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Domingo 5 de Abril de 2020
09:03 hs.

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FRANÇA EM GREVE
24 de janeiro: por um dia de greve geral política contra a lei Macron-Berger
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Frente à dupla Macron-Berger, a base do movimento se recusa a permitir que a CFDT negocie o peso que recairá sobre suas costas. De um lado, cresce a desconfiança em Macron e seu partido. De outro, se encadeiam as ações de denúncia à política de Laurent Berger. Uma atmosfera “destituinte”, que traz de novo à ordem do dia o espírito dos Coletes Amarelos e que pode confluir com a volta ao primeiro plano da greve contínua como arma central para construir um acúmulo de forças.

No dia 24 de janeiro, dia da apresentação da lei no Conselho de Ministros, o setor privado deve entrar massivamente em cena, para um dia de greve geral política, a melhor resposta que se pode dar a Macron-Berger.

Uma radicalização do movimento que o governo falha em impedir

Macron não terá paz. Sua vontade é deixar para trás os traumas do passado, as memórias do tempo dos Coletes Amarelos, porém, decididamente, os de baixo não o querem.

Foi uma verdadeira imagem de imaturidade, de fragilidade, de raiva impotente ver Macron ser evacuado do Teatro dos Bouffes Du Nord, e isto causado por uma centena, somente, de manifestantes! Ele, que queria, precisamente, mostrar que não tinha mais medo de nada, que não cederia mais ao “terror”! Este episódio é um chamado à ordem por parte do governo. A determinação, sozinha, tem seus limites, e os manifestantes estarão lá para lembrá-lo disto.

Na quinta feira 16, a estratégia do governo era clara: fazer da manifestação de 500.000 pessoas a batalha final contra o movimento. Apesar da determinação dos núcleos RATP-SNCF, da presença dos trabalhadores de refinarias, da confirmação da greve dos professores, do potencial aberto na juventude, Macron quis determinar o fim da mobilização.

Porém, as coisas – em uma situação de crise avançada do capitalismo francês e do governo do [primeiro ministro] Philippe – não são tão simples. Com um ano de Coletes Amarelos nas costas, os manifestantes não dão trégua a Macron. As ações ocorrem e se multiplicam onde quer que o presidente passe. Versalhes, Dunquerque, teatro dos Bouffes du Nord, o rechaço a Macron encontra um lugar importante na mobilização e ultrapassa o "teto de vidro" das reivindicações centradas exclusivamente na aposentadoria. Gritos de “Macron démission” [algo como “Fora Macron”] retomam vigor, e as ações de desestabilização do presidente se desenvolvem.

Basta observar, no espaço de 24 horas, o incrível endurecimento do tom dos grevistas. Uma manifestação que vai bater nas portas do palácio de Luís XVI e onde várias centenas de guardas são necessários para impedir um remake de 1789. Os grevistas encapuzados da CGT que invadiram a cede da CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho) para cortar sua eletricidade e lançar uma nova advertência ao bode expiatório do movimento, um comunicado da CGT Químicos chama a mobilização contra a “ditadura” do governo.

São estes os sintomas que vêm assombrar progressivamente o poder, como que para lembra-lo que não pode “fechar o livro” sem ter lido o final da história. Por força da nostalgia de sua época “jupiteriana”, Macron fez despertar os Coletes Amarelos que estavam adormecidos em cada um dos grevistas da base, cansados do ritmo conciliatório imposto pelos sindicatos ao movimento.

Tentando matar ainda no ninho os elementos do espírito dos Coletes Amarelos no movimento de greve, o governo respondeu-lhe com uma repressão muito violenta. O Ato 62 dos Coletes Amarelos terminou em sangue. O jornalista Taha Bouafs foi preso por fazer um tweet. Paralelamente, uma ofensiva sem precedentes da classe política contra a ação na cede da CFDT, tudo para evitar que as políticas de desafio às direções sindicais pela base não se generalizem. Mais uma vez, sem sucesso. Embora a maioria das centrais sindicais se opuseram à ação da coordenação da RATP-SNCF, várias seções sindicais denunciam as declarações de Berger e da CGT, ao mesmo tempo, a CGT Energia realiza um golpe de mestre cortando sua energia, deixando sem voz tanto os comentaristas de TV e como o próprio Martinez [secretário geral da CGT].

Nem Macron, nem Berger, é a base que decide!

A situação é, portanto, muito difícil para o governo. Enquanto faz frente aos fenômenos de endurecimento da greve pela base, pode também ter que lidar com a possibilidade de que a greve se estenda finalmente ao setor privado. Ações contra a ditadura patronal, como a ocupação da fábrica da Luxfer e o descarte em massa dos uniformes, se desenvolvem em fábricas pelo país.

As respostas da Intersindical são muito insificientes, como evidenciado pela total ausência de construção dinâmica para os dias 22, 23 e 24 de janeiro. Philippe Martinez parece mais preocupado em “condenar toda e qualquer violência” (contra a ação dos grevistas da coordenação RATP-SNCF que ele se recusa a nomear), do que na construção de um dia de mobilização massivo. Se ele garante com confiança que não havia ativista da CGT envolvido na "invasão", o que dizer do corte de energia na sede do CFDT organizado pela CGT Energia?

A base se mostra pronta e determinada a ir além do que atualmente propõe as direções. Se no dia 24 de janeiro, um plano de guerra não tiver sido posto na mesa pelas direções sindicais, a traição de Berger com o falso compromisso da idade pivô e sua passagem clara para o lado do governo são faíscas que podem incendiar ainda mais a fúria dos grevistas.

A aliança Macron-Berger, enquanto deveria representar para o governo a concretização da promessa de acordo com os sindicatos, alimenta, na verdade, a incapacidade da CFDT de ter um papel de apaziguamento no mundo do trabalho, enquanto continua a mostrar que colaborará com o governo pela regressão social.

Com o auxílio de economistas próximos ao governo, como Pisani-Ferry e Aghion, Berger desempenha um papel de negociador que os grevistas não querem mais. O movimento parece poder endurecer seus métodos caso as traições se aprofundem.
E se antes da greve, certos conselheiros da presidência temiam que as organizações sindicais não poderiam controlar suas bases, há de se constatar que pode muito bem ser o caso no dia 24, frente à traição da CFDT, que se expresse na rua uma raiva ainda maior do romance Macron-Berger.

Os elementos de radicalização da base são o sinal de que a máscara do governo já durou muito tempo. E a determinação dos grevistas RATP-SNCF, protagonistas de uma greve histórica, que as classes dominantes têm dificuldade em engolir, pode ser contagioso para o setor privado, que começa a coagular lenta mas seguramente com o protesto contra a reforma da previdência.

Além disso, apesar das dificuldades materiais da vanguarda, ela mantém-se mobilizada por sua aposentadoria, e a perspectiva de um dia de protestos massivos está firme na cabeça de cada um. O dia 24 será a expressão desta determinação. Os setores privados estratégicos que ainda não confluíram com o movimento, e onde se vê os primeiros processos esparsos de recomposição da luta devem traduzir suas reivindicações na expressão coletiva, política nas ruas e na greve.

Não é certo que, com um dia de greve geral política, Macron possa novamente se reunir com os quase 200 patrões com quem se encontrou em Versalhes. Também não é certo que possa voltar ao teatro tranquilamente tão cedo.

 
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