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Vem aí a II Feira Antropofágica de Opinião em São Paulo

Em 1968, Augusto Boal, que se consagraria como um dos nomes mais importantes do teatro mundial, idealizou a Feira Paulista de Opinião. O evento foi colocado de pé pelo Teatro de Arena logo após a promulgação do AI-5, no período mais duro da ditadura civil-militar, como uma forma de luta e resistência artística contra a ditadura brasileira. Inspirando-se nesse feito, a Cia. Antropofágica, com a direção de Thiago Reis Vasconcelos, desde o ano passado retomou a tradição legada pelo Arena, e passou a realizar a Feira Antropofágica de Opinião, sob o mote “O que pensa você do Brasil de hoje?”, o mesmo utilizado em 1968.

Fernando Pardal

@fepardal

terça-feira 2 de junho de 2015| Edição do dia

Em 1968, Augusto Boal, que se consagraria como um dos nomes mais importantes do teatro mundial, idealizou a Feira Paulista de Opinião. O evento foi colocado de pé pelo Teatro de Arena logo após a promulgação do AI-5, no período mais duro da ditadura civil-militar, como uma forma de luta e resistência artística contra a ditadura brasileira. Inspirando-se nesse feito, a Cia. Antropofágica, com a direção de Thiago Reis Vasconcelos, desde o ano passado retomou a tradição legada pelo Arena, e passou a realizar a Feira Antropofágica de Opinião, sob o mote “O que pensa você do Brasil de hoje?”, o mesmo utilizado em 1968.

Em 2014, a Cia. Antropofágica se deu o desafio de resgatar a herança de Boal e do Arena, e convidou uma série de colaboradores para participarem do evento que recebeu o duplo nome de “II Feira Paulista de Opinião”, numa menção ao evento dirigido por Boal, e “I Feira Antropofágica de Opinião”, colocando, assim, a marca da nova geração que pretende, no espírito autenticamente antropofágico, recriar esse legado não como peça de museu, como artigo de consumo ou fetiche histórico, mas como uma tarefa e um desafio vivo das novas gerações do teatro de esquerda, daqueles que têm na arte uma forma de intervenção social, a sua práxis.

A concretude da continuidade entre as gerações foi marcada em 2014 pela importante presença de Cecília Boal, psicanalista e viúva de Boal, que foi atriz do Arena e hoje preside também o Instituto Augusto Boal, que preserva o legado de sua obra. Cecília falou aos participantes sobre a I Feira Paulista de Opinião, um evento que, fugindo à repressão e à censura da ditadura, se realizou de forma itinerante em vários palcos de espetáculos de teatro que cediam seu espaço para a realização da feira. Entre os que se envolveram nessa luta para responder à pergunta colocada por Boal, estavam Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos, Edu Lobo, Sérgio Leirne, entre outros. Neste ano, novamente Cecília estará na mesa de abertura, fazendo presente a herança dos que lutaram e criaram antes de nós.

Boal teve na luta a marca de sua arte. Foi preso e torturado pela ditadura. Criou o Teatro do Oprimido, que procurava tomar a arte teatral como uma ferramenta de luta, de tomada de consciência, de intervenção, feita por e para os explorados e oprimidos. É nesse espírito que a Antropofágica o retoma, convidando outros artistas. Teatro como reflexão crítica da realidade, e ferramenta de luta para a transformação social. Desde 2014, sua empreitada cresceu: nesse ano a Feira será realizada em quatro dias, de 4 a 7 de junho, contando com 40 grupos de teatro, intervenções musicais, poéticas, audiovisuais, que tomarão o espaço do Memorial da América Latina.

Esse evento, não parece exagero dizer, é histórico. Ele retoma um fio de continuidade com uma tradição de um teatro comprometido com a luta contra a exploração, e reúne uma verdadeira vanguarda artística que, ao longo das últimas décadas, se aglutinou ao redor do movimento de teatro de grupo de São Paulo, que vem incessantemente se desafiando estética e politicamente, estabelecendo laços com movimentos sociais e procurando novas formas de tornar sua arte significativa não apenas esteticamente, como politicamente. A Cia. Antropofágica, surgida em 2002, é parte pulsante dessa tradição, fazendo um teatro sólido e relevante, ao mesmo tempo em que não teme ser rotulado como “panfletário” aos olhos de uma crítica domesticada e domesticante.

A nova tradição das Feiras Antropofágicas de Opinião, que esse ano expressa uma forte consolidação, pode ser a marca de um passo à frente, a decisão de artistas que podem, com o ressurgir do movimento de massas no Brasil, tomar para si a possibilidade de se ligar à vanguarda da classe trabalhadora que saia à luta. Mas isso, é claro, ainda é uma possibilidade apenas, pois, da mesma maneira que essa nova tradição teatral, os passos de luta dos trabalhadores estão se dando de maneira forte, mas ainda incipiente. É necessário que esses caminhos se cruzem, e para isso esse teatro precisa estar cada vez mais ligado aos trabalhadores.

Para aqueles que querem fazer parte desse desafio, recomendamos comparecer à II Feira Antropofágica de Opinião.

Serviço:

O Que: II Feira Antropofágica de Opinião
Quando: 04 a 07 de junho, 14h às 22h
Onde: Memorial da América Latina (Estação Barra Funda do Metrô)
Quanto: Gratuito
Capacidade: 240 pessoas (público rotativo

Release completo e Programação no site: http://antropofagica.com/FeiraII.html

COMPANHIA ANTROPOFÁGICA
Espaço Pyndorama
Rua Turiassu, 481, Perdizes – São Paulo
(Próximo ao metrô Barra Funda)
Informações: (11) 3871-0373 ou (11) 9.9269-0189




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