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Viernes 10 de Abril de 2020
03:14 hs.

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16 de agosto
As marchas da direita que não conseguem ser alternativa a Dilma e o PT
Marcelo Tupinambá
São Paulo

As manifestações também não conseguem alterar a conjuntura política, marcada pela intenção de conquistar uma “governabilidade para atacar”. Também não conseguem ganhar simpatia popular. É necessário construir uma alternativa pela esquerda.

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Ao final do 16 de agosto, novamente uma guerra de números. A operação é para não baixar tanto o peso político das manifestações, que já perdem impacto por serem muito mais baixos em relação a 15 de março, deixando-as marcadas como maiores que as de abril.

Ainda que tudo indica que as manifestações de conjunto foram em menor número, o mais importante é que, apesar de serem algumas centenas de milhares, pouco alteram a conjuntura e não podem se consolidar como uma alternativa a Dilma e o PT para amplos setores de trabalhadores, que necessitam uma alternativa pela esquerda.

Por que as manifestações não conseguem alterar a conjuntura e ganhar simpatia popular?

O primeiro fator que faz com que as manifestações não possam alterar a conjuntura nacional é que ela está marcada pela tentativa burguesa de controlar a crise política para obter uma “governabilidade para atacar” (o que vai contra a linha de impeachment).

A Agenda Brasil de Renan-Dilma é um primeiro ensaio, mas que ainda está muito pouco claro se poderá ter efetividade, mas esse é o caminho exigido pela burguesia e os sua imprensa. Com isso, a imprensa (que o PT chamava de golpista) não alimentou fortemente as manifestações como vinha fazendo e a cobertura das mesmas não foi como se fosse a Copa do Mundo de um Brasil que dá orgulho. O clima era de colocar “panos quentes”.

O segundo elemento é que a composição das manifestações foi mais marcadamente de classe e cor. Ainda menos trabalhadores, jovens e negros se confundiram dessa vez. Os dados do Datafolha da Avenida Paulista são só uma amostra cabal do que ocorreu em todo o país: o maior contingente eram de 51 anos ou mais (40%), de 36 a 50 anos (36%), jovens com menos de 25 anos não chegavam a 5%. 76% tinha nível superior. Apenas 14% ganhavam menos do que R$ 2364,00, enquanto mais da metade ganha mais de R$ 7000,00. Era difícil achar um negro, mesmo nos estados mais negros do país.

Essa composição marca bastante o conteúdo político e ideológico dos atos. Não havia nenhuma demanda social como transporte, saúde, moradia, salário ou contra os ajustes. Afinal, os que estavam se manifestando não são os que sofrem com estes. Trata-se de uma classe média conservadora e elitista.

A imprensa e organizadores querem colocar os que pediam “intervenção militar” como minoritários, para não queimar demais a manifestação com setores jovens e progressistas da sociedade. Mas foi difícil esconder outra realidade: estes setores raivosamente de direita, que não tinham vergonha de se expor na TV com orgulho, não recebiam nenhum tipo de animosidade dos outros presentes nos atos. O conteúdo do “Fora PT”, “Fora Dilma”, “Fora Lula” e contra a corrupção, que foi o que primou em meio a mil e uma exaltações de Sérgio Moro, se mesclavam sem problemas com ataques furiosamente anti-comunistas e contra o “espectro que ronda” a pequena burguesia de direita, o Foro de São Paulo, que ninguém normal sabe sequer o que é. São os mesmos reacionários que querem fazer o malabarismo de classificar o PT como “comunista”, algo que é necessário malabarismo para explicar e uma confusão deliberada para que alguns trabalhadores acreditem que o PT é de “esquerda” e “comunista”.

Esses três fatores, a conjuntura, a composição e o conteúdo das reivindicações limitam enormemente o fôlego deste movimento, mais ainda sem enraizamento social, se movendo muito no mundo internauta com reacionários como o Revoltados On Line, o Vem Pra Rua, o Movimento Brasil Livre e outros. Estes movimentos foram e são relativamente hábeis para canalizar um sentimento anti-Dilma pela direita, mas são incapazes de dar uma representação política efetiva para este movimento, que busca suas referências.

Um dos principais impactos da manifestação: sobre o PSDB

Todos estes limites desse movimento são os que fazem com que mesmo a ala do PSDB de Aécio Neves e Aloysio Nunes, que são os que ainda tem mais interesse em ter uma postura de maior enfrentamento com Dilma na expectativa de algo que possa dar alguma base para um impeachment, tivesse uma participação tímida e rápida nas manifestações.

Alckmin não fez mais do que algumas declarações por Twiter, apesar de que seu Secretário de Segurança Pública Alexandre de Moraes compareceu, com as mãos sujas de sangue da recente chacina em São Paulo.

Serra foi ao ato em São Paulo para não se desgastar com essa base, mas também não quis se postular de maneira aberta, em meio a movimentações que anda fazendo cogitando ir ao PMDB.

Mesmo a Força Sindical, que antes apareceu entusiasticamente nos atos, não quis ter nenhuma participação destacada, disciplinada pela FIESP e pela patronal. Apenas Paulinho da Força apareceu, timidamente. Assim, esse movimento só tem como interlocutores orgulhosos gente como os Bolsonaros e Cunhas. Sendo assim, o PSDB que já estava dividido, agora está sob uma pressão ainda maior para um giro à direita. Pois é justamente essa classe média, em especial de São Paulo, que é base eleitoral “militante” deles. A questão é que ao mesmo tempo que o PSDB depende dessa base, tem plena consciência que sequer eles conseguem hegemonizar o conjunto da sociedade. Optar por este setor seria optar por se consolidar como um partido anti-operário e anti-popular, adotar a linha de um Reinaldo Azevedo, com uma ideologia abertamente reacionária. Mas para governar o país e galgar postos no Estado burguês como representante da burguesia é necessário muito mais que ódio de classe, é necessário conquistar alguma simpatia entre os setores populares. Se antes do ato o PSDB já estava dividido, essas confusões tendem a aumentar.

Pra onde vai esse movimento de centenas de milhares?

Se o movimento não é capaz de alterar a conjuntura, está longe de trazer estabilidade. Seguem sendo centenas de milhares no marco de uma crise de representatividade da casta política, cada vez mais separada da população. Não está descartado que este movimento ganhe novamente algum fôlego se o elemento que segue gerando instabilidade em potencial no país volte a pesar: a Operação Lava-Jato. Se recentemente foi adiado o julgamento do TCU e arquivado um dos processos contra Dilma-Temer no TSE, como parte da conjuntura de busca de estabilidade, os escândalos de corrupção seguem sendo um fator de permanente incerteza de para onde vai a política nacional. Nesse sentido, pode ser que caso as denúncias da nova fase da Lava-Jato, centrada nos políticos, pegue em cheio o PT e este movimento que tomou as ruas hoje possa ganhar algum apoio em setores populares e conquistar representantes na superestrutura orgulhosos. Mas por hora não é o que aponta, mas sim que a crise de representatividade impacta no conjunto da sociedade: também a classe média conservadora não se sente representada, acham os Renan e o PSDB moderados demais. Se as denúncias se mantiverem relativamente sobre controle no campo dos políticos ou relativamente implicando pouco outros setores para além do PT (como Cunha e outros), a tendência é esse movimento perder força de mobilização.

O engodo das manobras governistas

O governo preferiu não se pronunciar. A única coisa que fez foi uma pequena mobilização na porta do Instituto Lula, com sindicalistas e movimentos sociais dos mais cooptados pelo governo e o PT. Assim, dividiram um pouco os noticiários e criaram um clima de “defesa de Lula frente ao golpe”. O próprio peso contra a figura do Lula na manifestação mostra a preocupação destes setores se deslocando do impeachment para as eleições de 2018. Mas foi irrisório frente ao que ocorreu no país. Agora o governo terá um teste no dia 20, onde vai colocar peso para ter uma demonstração de força em sua defesa clara. Mas o governo termina o dia relativamente aliviado, pois as manifestações não alteram a conjuntura.

Mais uma vez: construamos na prática um terceiro campo

A tarefa do momento não é fortalecer um dia 20 “em defesa da democracia”, pois ficou mais uma vez claro que não há nenhum impeachment em curso, muito menos um “golpe fascista”, mas sim impulsionar uma política independente, rompendo com o dia 20 e convocando um terceiro ato, foi esse chamado que fizemos ao PSOL e outros setores.

 
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