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Viernes 6 de Diciembre de 2019
20:54 hs.

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Juventude precarizada e política: uma luta pelo futuro

Sobre a publicação de Nicolás Del Caño, candidato a presidente pela FIT Unidade na Argentina, "Rebelde o precarizada", surgem questões para pensar as condições e perspectivas de vida da juventude trabalhadora

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Não se vislumbra um futuro melhor para os que temos menos de 35 anos. Não é só a rotina ou a precarização que nos esmaga ou aliena, é o trabalho “temporário” que se torna – quando não nos demitem – permanente. Não podemos progredir no trabalho em que estamos, não podemos ter nosso próprio teto, não podemos trabalhar com o que queremos, não conseguimos chegar ao fim do mês, não podemos estudar como gostaríamos, não podemos ter planos. Querem que sejamos a primeira geração a perder direitos massivamente mas, poderemos viver melhor que nossos pais?

Juventude, um precário tesouro

Estima-se que, na Argentina, existem cerca de 2,8 milhões de jovens entre 16 e 24 anos que pertencem à população economicamente ativa, ou seja, que trabalham ou buscam trabalho. Porém, neste setor, o trabalho não registrado chega a 61% desses jovens, com uma duração média de cada emprego em torno de 12 meses e com uma média salarial em torno de 40% a menos que a média salarial dos adultos. Entre esses mesmos jovens, são cerca de 550 mil que buscam trabalho e não encontram. Sim, são mais de meio milhão de jovens que não podem “levar o país adiante trabalhando”.

- “Mas com uma bicicleta e um celular você pode ser seu próprio patrão, trabalhando a hora que quiser”.

No entanto, o surgimento e crescimento das economias de plataforma não se traduz em melhores condições de trabalho, muito pelo contrário. Dos trabalhadores das plataformas como Glovo, Rappi, Uber, Cabify, cerca de 46% não tem contribuição previdenciária e quase 58% não tem plano de saúde. E, dentre estes, a esmagadora maioria paga somente a contribuição mínima. Mas claro: apenas 5% dessas contribuições são pagas pelos empregadores [1 - Madariaga, J., Buenadicha, C., Molina, E. y Ernst, C. (2019), Economía de plataformas y empleo ¿Cómo es trabajar para una app en Argentina?, CIPPEC-BID-OIT, Buenos Aires, 2019.].

A precarização do trabalho e a crise econômica de 2008 transformaram o sonho da casa própria em uma utopia, transformando o aluguel em uma prática permanente (no melhor dos casos). Ser jovem e inquilino na capital Buenos Aires requer destinar mais de 60% do salário em aluguel e gastos fixos, razão pela qual 35% dos menores de 30 anos voltaram a morar na casa dos pais [2 - “El 35 % de los inquilinos jóvenes debieron volver a vivir con sus padres”, Perfil, 9/4/2019.].

- “As condições de trabalho não são as melhores, mas para ser alguém na vida é necessário estudar”.

Vejamos: na Universidade de Buenos Aires (UBA), somente 1 em cada 4 estudantes que ingressam, é recebido [3 – Censo de estudantes 2011, UBA.]. Segundo o último censo, 2 de cada 3 estudantes trabalham ao longo do curso. Mas este “cursar” é relativo, pois os que trabalham têm ainda que superar os obstáculos da incompatibilidade do horário de trabalho com as aulas, do valor do transporte ou das notas. Esta situação se agrava nas universidades no restante do país, onde os que não trabalham, em sua maioria, são porque não conseguem trabalho. A perspectiva tampouco é melhor para os estudantes que conseguem concluir os estudos, submetidos à seleção do mercado (alguns poucos ao precarizado sistema de bolsas públicas de pesquisa [4 - Ver en este número: Nogueira, Luciana y Benítez-Vieyra, Santiago, “¿Cómo salir de la crisis del sistema científico nacional?”.] ), à docência em um sistema educativo cada vez mais sucateado e, são cada vez mais frequentes os casos em que o Uber e outras plataformas do tipo são a única opção de trabalho que resta. Aproximadamente 87% dos trabalhadores de plataforma concluíram ou estão cursando o ensino superior[5 - Madariaga, J., Buenadicha, C., Molina, E. y Ernst, C., op. cit.].

A promessa de ascensão social por meio da formação profissional parece apenas gerar mais sobrequalificação, com trabalhadores formados que a economia não pode absorver. Em um recente estudo sobre a estrutura social na Argentina são analisados, entre outros fatores, a mobilidade social (tanto ascendente como descendente), em que “a mobilidade vertical ascendente está diminuindo ao longo das faixas etárias de maiores a menores, enquanto a mobilidade descendente apenas aumenta” [6 - Piovani, J. y Salvia A., La Argentina en el siglo XXI: Cómo somos, vivimos y convivimos en una sociedad desigual: Encuesta Nacional sobre la Estructura Social, Buenos Aires, Siglo XXI Editores, 2018.], o que significa que os que temos entre 25 e 35 anos não apenas temos menores possibilidades de ascender socialmente em relação às gerações anteriores como, pelo contrário, a maior possibilidade é a de que as condições piorem. Não só não teremos a “sorte”
de viver como nossos pais, como viveremos em piores condições.

Recuperando a identidade

Em 2011, Guy Standing, o economista, professor e pesquisador britânico, publicou o livro O Precariado: uma nova classe perigosa [7 – Standing, G. The Precariat, the new dangerous class, Bloomsbury Academic, 2011]. Neste livro, Standing levanta a hipótese de que uma nova classe social, o precariado, surge como um novo setor capaz de “quebrar a roda”, como diria Daenarys Targaryen. O autor diferencia o precariado dos “trabalhadores clássicos”, principalmente no que se refere à perda do controle sobre o tempo, ou seja, são os que não possuem jornada de trabalho com horários fixos, que estão sujeitos à instabilidade laboral e às inseguranças na hora de planejar o futuro.

Que a classe trabalhadora está fragmentada não é uma novidade, mas o autor, em sua análise sobre as condições das novas gerações de trabalhadores e as novas formas que o trabalho vem adquirindo, acaba minando até mesmo a nossa condição de trabalhadores. Como explica Nico Del Caño, “nos referimos assim (N. do A.: aos trabalhadores) a todos aqueles e todas aquelas que somente podem ganhar a vida vendendo sua força de trabalho em troca de um salário” [8 – Del Caño, N. Rebelde o precarizada, Buenos Aires, Ariel, 2019.]. Precário, informal ou de plataformas, o trabalho assalariado está amplamente estendido em escala internacional. No entanto, a pergunta de Standing a respeito de como são as novas gerações de trabalhadores é sugestiva.

Standing afirma que o precariado tem uma relação instrumental, oportunista e precária com o trabalho: instrumental porque é somente para viver, oportunista porque é o que se consegue e precária porque o trabalho é inseguro. Também aponta que este setor recebe seu salário majoritariamente sob a forma monetária, ou seja, sem os benefícios não-salariais seja do setor privado como dos regulados pelas leis do Estado. E ainda há um setor importante que tem um trabalho sem benefícios salariais ou não-salariais, definitivamente não remunerado: o trabalho de procurar emprego.

Recapitulando, podemos dizer que somos uma nova geração sem trabalho estável, com trabalhos precários que não oferecem a possibilidade de crescimento, tampouco a expectativa de ter uma casa própria (que não seja pela via do falecimento de um ente querido). Também, como afirmamos acima, está vedado o ascenso social por meio do ensino superior, seja pela dificuldade de concluir o curso ou conseguir um trabalho que permita o desenvolvimento pessoal, profissional ou social. O que temos é um presente de enormes esforços e angústias que jamais se transforma em um futuro melhor, mas num pior.

A raiva, está representada?

Como essa raiva se expressa no terreno político? Existe uma situação de cansaço e descrença em relação aos partidos políticos tradicionais e ao establishment, onde os processos eleitorais ainda conseguem absorver, em sua maioria, as ações de rua. Isso se expressa na explosão de fenômenos sociais e políticos da juventude como o Occupy Wall Street (EUA), os Indignados (Estado Espanhol), #YoSoy132 (México), entre outros, assim como a militância e o grande volume de votos dos trabalhadores sub-35 em Bernie Sanders nos EUA, em Corbyn no Reino Unido, no Podemos no Estado Espanhol e também na Frente de Esquerda (FIT) na Argentina. A raiva a que nos referimos é a que se expressa nos “votos contra”, como vimos nas recentes eleições primárias argentinas (PASO), em que o triunfo do peronismo não significa o surgimento de um movimento ou corrente albertista [9 – N. T.: de Alberto Fernándes, candidato mais votado nas eleições primárias que se realizaram no dia 11 de agosto de 2019, chapa na qual a ex-presidente Cristina Kirchner entra como candidata a vice.], mas a insatisfação contra as medidas políticas e econômicas do macrismo [10 – Ver o artigo de Christian Castillo: https://www.laizquierdadiario.com/El-transito-al-posmacrismo-y-una-nueva-crisis-nacional ]. Como vemos, esse sentimento anti-establishment não tem uma saída progressista em si mesmo: Macri ganhou as eleições presidenciais de 2015 com os votos “contra” [11 - N.T.: “contra” a continuação do kirchnerismo na figura do candidato Daniel Scioli], Trump se beneficiou com os votos que nas primárias haviam sido em Sanders, assim como ocorreu com o surgimento de Ciudadanos no Estado Espanhol, o UKIP no Reino Unido ou a Frente Nacional na França.

A estagnação e piora das condições de vida da juventude (o substrato a partir do qual se gesta essa raiva) ainda pode ser representada e canalizada em grande medida por processos eleitorais, que podem abrir espaço, inclusive, para o crescimento de partidos da ultradireita. Este leque de possibilidades torna mais urgente a discussão sobre para onde ir, com que programa e com qual estratégia. Portanto, três saídas estão sobre a mesa:

- A saída pela direita: maior desocupação, perda de poder aquisitivo, fechamento de universidades, cortes na saúde e educação, mais moradias precárias, mais precarização, semi-escravidão, repressão, reforma trabalhista, “O conto da Aia” [12 – N. T: Série norte americana cujo título original é The Handmaids Tale], 1984 [13 – N.T: livro de George Orwell], distopia, derrota. É saída que Trump, macrismo, Bolsonaro e demais governos da direita clássica só não conseguem aplicar porque se deparam com a resposta da classe trabalhadora, seja com os “coletes amarelos” ou o massivo “voto-castigo” contra Macri nas recentes eleições primárias.
- A saída “progre” apontada por Guy Standing: a renda mínima universal. Uma renda universal e irrestrita, para os que trabalham e os que não trabalham, mas que não transforma a relação de exploração entre as classes e muito menos a desigualdade.

Dentro desta política poderíamos citar as variantes (como o kirchnerismo) que afirmam ser possível um capitalismo sério, mais responsável, ou que ao menos deixe de piorar(nos) [14 - Castillo, Christian, “El tránsito al posmacrismo y una nueva crisis nacional”.]. Em momentos em que os Estados cortam direitos sociais e promovem contrarreformas, e a economia internacional não deslancha, não seria utópico acreditar que os empresários abririam mão de parte de seus lucros? Nobreza obriga, Standing não acha que os governos e empresários vão ceder porque são boas pessoas, mas propõe que o precariado busque novas e melhores formas de negociar com o Estado e o setor privado, rejeitando qualquer tipo de intervenção nos “velhos” sindicatos da classe trabalhadora. Em resumo: ou confiamos nos velhos políticos do regime para nos jogar algumas migalhas, ou começamos do zero a tarefa de organizar as novas gerações de trabalhadores mas de forma separada do velho proletariado, suas organizações e sua tradição, para conquistar a força suficiente e, assim, conseguir negociar para que os governos (dos velhos políticos do regime?)e as empresas deixem de descarregar (ou que ao menos descarreguem mais devagar) a crise sobre as costas dos trabalhadores (de todas as gerações). Ugh.

- A saída realista: superar o capitalismo. Porque não pensar como resolver estruturalmente as contradições de um sistema capitalista que está em decadência e já não tem mais nada para nos oferecer? O desenvolvimento atual dos meios de produção permite não apenas a possibilidade de acabar com a fome no mundo, como também permitiria reduzir a jornada de trabalho com a divisão das horas de trabalho. A renda universal não só poderia ser uma realidade, como, inclusive, superada por uma nova organização social que discuta democrática e planificadamente a economia, conquistando o tempo para o ócio criativo, as ciências, a arte, os esportes, viagens, em suma, o desenvolvimento individual e social. Mas para isso não basta só atacar os interesses dos capitalistas, mas sim acabar com eles. Como diz Nicolás Del Caño:

“… que o trabalho atualmente existente se distribua de forma igualitária entre todos os trabalhadores e, desta forma, solucionar tanto o desemprego e o sub-emprego de um lado, como reduzir a jornada de trabalho e terminar com as jornadas estendidas de outro. Junto com isso, estabelecer um salário de acordo com as necessidades sociais, sendo ajustado automaticamente de acordo com a inflação, e assim terminar com o fenômeno massivo de trabalhadores pobres”
Portanto, esta será a tarefa, construindo uma esquerda anticapitalista (como a que se organiza na Frente de Esquerda Unidade, na Argentina) que discuta que mundo podemos construir, que tome em suas mãos a tarefa de organizar a classe trabalhadora, de buscar a mais ampla unidade das fileiras operárias que hoje se encontram atomizadas, que dote de uma estratégia para a vitória os distintos movimentos que vemos ao redor do mundo, e que também dê uma batalha para elevar as aspirações da classe trabalhadora.

Como dizem os coletes amarelos: “Não queremos só a baguete, queremos a padaria inteira”. E poderíamos acrescentar: não queremos o aluguel, queremos a casa própria. Não queremos o tempo, queremos a vida.

 
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