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Coluna | Unidade de ação com a direita?

Um dos principais debates que percorre a esquerda nacional é quais seriam os limites de princípio para marchar lado a lado com a direita tradicional como o PSDB. Para algumas correntes, entretanto, não há limite algum.

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

quarta-feira 21 de julho | Edição do dia

A entrada de Jair Bolsonaro no governo em 2018 através de eleições manipuladas pelo judiciário brasileiro com a retirada do candidato mais popular naquele momento, que era Lula, recolocou as discussões sobre qual a tática para enfrentar a extrema-direita. O PT que abriu caminho ao golpe institucional de 2016 fortalecendo em seus governos o agronegócio, os militares, a bancada evangélica e o judiciário, quatro pilares do golpe, tampouco organizou uma luta efetiva diante da ofensiva da direita: os sindicatos filiados a CUT não protagonizaram uma organização de base para enfrentar o projeto de descarregar a crise sobre nossas costas.

O resultado dessa política foi abrir espaço não somente para a direita, mas também para a extrema-direita. E este caminho pavimentado pelo próprio PT contou com a aliança com figuras emblemáticas da direita como Michel Temer do PMDB, histórico partido fisiológico ou então o Ministro da Economia do segundo mandato de Dilma Joaquim Levy, que entrou para coordenar a implementação de um plano de ajustes ainda tímido para os interesses capitalistas mas já o suficiente para mostrar que o PT está disposto a atacar quando governa. A questão é que agora, no terceiro ano de um governo reacionário, o PT quer convencer que o caminho para enfrentar esse governo seria se aliando justamente com a direita que protagonizou o golpe institucional.

Bom, essa política vinda do PT não é novidade. Mas é preciso apontar que grande parte da esquerda hoje no Brasil, em nome de um suposto enfrentamento a Bolsonaro, faz todo tipo de malabarismo teórico para justificar a aliança com a direita. E o conceito utilizado em geral aqui é a “frente única”. A tática da frente única operária, para os marxistas revolucionários, consiste em batalhar para unificar, por objetivos práticos de ação, no terreno da luta de classes, os segmentos politicamente heterogêneos da classe operária (em outras palavras, como dizia Trótski, unificar o conjunto da classe operária contra o conjunto da classe burguesa, golpeando-a com um só punho). Colocando em nossos termos atuais, por exemplo, batalhar para que os sindicatos organizem uma luta unificada de toda a classe sob o critério de “golpear juntos, marchar separados”, ou seja, ainda reconhecendo a diferença em termos de programas e posições políticas (“marchar separados”), unificar a classe para enfrentar os ataques dos governos e do capital (“golpear juntos”). Essa tática é utilizada pelos marxistas revolucionários desde os primeiros congressos da III Internacional, dirigidos por Lênin e Trótski, como parte de aumentar a influência dos revolucionários, em detrimento das burocracias operárias reformistas, entre a base de trabalhadores que ainda tem ilusão nestas direções.

Hoje, no Brasil de Bolsonaro, a utilização dessa tática é de vida ou morte. Porém não é possível colocar como parte da tática de frente única operária qualquer tipo de unidade com qualquer setor. A manutenção da independência de classe como um princípio é decisivo como parte de impulsionar este tipo de tática, e é por isso que, por exemplo, a aceitação ou defesa do PSDB em atos contra Bolsonaro não é parte da tática de frente única operária. É constrangedor ser obrigado a dizer uma obviedade como essa, não tanto a stalinistas como o PCB e a UP - que sempre se adaptam às “alas progressistas” da burguesia, segundo sua concepção conservadora e oportunista - mas também a correntes que reivindicam o trotskismo. Eis que, por exemplo no caso da Resistência de Valério Arcary, corrente do PSOL, o termo “frente única” vem acompanhado da palavra “esquerda”. A comunhão de dirigentes burocráticos dos sindicatos, junto com o PT e organizações de esquerda em reuniões fechadas sem nenhum tipo de organização de base é chamada de “Frente Única de Esquerda” (o que se torna mais ridícula quando lembramos que, sempre que partidos burgueses como Rede, PSB, PDT ou mesmo PSDB aceitam participar de eventos superestruturais, são incluídos gratamente pela Resistência na “Frente de Esquerda”). É preciso dizer, também, que isso não tem nada a ver com a tática de “frente única operária”, que nunca significou mover as direções em reuniões fechadas e sim em obrigar as direções a apresentar um plano de luta que permita que os trabalhadores entrem em ação. A tática da frente única não é uma unidade por “cima” entre direções e figuras, é unir a nossa classe por baixo, incentivando a auto-organização... E que as necessárias reuniões e chamados às direções oficiais se façam unicamente com esse objetivo e essa condição.

Uma outra maneira, também de vulgarização da tática da frente única operária é utilizada pelo PSTU que frequentemente em seus editoriais reafirma, com certo orgulho, que contra Bolsonaro é “unidade com deus e o diabo”, é “unidade de ação” (inclusive com o PSDB, que defendem nos atos). Usam o termo “unidade de ação” para justificar que para derrotar Bolsonaro não tem nenhum problema dividir palanque com Joice Hasselmann (como se a burguesia fosse uma classe inexperiente, que entrasse em “frentes de ação” que se opusessem a seus interesses). A unidade de ação pela qual sempre batalharam os marxistas é com as organizações de massas do movimento operário, não com burgueses e suas organizações. Nada também de muito novo vindo de uma corrente que diante do golpe institucional chegou a debater a participação ou não nas manifestações verde-amarelo na FIESP. Aqui também obviamente não se trata da frente única operária, conforme a tradição do marxismo revolucionário.

No enfrentamento a Bolsonaro, muitas situações novas podem estar colocadas que exijam dos marxistas afiar as armas da crítica para pensar os novos desafios da luta política atual. Em nossa visão, a primeira delas é analisar o conjunto do regime, e não apenas o governo. Se assim fizermos ficará claro que nossos inimigos são Bolsonaro-Mourão e também todas as instituições do regime que foram pilares do golpe institucional como o Congresso Nacional e o judiciário, com destaque ao STF, além dos militares. Os governadores que hoje posam de opositores a Bolsonaro também sempre estiveram sedentos para aumentar as reformas e ataques contra os trabalhadores e o povo pobre, tendo até mesmo os governadores do PT aprovado nos estados que governam a reforma da previdência. Mas justamente nesse caminho é preciso ter clareza de que a amplitude da nossa luta não depende de ver na direita um aliado, os mesmos que hoje questionam Bolsonaro porque estão preocupados em quem pode atacar melhor. A amplitude da nossa luta tem a ver com a única aliança potente, em primeiro lugar a unificação da classe trabalhadora, hoje fragmentada em categorias, entre efetivos e terceirizados, em diferentes ramos, por estados.. essa classe precisa estar unificada como uma força única, entrando em cena de forma auto-organizada e com uma aliança explosiva com a juventude, as mulheres, os negros, índigenas e LGBT´s.

Essa força em ação é a que poderá derrotar Bolsonaro-Mourão e todo o regime do golpe institucional. E em uma luta unificada assim não haverá espaço para a direita e os golpistas porque uma luta assim colocaria em confronto os interesses inconciliáveis entre os que querem tirar Bolsonaro do poder, inclusive com impeachment, para garantir os ataques e reformas e os que querem tirar Bolsonaro do poder para derrotar todos os ataques e reformas impondo pela luta uma nova Constituinte, livre e soberana, através dos métodos da nossa classe como seria uma greve geral.




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