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Domingo 15 de Septiembre de 2019
20:25 hs.

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ANÁLISE
Crise com Bebianno deixa rastro de pólvora e abala laços entre Bolsonaro e o Legislativo
Ítalo Garcia

A exoneração do Secretário-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno (PSL), significou uma grande crise para o governo. Bolsonaro, junto a seu filho e vereador do RJ, Carlos, atestaram o poder da família presidencial sobre pontos decisivos de seu governo, usando das redes sociais para “fritar” quem tinha sido o “homem forte” da campanha do presidente durante todo o período eleitoral. Apesar disso, o radicalismo na postura do presidente de lidar com prováveis disputas dentro do governo, soou como um desconfortável alerta a todos os seus aliados, desde membros planalto até os congressistas, especialmente Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara e articulador da Reforma da Previdência.

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Bebianno é descrito por aliados como “o cara que elegeu Bolsonaro”, um dos seus mais importantes conselheiros e articuladores da campanha eleitoral de todo o partido. Buscou aproximações com o clã Bolsonaro desde 2015, mas desde 2017 tomou partido por sua candidatura. Logo após a facada, em stembro do ano passado, é que Bebianno passou a uma posição central na sua campanha, conhecido como “faz tudo”. Por isso, também, não tem suas origens no PSL, diferentemente de Luciano Bivar, que é fundador do partido, ou o ministro do Turismo, ambos envolvidos no mesmo escândalo das laranjas; mas Bebianno é um dos primeiros e mais importantes “agregados” de sua campanha.

Encabeçando a principal secretaria do governo, Bebianno estabelecia um importante vínculo com Rodrigo Maia (DEM), quem Bolsonaro apoiou para vencer a presidência da Câmara. O homem mais “gabaritado” no fisiologismo para angariar aliados à Reforma da Previdência.

As relações de Maia com o principal articulador político do governo, Onyx Lorenzoni (DEM), estão debilitadas desde que o presidente da Câmara soube das rasteiras que o ministro da Casa Civil tentou dar contra a sua reeleição no Legislativo. Apesar das inimizades, no entanto, as conversas entre eles, incluindo o senador Davi Alcolumbre (DEM), seguiram em meio a essa crise.

Antes da decisão final de Bolsonaro sobre a exoneração, Maia chegou a ligar para Paulo Guedes buscando impedir uma queda de Bebianno, expressando preocupação com os efeitos para a Reforma da Previdência, mas principalmente na confiança dos congressistas.

A facilidade com que Bolsonaro expeliu um dos seus principais aliados, passando uma imagem de “compromisso” contra a corrupção para o seu eleitorado, mas visando lidar com disputas dentro do governo, preocupou ministros e parlamentares. O evidente poder político dos filhos eventualmente poderia ser usado contra eles. Envenena as relações de confiança entre presidente e sua família com o Legislativo, deixando Maia para articular com outros agentes do Executivo, como Guedes e Moro, que têm mais jogo próprio e não fazem coro com toda a agenda bolsonarista.

O colunista do Globo, Merval Pereira, expressa a vontade do Globo de “fritar” os filhos e condenar o método e a política bolsonarista: “A demissão de Bebianno, um dos primeiros a aderir à candidatura de Bolsonaro, afeta muito a confiança dos políticos no presidente e está preocupando militares e assessores mais próximos da presidência, que alegam que não terão mais confiança nas conversas com ele sem saber o que os filhos pensam. O twitter dos filhos é um fator sem controle e pode alvejar qualquer um”.

Ao mesmo tempo que mostra a influência dos filhos, Bolsonaro é obrigado a afastar Carlos dos assuntos de governo (o que tampouco é definitivo). Mourão e o vasto núcleo militar saiu bem localizado, apesar de não terem conseguido evitar a queda de Bebianno e disciplinar o clã familiar. Tomam as rédeas, junto a Guedes, de colocar uma “agenda positiva” da Reforma da Previdência e “arejar os assuntos”, passando a legitimar a demissão pelas “razões pessoais” de Bolsonaro. Além disso, o substituto de Bebianno será mais um general, Floriano Peixoto.

Sergio Moro é quem se sai melhor nessa, pois assume as investigações do caso das laranjas do PSL e aparece “por cima” da crise, apoiado no discurso de combate à corrupção. Ganha uma certa vantagem em relação ao interior do PSL, podendo eventualmente atingir algum de seus membros. Mas não tem tanta liberdade para atacar Bebianno, não pretende abrir o bico até se sentir ameaçado.

Pela sua proximidade com as campanhas do PSL, as suspeitas sobre Bebianno é que tenha informações de campanha que poderiam ser usadas contra o governo e os filhos. Apesar disso, graças ao seu bom trânsito entre os militares, Bebianno tem recebido certas concessões, desde a despedida “amigável” de Bolsonaro a portas abertas em estatais ou embaixadas. É um “laranja” que tem maiores compromissos com a estabilidade burguesa necessária para aprovar a Reforma da Previdência, portanto que não deve abrir o bico até que se sinta acuado. Mas certamente virou uma “bomba-relógio” capaz de abrir novas crises possivelmente mais profundas ao governo a qualquer instante.

É uma crise que, apesar de dos distintos agentes do governo tratarem de encerrá-la com a saída de Bebianno, a tentativa de Bolsonaro retomar a reforma da previdência de Guedes e o pacote “anticrime” de Moro, ela manteve feridas abertas que podem gerar crises ainda piores. Não só com a possibilidade de Bebianno decidir abrir a "Caixa de Pandora" do PSL e do novo presidente, mas com o embaralhamento das negociações da Reforma da Previdência e especialmente as propostas mais “bolsonaristas”.

Hoje, 19, o governo já sofreu o primeiro revés na Câmara, que derrubou um decreto que botava sob sigilo documentos internos. O PSL votou sozinho contra a medida.

O custo do apoio dos parlamentares cresce, e Bolsonaro se verá obrigado a lidar com essa nova e tensa situação, com qual ele não contava. Não há como determinar de antemão como o fará, será questão para resolverem nos próximos dias ou meses, mas certamente o caminho que vinha sendo traçado para aprovar a reforma da previdência terá desvios.

A Reforma da Previdência tende mais a debilitar Bolsonaro com os seus eleitores, especialmente os trabalhadores, e é um ataque decisivo para as relações com o imperialismo, o mercado financeiro, mas também para a localização política das distintas alas dentro do Estado.

Todas estão pela reforma, especialmente Maia, que disse estar disposto a tocá-la “independente da relação com o governo”, mas que tenderá a impor maiores desafios para as promessas de campanha de Bolsonaro, assim como todo o Congresso.

O caso Bebianno, uma crise cujas proporções ficaram mais circunscritas às disputas “palacianas”, não levaram a uma quebra da “lua de mel” entre Bolsonaro e as massas, muito menos a uma mudança na correlação de forças geral do país capaz, aí sim, de impactar decisivamente na aprovação ou não da reforma.

O anúncio dessa crise como “terminal” para a Reforma da Previdência, como tem analisado a blogosfera petista, é combinado com a omissão das centrais sindicais e entidades representativas vinculadas ao PT, como a UNE e a CUT, de apresentar um programa de lutas que tenha o propósito unificar o conjunto dos explorados e oprimidos para responder na luta e classes a esse ataque. Ou seja, criando volumes de forças entre as massas, que se proponha a acelerar a experiência com essa lua de mel, denunciando cada vírgula dessa reforma, e preparar para as prováveis quebras de ilusões que podem derivar de escândalos desse tipo e de um ataque tão duro que é essa reforma. Uma força real que articule setores organizados em cada local de trabalhado e estudo é possível alterar decisivamente a correlação de forças e pôr um obstáculo real à reforma.

 
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