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UnB, Ensino Remoto e pandemia: uma visão crítica

Esse texto foi pensado a partir da Roda de Conversa Virtual - UnB, Ensino Remoto e pandemia: uma visão crítica - atividade da Calourada da Juventude Faísca Anticapitalista e Revolucionária. Um ponto de partida para pensar criticamente a UnB e qual universidade queremos para o futuro.

sexta-feira 5 de fevereiro | Edição do dia

A UnB, fundada em 1962, é hoje uma das melhores universidades da América Latina. Possui referência, inclusive internacional, em áreas como Relações Internacionais, Ciências Sociais, Matemática, Geologia, entre outros. Trata-se de um gigantesco potencial de pesquisa, ensino e extensão - o maior do centro-oeste brasileiro, no centro do poder político do país.

Diante da pandemia da COVID-19, pesquisadores da UnB construíram diversos projetos com o intuito de combate ao vírus, como desenvolvimento de potenciais substâncias que previnem a doença, máscaras com capacidade de matar o vírus em sua superfície, fora os supercongeladores que a universidade abriga para armazenamento de vacinas.

A questão é: mesmo em uma universidade com tamanho potencial, coexistem dentro dela contradições gritantes.

A começar pelo Ensino Remoto excludente, precarizador do trabalho do professor e do ensino, implementado de forma autoritária pelas reitorias, sem diálogo com a comunidade acadêmica, em todo país - e aqui não foi diferente. Houve então o atraso de 1 semestre, o que fará com que esse ano os estudantes tenham que arcar com 3 semestres em apenas 1 ano.

É nessa situação que os calouros entram na UnB: perdidos no Ensino Remoto. Fora que seus próprios veteranos nunca nem tiveram a possibilidade de estudar e conviver na UnB. Mas o buraco é mais embaixo.

O caos nas matrículas nesse semestre devido ao SIGAA, um sistema burocrático que estimula a competição individual típica da ideologia burguesa e mercantil do capitalismo, escancarou uma grande contradição: a universidade não permite nem sequer o aluno se formar propriamente, escolher as matérias de sua preferência; os estudantes querem mais pluralidade em sua formação, mas isso é negado - apesar do projeto da UnB supostamente ter sido pensado para isso. Afinal, quem não saiu do fluxo na pandemia?

A situação fica ainda pior se formos falar dos estudantes da assistência estudantil. São sistemáticos os ataques à juventude mais precarizada, negra e periférica por parte de Bolsonaro, mas também de todo o regime do golpe institucional do novo presidente da Câmara e representante do centrão, Arthur Lira, do demagogo Dória, de Ibaneis, do STF - todos apoiaram as reformas trabalhista, da previdência, a lei do teto de gastos. Estão todos juntos para descarregar a crise nas costas da classe trabalhadora e da juventude.

Essa situação se manifesta na falta de verbas da UnB: cerca de 3 mil estudantes, hoje, não receberam o auxílio alimentação de fevereiro - e não tem perspectivas de receber. Fora o caos da internet, da falta de água e luz na Casa do Estudante (CEU). É claro que, no entanto, a reitora Márcia Abrahão continua seu projeto de aplicar os cortes do governo - nunca sabe explicar porque nunca falta dinheiro para as empresas terceirizadas obrigarem as terceirizadas (em sua maioria mulheres negras) a trabalharem durante toda a pandemia sem sequer direito à EPIs e, agora, sem nenhuma perspectiva de quando serão vacinadas (inclusive as do HUB).

Estamos numa situação de crise econômica e sanitária: é interessante para a burguesia formar o pior possível (ou não formar) estudantes, pois isso gera mais força de trabalho precário, menos custos para o patrão e mais jovens que não conseguem permanecer na universidade - tem que escolher entre estudar ou trabalhar, ganhar o mínimo para ajudar a sustentar sua família. Isso está totalmente alinhado com os planos e ataques do ultraneoliberal Bolsonaro e da reitora Márcia Abrahão, aplicadora desses ataques na UnB.

Isso nos leva a uma pergunta: porque, diante de tanto conhecimento acumulado em uma das melhores universidades do país essas contradições permanecem?

A quem serve o conhecimento na UnB?


Imagem do ICC, prédio central do Campus Darcy Ribeiro | Fonte: Metrópoles

Já percebemos que o conhecimento na UnB não está à serviço dos estudantes, professores e trabalhadores da universidade. O conhecimento nas universidades no capitalismo é protocolar e burocrático, se destina a criar alguns profissionais de elite, sem desenvolver senso crítico e político. Mas o mais importante de tudo: o conhecimento da UnB não está servindo às necessidades da classe trabalhadora e do povo pobre do DF e entorno. Isso ocorre porque, justamente, tudo está organizado a partir das necessidades do lucro e não das pessoas.

Trata-se de um caráter mercadológico da educação, cada vez mais incentivado e endossado por esse regime podre - é a funcionalidade política que as universidades cumprem para a burguesia. Exemplo disso são as fundações de apoio à pesquisa que destinam boa parte da produção de conhecimento à iniciativa privada, sem deixar nem sequer os direitos à universidade, como é o caso da FINATEC.

Como coloca Marx em O Capital, na sociedade capitalista existe uma separação entre trabalho manual e intelectual.

Por um lado, a UnB se alimenta de estudos massacrantes e desestimulantes, ainda mais no formato de Ensino Remoto, deteriorando mais e mais a saúde mental dos estudantes. Isso tudo é pior ainda para os estudantes precarizados, LGBTs, negros e mulheres. Forja-se jovens passivisados e não críticos, pouco politizados, sem esperança no futuro. É tudo o que a burguesia mais tem interesse: apagar a chama da juventude.

Por outro, a UnB sobrevive do trabalho precário das terceirizadas, sendo elas sempre quem pagam primeiro a conta da crise, junto dos estudantes mais precarizados.

Nesse sentido, a UnB é um reflexo da sociedade de classes no capitalismo.

Mas porque as coisas são assim?

Estamos no regime do golpe institucional, este que foi imposto para aplicar os ataques com mais força à classe trabalhadora e à juventude - com mais força do que o PT já havia feito. Um regime que tem como Bolsonaro sua figura mais nefasta, mas que não se reduz à ele: o militar Mourão, o autoritário STF, o centrão herdeiro da ditadura no Congresso, os governadores demagogos e super-ricos como Dória e Ibaneis.

A crise econômica que perdura desde 2008 - e que o capitalismo não conseguiu se recuperar até hoje - acentuada agora com o coronavírus, revela o potencial das universidades se estas se colocam a serviço da classe trabalhadora e de toda população. Mas também demonstra que elas estão sendo usadas pelos empresários e governos autoritários para avançar com o projeto golpista de forma ainda mais profunda contra a educação superior pública em nosso país. Exemplo disso é uma UnB sucateada onde faltou até papel higiênico por vários semestres antes mesmo da pandemia.

A Reitoria, por sua vez, é a aplicadora histórica dos ataques dentro da universidade, representa os interesses da burguesia dentro da universidade - é um aparelho de hegemonia burguesa, como bem diria Gramsci. Prova disso: demissão de mais de 500 terceirizados em 2018; terceirizados demitidos na pandemia e obrigados a trabalhar durante toda ela; aplicou o Ensino Remoto de forma autoritária e sem discussão com a comunidade acadêmica; perpetua a lógica apresentada acima de universidade. Enfim, são exemplos até demais.

Fora isso, ela não é eleita. Pois é. Apesar da consulta à comunidade acadêmica, quem decide mesmo quem governa a universidade é o CONSUNI - uma meia dúzia de burocratas - que mandam uma lista tríplice para o presidente da república decidir quem será reitor! Exato. Foi Bolsonaro e a burocracia universitária quem escolheu Márcia.

O problema, na realidade, é o reitorado de forma geral. O Estatuto e regimento geral da UnB atual, está em boa medida no mesmo molde desde a lei da criação da UnB, que é de 1962. A ditadura manteve as coisas como eram. O projeto de Darcy Ribeiro - ministro de Jango na época do golpe militar - era antidemocrático desde a origem. Funciona na democracia, funciona na ditadura. Tanto é que o estatuto e o regimento que estão vigentes foram aprovados anos após o fim da ditadura, ratificando as mesmas regras de sempre.

Precisamos de outro modelo de universidade, um que seja radicalmente oposto ao atual.

Qual UnB queremos, então?


Estudantes aprovam greve em 2012 | Fonte: G1

Nós da Faísca, por outro lado, nos colocamos como defensores de uma UnB com democracia universitária, organizada independentemente da Reitoria - com representantes eleitos desde cada salas de aulas, com CAs e DCE como instrumento de luta, que possam ter espaços de debates e decisões sobre os problemas e os rumos da universidade.

Defendemos um governo tripartite - estudantes, professores e trabalhadores - em ruptura com a estrutura de poder vigente (o Reitorado). Só assim, junto dos trabalhadores e professores, poderemos ter de fato uma UnB que se ligue às demandas da cidade, do povo pobre das cidades satélites e dos setores mais oprimidos.

Veja também: Reitoria na UNB: o que está por trás da Consulta e da estrutura de poder?

Dessa forma, a prioridade número 1 da UnB hoje seria a de combate a COVID-19. Não caberia nessa equação o excludente Ensino Remoto. Ao contrário, por outro lado, da volta das aulas presenciais, a UnB deveria estar colocando todo o ensino, pesquisa e extensão e a produção de conhecimento e tecnologia para a resolução dos grandes problemas gerados pelo capitalismo hoje. O combate ao vírus, a disponibilização universal da vacina são problemas de imediata atenção e urgência diante de um regime genocida.

Defendemos, portanto, a auto-organização dos três setores da universidade para, a partir da aliança com a classe trabalhadora do DF e entorno, construir um projeto de superação desse sistema podre e decadente.

Defendemos uma UnB inclusiva, com ensino público universal, livre, gratuito e de qualidade. Somos pelo fim do filtro racista do vestibular. Todos têm direito à educação! Por uma universidade que não explore o trabalho precário da terceirização - pela efetivação sem concurso público de todos os terceirizados - e sem a venda do conhecimento produzido para a iniciativa privada.

O DCE como órgão máximo de representação estudantil deveria estar preocupado em organizar os estudantes amplamente, porém a atual gestão - a frente ampla do PT, Levante, PCdoB, PCB, PSOL e UP - não está colocando isso na ordem do dia. É necessário que o DCE, representante de mais de 30 mil estudantes, coloque toda sua força na convocação do Comitê UnB pela Vacinação, utilizando-se de seus canais de comunicação para sistematicamente chamar os estudantes e mobilizar os CAs a fazerem o mesmo, junto também do SINTFUB e da ADUnB. É de responsabilidade das gestões das entidades, as direções políticas, organizarem os estudantes, aliados aos trabalhadores, para resistir.

O DCE precisa ser uma verdadeira ferramenta de combate, não para nos colocar numa espera passiva, esperando que os políticos burgueses resolvam a crise sanitária, sem apontar uma perspectiva alternativa, rompendo com a burocracia universitária e a estratégia conciliadora da majoritária da UNE (PT e PCdoB).

Como fazer isso?

A esquerda de hoje não se coloca à altura de uma resposta a todas essas questões - expressão disso é o DCE da UnB atual, sem falar das antigas gestões de direita que foram ainda piores.

É preciso retomar um forte movimento estudantil combativo, subversivo e pró-operário, resgatar a fúria estudantil aliada à classe trabalhadora estudantes junto dos trabalhadores - como foi na ditadura militar no Brasil (na própria UnB inclusive), no Maio Francês de 68.


Estudantes da UnB desafiam o regime militar com a greve estudantil de 1977 | Fonte: Memorial da Democracia

Nós estudantes temos um papel político importantíssimo de amplificador de todas essas contradições geradas pelo capitalismo e é por isso que nós precisamos retomar nossas entidades como instrumentos de luta, conformando um polo-antiburocrático que se organize e denuncie todas essas mazelas.

É isso o que nós da Faísca Anticapitalista e Revolucionária defendemos. Um exemplo disso é a atuação dos CAELL (Centro Acadêmico de Letras) e CAPPF (Centro Acadêmico de Pedagogia) na USP onde somos gestão e estamos ativamente conformando uma unidade com a paralisação das e dos trabalhadores do HU da USP até que todos os trabalhadores (efetivos e terceirizados) sejam vacinados.

Leia mais: Trabalhadoras do HU da USP exigem vacinações para todos e contra as punições

Esse é o caminho que o movimento estudantil deveria seguir também na UnB, utilizando-se de espaços como o Comitê UnB pela Vacinação para lutar pela disponibilização universal da vacina no DF e entorno, começando por uma ampla campanha de mobilização dos estudantes, professores, técnicos e terceirizados, para que todos os trabalhadores linha de frente da UnB - terceirizadas, trabalhadores do HUB - sejam imediatamente vacinados. Essa é uma luta que só será efetivada pela nossa mobilização, de forma independente desse governo negacionista de Bolsonaro e Mourão, mas também da ingerência do regime do golpe e Ibaneis. É uma questão de salvar vidas, de lutar pelos direitos mínimos necessários das e dos trabalhadores.

Veja as propostas da Faísca no Comitê UnB pela vacinação aqui.

Nesse sentido, convidamos todos a seguirem debatendo e acompanhando a Juventude Faísca!

Para entrar em contato com a Faísca da UnB, escreva para: [email protected]




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