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Domingo 15 de Diciembre de 2019
18:38 hs.

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IDEIAS DE ESQUERDA
O Nordestino é, antes de tudo, um forte
Marie Reisner
Gabriel de Lima

Na semana passada, assistimos o episódio em que Bolsonaro proferiu mais um ato de xenofobia, ao afirmar que: “daqueles governadores de ’paraíba’, o pior é o do Maranhão”. Não foi a primeira vez que Bolsonaro comete xenofobia contra o Nordeste, região onde, inclusive, perdeu as eleições.

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O título deste texto foi inspirado na famosa frase do livro “Os Sertões” de Euclides da Cunha, onde ele diz que o “sertanejo é, antes de tudo, um forte”. A partir desta frase tiramos uma licença poética para fazer uma pequena alteração. No referido livro, o autor narra suas experiências na Guerra de Canudos, uma das inúmeras revoltas populares que sacudiram essa região desde o descobrimento do Brasil. São movimentos ocorridos na história do Brasil que abalaram muitos dos governos e regimes das classes exploradoras do nosso país, como tentaremos descrever neste primeiro breve ensaio. Reside justamente aí o enorme desprezo de Bolsonaro pela região, sem a qual nenhuma das atuais riquezas do país teriam sido erguidas.

Seca, fome e miséria: são estas as primeiras palavras que a grande mídia oferece em torno do imaginário “Nordeste”. Por trás desse discurso midiático, que tenta colocar as mazelas da região em causas naturais ou inatas da região - como se o povo nordestino fosse merecedor da miséria perpetuada - se esconde que a principal causa das adversidades é a exploração das classes dominantes na região. Por isso, é falácia a propaganda dos supostos modelos de “desenvolvimento” implementados, que, apesar de terem concedido direitos elementares, como o acesso à luz e a expansão precária do ensino, não alteraram estruturalmente a situação de região mais castigada do país. Desde o período colonial foi implementado o modelo de plantation, marcado pelo latifúndio, monocultura, superexploração da mão-de-obra escrava e produção voltada para o mercado externo. Até hoje a concentração de terras e de renda é marcante na região. Porém, longe de resignar-se passivamente, o povo nordestino protagonizou uma série de revoltas na história do Brasil. Desta forma, o que nos deveria vir a mente é “Lute como um/a nordestino/a”.

É importante destacar que, durante uma parte do período colonial, o Nordeste era a região mais rica do país, além de, a partir de 1549, ser também o centro político, abrigando em Salvador a capital. A região foi, inclusive, palco de conflitos territoriais entre Portugal, França e Holanda. A partir do século XVIII, com a decadência do Ciclo do Açúcar, essa situação começa a mudar e a capital é transferida para o Rio de Janeiro no ano de 1763.

A primeira grande revolta e a principal ameaça ao poder da metrópole foi o Quilombo dos Palmares, o mais extenso quilombo das Américas. Apesar denão haver informações precisas, o mais provável é que esta tenha começado a partir uma insurreição em um engenho, que deu origem ao quilombo na Serra da Barriga, na então capitania de Pernambuco [1]. A luta dos escravos libertos pelas próprias mãos instalou uma situação de tensão total na capitania, sendo recorrentes os saques a engenhos, sequestros de mulheres escravas, para libertá-las, incêndios dos canaviais, além de fugas e mais fugas - onde a criatividade dos escravos cumpriu um papel central para que se transmitissem informações sobre as melhores rotas de fuga. Em 1630, o exército holandês se apoderou da Capitania de Pernambuco e iniciou uma investida repressiva feroz contra o Quilombo de Palmares, intensificada por Portugal após a recuperação do controle das terras.

Trinta anos depois, uma tentativa de selar paz foi aceita por Ganga-Zumba, até então líder militar dos quilombolas, o que provocou uma fissura com Zumbi e distanciamento geográfico. A discordância se deu pelo fato de que Zumbi não concordava com as condições colocadas para que os nascidos nas terras do Quilombo fossem considerados livres, como a imposição de entregar os fugidos de Palmares às autoridades e a transformação dos palmaristas em vassalos do rei. Em 1667 uma expedição de 600 homens atacou Palmares, provocando incêndios das florestas em torno do Quilombo e enfrentamentos armados. Os escravos insurretos responderam rapidamente, contra-atacando de tal forma que fizeram com que as autoridades coloniais e os senhores de engenho não tivessem como se reunir, obrigando a Companhia das Índias Ocidentais a retroceder. A mesma mantinha um enorme interesse na capitania, em especial pela produção de cana-de-açúcar, constantemente ameaçada pela revolta dos escravos. Entretanto Zumbi seguia irredutível em sua posição de não negociar com a Coroa, fazendo com que o próprio rei lhe escrevesse uma carta prometendo-lhe perdões. A expedição de Jorge Velho, saída de São Paulo, foi a que deu o golpe de morte a Zumbi e seus homens no dia 20 de novembro de 1695. Esta derrota não foi capaz de apagar a latejante inspiração de enfrentamento pelas liberdades que segue viva até hoje, eternizada nas palavras do escritor baiano José Carlos Limeira: “Por menos que conte a história, não te esqueço meu povo, se Palmares não existe mais, faremos Palmares de novo”.

O Quilombo dos Palmares, justamente pela sua extensão e nível de enfrentamento com o poderio português, ficou marcado como exemplo emblemático, mas teve ao seu lado centenas de quilombos por todo o país, que comprovam a afirmação do militante trotskista e dirigente da IV Internacional nas décadas de 30 e 40 CLR James, de que o único lugar onde os negros não se rebelaram foi nos livros dos historiadores capitalistas.

Além do Quilombo dos Palmares, o Nordeste foi palco de outras revoltas ainda no período Colonial. A Conjuração Baiana, iniciada no ano de 1798, teve como principais causas o aumento dos preços e a escassez de produtos básicos, além da demanda pela independência frente a Portugal. A população saqueou uma série de estabelecimentos comerciais e a forca, um dos símbolos da opressão colonial, foi incendiada. Dentre as demandas da revolta, constavam a Proclamação da República e a abolição da escravatura, sendo este um dos processos que marcou a entrada das ideias iluministas no Brasil. Dentre sua composição social, era composta majoritariamente por pequenos artesãos – com predominância dos alfaiates – além de escravos e ex-escravos. Essa revolta marcou o início de uma série de outras revoltas populares que marcaram o Nordeste no século XIX.

Em Pernambuco, houve duas grandes revoltas de caráter republicano que abalaram a Monarquia, seja na figura de D. João VI ou de D. Pedro I. A primeira delas foi a Revolução Pernambucana em 1817, que foi marcada pela presença de lideranças femininas no coração de um nordeste patriarcal, como Bárbara de Alencar, Maria Teodora da Costa e Gertrudes Marques, sendo a primeira delas a primeira presa política do Brasil. Pouco depois, em 1824, estoura a Confederação do Equador. A revolta teve como epicentro também a província de Pernambuco, porém se alastrou para outras províncias. Seu estopim se deu contra o ato autoritário de D. Pedro I, que dissolveu a Assembleia Constituinte de 1823 e outorgou uma constituição altamente centralizadora. A nova revolta arrastou consigo muitos dos antigos revoltosos da Revolução Pernambucana de 1817 e foi alvo da maior repressão do Brasil Império, com 31 condenados à morte.

Influenciada pelos acontecimentos em Pernambuco, a Bahia também assiste ao surgimento de revoltas de caráter independentista e republicano, protagonizadas sobretudo entre os estratos urbanos inferiores e médios. Em fevereiro 1822, antes da Independência proclamada por D. Pedro I, estoura a guerra pela Independência da Bahia a Portugal. O processo termina com a província anexada ao recém constituído Império do Brasil. Porém, os ideais iluministas e republicanos ainda estavam vivos e influenciaram outras revoltas na província durante a regência, como a Federação do Guanais (1832) e a Sabinada (1837). O período “imperial” do Brasil ainda irá conhecer a Revolução Praieira, já no tempo de D. Pedro II, em 1849, desta vez em Pernambuco.

Nesta época também houve grandes revoltas protagonizadas pelos escravos e camponeses pobres, como a Revolta dos Malês (1835) na Bahia e a Balaiada (1838) no Maranhão. A primeira ocorreu em Salvador foi liderada pelos escravos africanos muçulmanos, chamados de Malês. Os insurretos queriam o fim da escravidão e da imposição do catolicismo aos negros islâmicos. A revolta foi brutalmente reprimida pela polícia, e seus participantes foram condenados com duros castigos, tal como chicotadas e pena de morte. Já a Balaiada começa no vilarejo de Manga do Iguará e dura 3 anos. Composta majoritariamente de camponeses pobres e escravos da lavoura, a revolta toma o caráter de uma guerra camponesa, ocorrendo vários saques a latifúndios. Ao final da luta, uma parte dos revoltosos se rendeu e outra foi duramente reprimida.

Uma das primeiras grandes revoltas na Primeira República também ocorre no estado da Bahia, a chamada Guerra de Canudos. Numa sociedade marcada pelo predomínio do latifúndio e pela extrema desigualdade, um grupo de camponeses, liderados por Antônio Conselheiro, se estabelece nos arredores da Fazenda de Canudos, onde fundam o pequeno vilarejo de Arraial de Canudos, em 1893, e começam a viver ali de forma autônoma. Com isso, Canudos começou a chamar a atenção de latifundiários e do governo, que em outubro de 1896 lançam seu primeiro ataque contra eles, que foi corajosamente derrotado pelos habitantes de Canudos. O mesmo ocorreu com outras duas investidas, em janeiro e março do ano seguinte. Em abril, o exército lança uma nova ofensiva, mobilizando milhares de soldados contra Canudos, que resiste bravamente por quase seis meses, até que em 5 de outubro morrem os últimos defensores. O exército incendeia e destrói todo o arraial e decepa a cabeça de Antônio Conselheiro, que é enviada à Faculdade de Medicina de Salvador, para se estudar a suposta “loucura” do líder de Canudos.

Quando foi dado o Golpe Militar de 1964, a justificativa da ofensiva autoritária era a existência de um perigo comunista, mas o que não se sabe é que era justamente dos trabalhadores do campo nordestino que surgiram os piores pesadelos da burguesia brasileira. As Ligas Camponesas chegaram a organizar em suas fileiras 500 mil afiliados, majoritariamente concentrados no Nordeste. Por exemplo, em 1963 existiam 64 ligas em Pernambuco, 15 na Paraíba, 12 no Maranhão, 10 no Ceará e 9 na Bahia. Os conflitos do começo da década anterior, como a “República de Tromba-Formoso”, em Goiás, que se declarava um Estado próprio operário e socialista, pouco conseguiam se expandir, o que tomou novos contornos quando o PCB decide voltar a apostar nas Ligas Camponesas.

Em 1954, acontece o 1º Congresso Nordestino de Trabalhadores Rurais em Pernambuco. O congresso é cercado pela polícia para impedir sua realização, contra a qual os operários se armaram com foices e enxadas, garantindo sua realização e dando o tom dos conflitos que estavam por vir. Logo, se criou a ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil), presente em 16 Estados. Em 1955, começa o conflito da Liga Camponesa da Galileia, em Pernambuco, que conseguiu a desapropriação da terra 4 anos depois, com atividades que combinavam batalhas de ação política nas cidades, buscando ganhar o apoio da população e enfrentamentos com a repressão no campo, para garantir o espaço conquistado. No dia 18 de novembro de 1963, 200 mil operários cortadores de cana entram em greve, com uma adesão quase total e conquistam 80% de aumento salarial, 13º e o pagamento dos salários atrasados. Enquanto a principal organização da classe trabalhadora naquele momento, o PCB, erroneamente optava por defender uma reforma agrária restrita, por identificar setores da burguesia como “progressistas”, e assim minar a organização do proletariado, a direção majoritária das ligas levantava a consigna: reforma agrária radical, na lei ou na marra. Ao mesmo tempo, o Estado se apressava a reconhecer os sindicatos rurais e ceder terras para canalizar o descontentamento, numa estratégia combinada com a Igreja Católica, que atuava fortemente para atenuar os ânimos. Isso deu origem a um processo de crise das Ligas com suas direções, afincada na necessidade da defesa do programa da reforma agrária imediata e irrestrita e da qual foram linha de frente as mulheres camponesas.

Ao longo de todo século XX, o Nordeste sofreu com um constante e expressivo fluxo migratório para a região Sudeste. Os nordestinos chegavam à região, em busca de trabalho para sustentar a família que, muitas vezes, havia ficado para trás. Assim, engrossavam enormemente as fileiras da classe operária dos grandes centros urbanos, tornando-se marca histórica a grande composição de nordestinos, que permanece no século XXI. Com seu histórico de combatividade, os nordestinos cumpriram um papel fundamental nas lutas que a classe operária realizou, ameaçando a Ditadura Militar em seu centro político, como por exemplo nas greves do ABC no final dos anos 70. Existem registros justamente sobre jovens retirantes nordestinos, que eram responsáveis pela distribuiçãode materiais defendendo a necessidade da união entre trabalhadores e estudantes e o enfrentamento direto da Ditadura Militar, que não se daria à serviço de uma transição pactuada, mas para derrubar a burguesia.

Se Bolsonaro desdenha abertamente do povo nordestino, é nos apoiando no espírito de luta expressado historicamente pelo povo nordestino que podemos abrir o caminho para derrotar este governo e a seus ataques. Afinal, até mesmo as manifestações da “Revolta do Busão” em Natal, que antecederam as jornadas de Junho de 2013, tiveram localização precisa. A infinidade de sotaques destes nove estados e seus interiores, a genialidade e solidariedade desenvolvida nas famílias trabalhadoras para garantir seu sustento, enfrentando condições adversas - que incluem a seca -, a cultura que fervilha e pulsa insubordinação o ameaçam e, na medida que jorra seu ódio, intensificam-se. Diferentemente do PT e PCdoB, que praticam uma oposição meramente parlamentar e que mesmo após essas declarações, seus governadores da região se propõem a conciliar com Bolsonaro – e considerando que estes mesmos governadores foram favoráveis à reforma da previdência – é necessário que todas as odiosas e repugnantes declarações xenófobas e racistas de Bolsonaro e da direita sejam respondidas com igual ódio de classe nas ruas contra esse governo de extrema direita.

A força das revoltas nordestinas precisa palpitar em cada coração injuriado com esta crise capitalista que quer nos massacrar e tem Bolsonaro como a terrível expressão da vez. Permitamos que pulsem ainda mais fortes, até derrubá-lo, para assim levar adiante o legado de Zumbi, sem nutrir nenhuma confiança naqueles que negociam com nossas vidas

Notas:

SALLES, Edison e MATOS, Daniel. "O Processo Revolucionário que culmina no Golpe Militar de 64". In: Estratégia Internacional Brasil 2. São Paulo. Iskra

ALFONSO, Daniel. "O Espírito Guerreiro de Palmares". In: http://esquerdadiario.com.br/ideiasdeesquerda/?p=640

[1] A Serra da Barriga se localiza atualmente no estado de Alagoas.

 
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