para trabalharem como escravos na América, na segunda metade do século XIX, o violento acordo conhecido como Partilha da África, no qual o grupo dos principais países imperialistas europeus reivindicaram seu direito de exploração das terras e do povo africano, repartiu entre estes países o território do continente em colônias de exploração.
A divisão territorial que resultou da Partilha da África, ignorou completamente a lógica territorial que correspondia aos diferentes povos africanos que ali viviam, passando a agrupar povos rivais e separando um mesmo povo em colônias diferentes , que depois dariam origem aos atuais países.
Essa divisão arbitrária deu início a uma série de conflitos graves no continente.

Em muitos países da África começaram a eclodir guerras civis, algumas que persistem até a atualidade. Os governos autoritários surgiram como resposta aos conflitos e revoltas à pobreza, apoiados pelos países imperialistas em busca do controle dos recursos naturais na região. Esse processo levou o continente à situação atual de extrema pobreza na qual vive grande parte da população.

Os dados socioeconômicos do continente africano revelam a dificuldade de enfrentar uma pandemia como a do corona vírus. O PIB per capta, índice que mede a riqueza disponível por pessoa, foi em média de 2.718 dólares no ano de 2018 para o continente africano. Em termos de comparação, o PIB per capta da América no mesmo período foi de 12.433 dólares e o do Brasil atingiu 11.026 dólares. Na África Subsaariana, apenas 24% da população tem acesso a água potável e 15% tem acesso a água e sabão para lavar as mãos segundo a Unicef. Além disso, mais de 32 milhões de pessoas somente nessa região da África enfrentam a subnutrição.
Até o dia 22 desse mês, já eram contabilizados mais de 1.200 casos em mais de 42 países da África.

É um consenso entre os especialistas que a pandemia pode ser uma bomba relógio no continente porque, apesar de possuir uma baixa população de idosos, faixa etária que tem se demonstrado mais sujeita a óbito, as condições socioeconômicas colocam a população em situação de fragilidade para combater a contaminação.

A situação dos povos africanos que vivem sob péssimas condições socioeconômicas, consequência dos séculos de espoliação pelos países imperialistas, é fundamental para pensarmos: seria falta de vontade dos africanos em combater a pandemia e portanto estariam fadados a se preparar para o pior?

A OMS é um braço da Organização das Nações Unidas (ONU), uma organização que nasce no coração do imperialismo, os Estados Unidos, e em seu discurso prega o esforço pela paz entre os países desde seu surgimento, mas na verdade se limita a informes sobre as mazelas capitalistas sem propor uma solução radical para elas, o que passaria diretamente por questionar as ações imperialistas. Prova da ação parcial da ONU é o seu apoio a todas as guerras imperialistas , como no caso do apoio ao Estado de Israel que favorece a invasão e o genocídio na Palestina.

O atual Diretor geral da OMS Tedros Adhanom, apesar de ser africano da Etiópia, despreza todo o processo histórico que leva seu continente à situação atual e se apoia completamente nas ações da ONU e OMS, sem questionar minimamente a situação estrutural à qual a África está submetida num mundo capitalista, inclusive chegando a reivindicar e agradecer em sua conta no Twitter ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pelo papel que cumpre em todos os países em desenvolvimento já merecia o rechaço de Tedros, mas ainda mais por ter perpetuado a ocupação estadunidense na África (a AFRICOM) iniciada ainda no governo Bush, e que como sempre, se tratando de ocupações americanas, se disfarça de pacificadora para controlar recursos naturais, arrasando as populações locais, como foi com a Minustah no Haiti.

Então, para que a África consiga sair dessa condição desfavorável e combater não só a pandemia do coronavírus, mas todas as outras mazelas que assolam o continente, não é necessário um mágico despertar como propõe Tedros, mas sim um combate, em escala internacional, contra as forças imperialistas, e em escala regional aos regimes autoritários que permitem que se perpetuem as enormes desigualdades sociais, para retomar o controle popular do continente sobre seus recursos naturais e para que eles sejam revertidos em benefícios para a população africana e não mais para alimentar a ganância imperialista.

E se o imperialismo é o responsável dos desafios enfrentados pelo povo africano, tampouco a reação diante de uma pandemia que pode arrasar o continente causando um enorme número de mortos deve ser de se conformar e se preparar para o pior, mas sim de que a população tome em suas mãos o controle do sistema de saúde e de toda a economia de cada país, incluindo a taxação das grandes fortunas, como as dos sheiks, para garantir que toda a renda que pode ser gerada por cada Estado esteja a serviço de garantir atendimento de saúde de qualidade durante a pandemia e depois dela, para que nunca mais os africanos venham a sofrer com doenças que já foram controladas ou até erradicadas na maioria dos países.

 
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