Sociedade

COMISSÃO DA VERDADE DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

VÍDEO: Um fim de festa melancólico

Gilson Dantas

Brasília

sábado 25 de abril de 2015| Edição do dia

Nesta semana a Comissão da Verdade da UnB, tributária da Comissão Nacional da Verdade (CNV), encerrou formalmente seus trabalhos, sob a forma de relatório, graças ao empenho de um núcleo de professores e colaboradores ao longo desses anos. O mérito do trabalho está em ter ouvido várias vítimas da repressão, em especial dos anos de chumbo na UnB, inclusive nosso depoimento, na condição de ex-preso político e vítima do terror de Estado como dirigente estudantil naquela Universidade em 1970. O relatório exibe dados eloquentes sobre as várias invasões da UnB, e colheu 45 depoimentos em relação a torturas, desaparecimentos e a infiltração, de cima a baixo, do aparelho universitário pelas forças de espionagem e repressão da ditadura. Toda essa denúncia da truculência e crimes de Estado, embora tardia (levada adiante quase meio século depois) é de inegável mérito.

No entanto, uma comissão que nasce amarrada à lei da impunidade, lei que anistia torturadores e seus mandantes, e que trabalhou todo o tempo na perspectiva do “grande perdão” como disse um ex-reitor nesse ato de encerramento, evidentemente tem que ser criticada. Sua direção burocrática concluiu em clima de cerimonial na base do “não podemos pretender ter função policial”(nas palavras de um dos fundadores da UnB) tecendo loas ao estrito memorialismo e fazendo “recomendações” ao governo para que não tenhamos “ditadura nunca mais”. O mesmo governo que se recusa a promover o debate público nacional contra o terror de Estado - como se este fosse coisa do passado – e tenta ficar bem com essas comissões limitadas e confinadas aos ambientes oficiais.

A ninguém ocorreu clamar por punição e denúncia pública dos torturadores e seus mandantes civis, pelo fim da lei da impunidade com base em um grande debate público a partir do ativismo estudantil e social. É como se a aquela comissão, refém do Estado, do mesmo estado de uma democracia degrada que segue executando terrorismo contra pobres e negros nas periferias, nas penitenciárias, quisesse encerrar e jogar para o esquecimento a “batata quente” de um debate que se voltaria, certamente, contra seus limites. Emoldurada por discursos burocráticos, de democracia genérica, a comissão da reitoria só deu voz aos personagens que reforçam essa sua política chapa-branca de terminar “perdoando aos torturadores” nos marcos de um palavreado antiditadura.

Ou seja, o torturador fica impune, nos limitemos ao culto à memória já que não podemos atiçar – nas palavras de um deles - os militares e a direita. A comissão já cumpre seu dever ao ouvir os depoimentos e recomendar coisas para a presidente Dilma. E ponto.

Ora, em primeiro lugar isso é uma total afronta aos assassinados, mutilados, torturados pela ditadura militar. Como combatente dos anos de chumbo, estou convencido de que toda uma ala da juventude combativa sobre a qual desabou a fúria de classe da ditadura militar, muito mais do que ser lembrada gostaria de que o nosso combate de então tivesse continuidade hoje: memória e justiça; memoria e atualização do combate contra a violência e a repressão do mesmo Estado, que segue de pé, agora em uma "democracia degradada" e ainda com seus funcionários fuzilando crianças e donas de casa nos bairros pobres e ocupando o Haiti para combater negros pobres nas favelas de lá. Ou criminalizando movimentos sociais: o Brasil é campeão mundial de assassinatos de ambientalistas, por exemplo; e no campo não cessam os assassinatos de companheiros/as que lutam pela terra.

Criticamos desde já toda comissão dita da “verdade” que contribuía para embelezar o governo e seu Estado repressor sob a cortina de fumaça de “lembrar das vítimas da ditadura”. Sou vítima e quero ser lembrado através dos novos combates contra um velho problema histórico no nosso país, pelo qual a fração combativa e sonhadora da nossa juventude de época se levantou, lutou e pagou seu preço.

O resto é biombo para fraseologia anti-tortura, declarações de boas intenções etc que cumprem, ao final e ao cabo, o papel inglório de funcionar como ala progressista de um governo que reprime mobilizações de rua e que baseia sua economia no trabalho semi-escravo (13 milhões de terceirizados na gestão lulo-dilmista) e que se lança a novos ataques anti-democráticos contra a classe trabalhadora.

*Gilson Dantas é médico, militante setentista e ex-preso político da ditadura.




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