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Virginia Woolf, uma referência para o feminismo e a visibilidade lésbica

Cumprem-se 75 anos desde que a escritora britânica Virginia Woolf afundara-se nas águas do Ouse. Sua obra, repleta de denúncia à guerra e à opressão à mulher, desafiou a moral victoriana e influenciou várias gerações de autoras.

sexta-feira 8 de abril de 2016| Edição do dia

“Uma mulher tem que ter dinheiro e um quarto que seja seu se vai escrever”

Assim sentenciava Virginia Woolf em Um quarto que seja seu (1929). Este ensaio, amplamente divulgado no contexto do auge do feminismo nos anos 70, denunciava a dificuldade que encontrava uma mulher para escrever num âmbito literário dominado por homens.

Neste e em outros ensaios, Woolf critica as normas sociais ao colocá-las como algo ridículo, fazendo o contrário da moral da época, que tratava de carregar de vergonha os sentimentos e palavras das mulheres. É nesse contexto que nasce Virginia Woolf como escritora e editora.

Filha de um acadêmico e uma modelo ingleses, nasceu em 1882 em Londres, tendo sido criada com os filhos dos anteriores maridos e esposas de seus pais, num ambiente em que os convencionalismos sociais exerciam grande peso.

A essa infância e adolescência impregnadas de repressão no núcleo familiar se uniriam as mortes tanto de sua mãe como de sua irmã e seu pai antes de seus 23 anos, bem como o abuso sexual por parte de dois de seus meio-irmãos, tal como relata em sua autobiografia.

A vida de Woolf estaria marcada por sucessivos padecimentos mentais, agravados por uma moral victoriana que confinava às mulheres a culpa e o silêncio sobre suas insatisfações, dores e frustrações.

Durante o reinado da rainha Victoria, a Grã Bretanha chega ao seu apogeu como potência colonial, os capitalistas ingleses acumulam fortunas e concentram esforços para configurar uma sociedade de classes inalterável e uma elitista e conservadora moral que a justifique, caracterizada por uma forte repressão sexual e social assim como uma tendência a identificar e castigar os problemas individuais e sociais.

A desigualdade da sociedade victoriana será refletida nas obras de romancistas britânicos como Dickens e as críticas à moral dominante deixaram uma grande impressão na literatura da época em níveis temático, estético e político tais como o uso de simbolismos para evitar a censura ou a sobreposição dos pensamentos que os personagens não se atrevem a dizer.

Essa é uma das características literárias que canalizou através de sua obra: a ânsia de liberdade que sentia. Assim, cultivou um estilo muito pessoal e experimental, denominado “fluxo de consciência”, através do qual intercalava as palavras e ações do narrador onipresente (normalmente uma mulher nas obras de Woolf) com seus pensamentos, dissipando as barreiras entre ambos.

Esse estilo é oposição direta ao modelo de mulher que promovia a moral vitoriana, um anjo do lar que destila obediência e sente em silêncio, que Woolf narrava carregando de lirismo e figuras retóricas em forma de monólogo contrapondo o que se sucede nos diálogos e silêncios dos personagens.

Esta forma de escrever que intercala mundo interior e exterior dá nome à sua obra As ondas (1931) que de forma poética cria um ritmo para ir do que disse ao que se permite dizer e voltar, denunciando assim a repressão e a farsa que encerram as convenções sociais da época e que semeavam de frustrações a própria autora.

Enquanto essa opressão moral se estendia à milhões de mulheres, a psicologia moderna aumentava sua popularidade sem precedentes e Woolf sofria de transtornos que se generalizavam na época, os quais se agravariam com o bombardeio de sua casa em Londres durante a II Guerra Mundial, suicidando-se pouco depois em 1941.

Tanto Virginia Woolf como seu marido, o editor Leonard Woolf, se posicionaram contra ambas as guerras mundiais e o fascismo, como em sua obra Os três Guinéus (1938), tratando ainda de temas como os devastadores efeitos psicológicos da guerra em obras como Ao farol (1927) ou a excelente Mrs Dalloway (1925), todo um registro da desigualdade social na traumatizada sociedade do pós-guerra.

Outro dos temas tratados na obra de Woolf é a opressão à mulher, no entorno familiar e social, pelo que é considerada uma precursora do movimento feminista na literatura, através de seus romances, contos e ensaios.

O trabalho de woolf tratava deste tema através de um espectro que ia desde a ironia e o humor sutil até a exaltação sentimental das emoções proibidas ou a denúncia direta. Em suas obras, critica a falta de independência econômica das mulheres em relação aos seus companheiros em todas as classes sociais denunciando as leis que a respaldavam mas também contra as nefastas consequências para as mulheres da moral patriarcal, as quais sofreu em primeira pessoa.

Amor entre mulheres e leis contra a homossexualidade

Virginia Woolf apaixonou-se pela escritora Vita Sackville-West em 1922. Ambas mantiveram uma relação secreta que duraria anos e da qual um dos frutos seria a obra Orlando (1928), uma autêntica jóia precursora da literatura de gênero, na qual Vita inspira o personagem de Orlando, uma heroína transexual que amará homens e mulheres em distintos pontos da obra.

Woolf travestiu a si mesma, assim como outros membros do Círculo de Bloomsbury, um clube de intelectuais críticos em relação à ordem social e cultural, para fazer-se passar pela corte do rei de Abisinia, e deixar em ridículo com esta performance a Armada Britânica que organizou à tal corte uma pomposa cerimônia, a fim de administrar seus interesses coloniais.

A sociedade britanica era profundamente LGBTfóbica contando com penas de prisão para os “delitos cotra as pessoas” como eram conhecidos e que perduraram até os anos 70 na Grã Bretanha e nas antigas colônias em que foram implantadas.

A crueza desta situação aparece em outros escritos, como suas cartas, onde escreve aVita Sackville-West, passagens como esta:

“Vita, deixe seu marido e iremos a Hampton Court jantar juntas ao lado do rio e passear no jardim à luz da lua. Chegaremos em casa tarde, beberemos uma garrafa de vinho, e te direi todas as coisas que tenho em minha cabeça, milhões, miríades de coisas. Elas não se avivarão durante o dia. Somente na escuridão, junto ao rio. Pense. Deixe seu marido. Te peço. E vem.”

Assim, enquanto Virginia Woolf expunha sua audácia em suas obras ao tratar e defender temas como a homossexualidade, o desejo sexual feminino, ou a transexualidade outras personalidades desafiaram a LGBTfobia victoriana tanto cultural como politicamente.

O escritor Oscar Wilde tratou de forma recorrente o tema em suas obras, tanto no terreno da ficção, como na reivindicação do amor livre como desenvolve em A alma do homem sob o socialismo, sendo preso em 1895 ao ser acusado de ter mantido relações com outro homem.

Também o poeta, ativista homossexual e socialista Edward Carpenter desenvolveu a reivindicação das relações livres e do que chamava o terceiro sexo, sendo um precursor do movimento LGBT e um dos fundadores do Partido trabalhista do Reino Unido.

A vida e a obra de Virginia Woolf assim como desses autores são uma crônica de uma das épocas mais reacionárias da história da sociedade capitalista, na qual predominou uma asfixiante opressão patriarcal, frente a qual, se levantaram numerosas vozes, que deixaram um legado poderosamente rebelde para as gerações posteriores.

Tradução: Anita Anoca




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