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Opinião | Uma juventude subversiva é uma juventude trotskista

Esse texto é uma breve contribuição rumo à plenária nacional da Juventude Faísca Anticapitalista e Revolucionária que acontecerá esse mês. Escrevemos e convidamos todos es jovens trabalhadores, negras e negros, LGBTQIA+ e estudantes do país que não aguentam mais a miséria capitalista e procuram uma alternativa para virar a mesa em favor da nossa classe, que querem batalhar por uma vida que valha a pena ser vivida - convidamos todes para que contribuam com esse debate

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

Luiza EineckEstudante de Serviço Social na UnB

domingo 10 de outubro | Edição do dia

A juventude da Quarta Internacional irá sacudir as organizações rotinizadas pelo sindicalismo, stalinismo e social-democracia, apostando que uma nova geração de jovens trabalhadores desempenhará um papel fundamental no despertar desse gigante que abalará a terra.

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Vivemos em tempos reacionários no Brasil. Os capitalistas e seus capachos como Bolsonaro, Mourão e os militares querem convencer a juventude que nosso futuro é pedalar por 14 horas em cima de uma bike com uma bag nas costas e nunca entrar na universidade. Damares e as igrejas evangélicas fazem de tudo para controlar o corpo das mulheres e vomitar ódio às LGBTQIA+. O agronegócio promove o aquecimento global e destruição ambiental do Cerrado, da Amazônia e tantos outros, enquanto extermina os povos indígenas e quilombolas. Reina o obscurantismo na ciência e na cultura, com Bolsonaro e o Congresso aprovando cortes nas universidades, sucateando a permanência e a pesquisa, e dificultando ainda mais o acesso.

Essa situação, fruto do golpe institucional de 2016, possibilitado pela conciliação de classe do PT, é parte da decadência histórica do capitalismo a nível internacional, reafirmada ainda mais na pandemia. Fome, desemprego e precarização do trabalho: a crise atual golpeou a classe operária, os setores mais oprimidos e em particular a juventude - não à toa é ela quem está no desemprego, na informalidade ou em postos hiperprecários de trabalho. Enquanto isso, as universidades criam conhecimentos e tecnologias das mais avançadas possíveis, mas que servem à propriedade privada capitalista que ataca os operários e a juventude, ao mesmo tempo em que barram o acesso de milhões de jovens com o filtro racista do vestibular e cortam a permanência.

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Porém toda essa miséria não surge sem resistência. Foram os estudantes secundaristas que inauguraram a rebelião chilena de 2019, filhos da classe operária, perderam seus olhos e foram presos pelo regime herdeiro do pinochetismo e até hoje não foram libertos; foram os jovens aqueles que estiveram na linha de frente contra os ataques neoliberais e a polícia racista na Colômbia; as jovens negras e negros que eram as mais abnegadas lutadoras contra a opressão racista no Black Lives Matter; além dos diversos processos de luta como a Primavera Árabe, a revolta dos indignados do Estado Espanhol, a luta do movimento de mulheres e as lutas em defesa do meio ambiente. Somos parte da geração que teve sua juventude atravessada por essa crise, mas que não carrega as derrotas que os mais velhos carregam, não temos nada a perder, precisamos mostrar para todos que o capitalismo é um sistema irracional e que precisa ser destruído.

Revolução das filhas: uma jovem geração de mulheres, de 14, 15 anos, convenceu suas mães, avós, tias, de que basta de mortes por abortos clandestinos. Elas foram parte fundamental da luta que culminou na maré verde feminista na Argentina e também da conquista do direito ao aborto no país.

É nesse marco que queremos discutir: qual é o movimento estudantil que precisamos? Frente a toda essa miséria é urgente subverter a ordem, atacar a raiz do problema e revolucionar a sociedade, os costumes, a moral - tudo. O que é uma juventude subversiva no Brasil de Bolsonaro, Mourão e do regime do golpe institucional de 2016?

Acreditamos que ser subversivo possui um caráter estratégico bem mais profundo do que apenas uma palavra clichê. Isso significa questionar o capitalismo e combatê-lo com uma estratégia revolucionária comunista, internacionalista e pró-operária.

Nós jovens estudantes e trabalhadores temos que nos preparar para não deixar que os capitalistas nos imponham mais desemprego, precariedade e miséria. E, nesse sentido, batalhar para que em um momento reacionário e de grandes ataques como o que vivemos, quebrar a cabeça para conseguir transmitir o mais avançado e mais profundo objetivo (e subversivo) para essa juventude - isso, para nós, acreditamos ser principalmente o legado estratégico, teórico e programático do que foi a continuidade revolucionária do marxismo e do socialismo proletário, com Leon Trótski e a IV Internacional.

A subversão é questionar na raiz a estrutura de poder e para que servem as universidades no capitalismo. Não por acaso, o momento de maior influência da UNE era quando ela questionava a universidade e a sociedade burguesa, diferente de hoje - sendo ela dirigida por uma burocracia que separa o movimento operário do estudantil e serve como polícia política dentro das nossas entidades, como faz a majoritária composta pela UJS, PT e Levante. O que os comunistas querem é o contrário: queremos convencer cada estudante das universidades de todo o país de que a ciência, a pesquisa, ensino e extensão devem servir não para fazer como na Unicamp ao criar empresas como iFood que irão precarizar o trabalho de milhares de jovens negros e periféricos, ou dar rios de dinheiro para o agronegócio, além de formar os próximos e mais destacados quadros da burguesia. Queremos subverter essa ordem: por uma universidade que atenda aos interesses da classe operária e dos mais oprimidos! Pelo fim do filtro racista do vestibular e a estatização de todas as universidades privadas; pelo fim das Reitorias - cadeias de transmissão do Estado burguês e dos interesses capitalistas - por um governo dos três setores - estudantes, professores e demais trabalhadores - proporcional e democrático; pelo fim da terceirização nas universidades e efetivação sem necessidade de concurso público de todas as terceirizadas.

A subversão é a aliança operário-estudantil! Quando a maior parte do Movimento Estudantil acreditava que dizer ‘Abaixo a Ditadura’ atrairia ainda mais repressão e recrudescimento, numa repetição da onda de violência e morte de 1968, a Libelu - tendência estudantil trotskista - discordava, procurando se ligar com o movimento operário e o restante da população oprimida, ainda que com seus limites. E é o que mais temem Bolsonaro, Mourão e os militares: um movimento estudantil unificado com a classe operária em luta. Foi isso o que fez a ditadura militar tremer em 1968 com as barricadas estudantis em solidariedade às greves operárias de Osasco e de Contagem; foi isso que não deixou dormir os ditadores e o capital financeiro com os massivos atos e greves estudantis do final dos anos 70, verdadeiras caixas de ressonância do ascenso operário dos anos seguintes - o que realmente derrubou a ditadura.

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E por isso precisamos subverter a ordem, como Olavo Hansen, Edson Luis, Sidney Fix, Honestino Guimarães e a todos os mais de 434 mortos e desaparecidos da ditadura cívico-militar no Brasil - todos, apesar das diferenças e necessárias críticas políticas, são os fios de continuidade da luta estudantil e operária, daqueles que deram a vida para combater a opressão. E é essa moral que o movimento estudantil precisa ter em tempos de paralisia e desmoralização. A força de saber que se pode virar a mesa em favor de nossa classe.

A subversão é a busca de uma vida que valha a pena ser vivida, sem exploração, nem opressão de raça, gênero ou de quaisquer outros tipos; com a mais ampla liberdade artística, sexual e de gênero, e científica. Na qual vivamos em harmonia com a natureza e a humanidade possa pela primeira vez desfrutar o prazer de viver e se desenvolver em sua máxima potencialidade.

A subversão é uma juventude ousada e que não tem medo, que se arma com as armas da crítica do marxismo, disposta a ser linha de frente da luta de classes ao lado da classe operária. Que seja vanguarda de pensar as mais diversas facetas da liberdade; ser a mais entusiasta da arte e da cultura, de forma independente e crítica; que debate sobre os problemas da saúde mental que amarga a vida da juventude e da classe trabalhadora de conjunto, entendendo corpo e mente como um só e essas doenças como produtos também sociais; questionar a moral da “família tradicional brasileira”, os valores retrógrados que oprimem os mais jovens, as LGBTQIA+ e as mulheres.

Nesse momento de bastante paralisia do movimento estudantil e operário onde se intensificam contradições nesses diversos temas, temos que avançar em debater e nos ligar ao sentimento mais genuíno dessa juventude debatendo as contradições reais de suas vidas, e que pioraram na pandemia, para conseguir transmitir as grandes ideias revolucionárias que respondem a todos esses problemas; transmitir a moral revolucionária da classe operária e suas lições históricas mais profundas para revolucionar permanentemente a vida em todos os seus sentidos.

A subversão é uma juventude que não tem medo de errar, de viver suas próprias experiências e levar à frente a política partidária de forma crítica, lado a lado dos operários. É preciso disciplina e abnegação, além de paciência para aprender. Mas para formar quadros políticos do proletariado capazes de pensar por si mesmos e que sejam dirigentes revolucionários, é fundamental que a juventude desenvolva suas experiências de forma independente, avançando em comum com os companheiros mais velhos e com maior experiência. É como colocou Trótski em uma carta à Rose Karsner, dirigente do SWP em 1938:

Parece-me que os jovens se orientam com uma firmeza um tanto excessiva, que não sentem a sua independência e o seu direito, não só de obedecer, mas de cometer os próprios erros e estupidezes, sem deixar que essa prerrogativa seja exclusiva de nós, aqueles quem somos mais velhos (...) Nunca teremos um bom movimento estudantil se o privamos da possibilidade de um desenvolvimento independente.

Uma juventude subversiva é uma juventude trotskista , que é capaz de apresentar o mais avançado que há do marxismo revolucionário do nosso tempo: a revolução permanente. O marxismo revolucionário é a única teoria capaz de ser um instrumento do proletariado revolucionário internacional, uma ciência viva que surge junto do modo de produção capitalista e de seu coveiro, a classe operária. Foram nas batalhas da IV Internacional de Leon Trótski contra o nazismo, as burguesias democráticas e também o stalinismo, a traição burocrática da Revolução de Outubro, que se encontra a verdadeira continuação do bolchevismo e do leninismo.

A teoria da revolução permanente concebe que apenas o proletariado, a classe que tudo produz e tudo pode mudar, é que pode resolver as tarefas democráticas, por meio da ditadura do proletariado. Ou seja, o pleno direito ao aborto legal, seguro e gratuito; a reforma agrária radical; a demarcação de todas as terras indígenas; a plena igualdade salarial entre negros e brancos - todas as demandas democráticas mais elementares só podem ser conquistadas e asseguradas se a classe operária avança até o socialismo - o que só pode ser alcançado pela aliança do proletariado com os setores oprimidos, as mulheres, negros, LGBTQIA+, povos originários, camponeses pobres etc. Essa aliança revolucionária só é concebível sob a direção política da vanguarda proletária organizada em um partido leninista de combate.

A conquista do poder pelo proletariado não completa a revolução; limita-se a iniciá-la. A construção socialista só é concebível na base da luta de classes à escala nacional e internacional (...) O triunfo da revolução socialista é inconcebível nos limites nacionais. Uma das causas essenciais da crise da sociedade burguesa reside em que as forças produtivas por ela criadas não podem se conciliar com os limites do Estado nacional. De onde surgem as guerras imperialistas por um lado e a utopia dos Estado Unidos burgueses da Europa por outro. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e completa-se na arena mundial. Assim, a revolução socialista torna-se permanente num sentido novo e mais amplo do termo: só está acabado com o triunfo definitivo da nova sociedade sobre todo o nosso planeta.

Portanto, a subversão é ser internacionalista e anti-imperialista - confiar nas forças da classe operária internacional. Isso é o que disse Trótski em suas teses sobre a Revolução Permanente. Uma vida plena de sentido, na qual as forças produtivas a nível internacional estejam interligadas num mundo sem Estado, classes, exploração e opressão, uma sociedade de abundância e em harmonia com a natureza - o comunismo, a realização da revolução permanente, a vitória do socialismo e da elevação cultural e moral das massas. Por isso, a estratégia trotskista reside em um programa internacional socialista e de independência de classe, com a classe operária à frente, a única classe capaz de hegemonizar os outros setores da sociedade para revolucionar tudo.

Ainda que a classe trabalhadora esteja fragmentada, a crise capitalista abre novas possibilidades para o desenvolvimento da luta de classes, reatualiza a definição de crises, guerras e revoluções de Lenin como podemos notar nos últimos anos. As derrotas da classe trabalhadora brasileira, ainda que não foram derrotas estratégicas (físicas), nas últimas décadas de neoliberalismo, ou nos últimos anos com os profundos ataques, principalmente, desde o golpe institucional de 2016, ainda pesam na subjetividade de milhões de trabalhadores. Porém, uma nova geração também está se abrindo entre o proletariado. Uma geração que não carrega aquelas derrotas do passado e que pode renovar as forças que foram entorpecidas pela ação consciente das burocracias sindicais, estudantis e políticas. A faísca que pode incendiar a chama. Isso, hoje, mais do que nunca, significa defender intransigivelmente a revolução permanente.

“A IV Internacional dedica atenção e interesse excepcionais à jovem geração do proletariado. Toda a sua política visa inspirar os jovens com confiança em sua própria força e em seu futuro. Só o novo entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem garantir os primeiros triunfos da luta e só estes vão devolver o caminho revolucionário aos melhores elementos da velha geração. Sempre foi assim e assim será."

É o que diz Trótski no Programa de Transição, documento fundacional da IV Internacional. A dinâmica da luta de classe vem aumentando no último período, ainda que com processos bem incipientes e isolados e não unificados pela ação das burocracias. Mas que demonstram que ainda há um reserva de luta, onde com certeza irá irromper um processo mais profundo de luta de classes nos próximos anos. Lula quer ser parte de desviar o descontentamento de massas trabalhadoras e jovens contra Bolsonaro para dentro do regime, deixando intacto o projeto econômico do golpe e conciliando com os capitalistas que roubam nosso futuro. O capitalismo internacional não é o mesmo que os de seus primeiros governos, não é possível resolver a miséria em que estamos sendo jogados sem romper com o capitalismo. A esquerda de conjunto está em uma encruzilhada diante do reformismo petista.

Subversão é independência de classe, querer Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, sem confiar nos governadores, Congresso e judiciário que articularam o golpe institucional com o imperialismo e deram passagem para toda a crise atual. Esse é o debate que fazemos com a esquerda que confia em saídas institucionais como o impeachment - o que levaria o racista General Mourão ao poder -, sendo essa a consigna que justificaria a unidade de ação com a direita. O dia 2 de outubro foi exemplo disso, com a confluência entre os setores que compõem a Campanha Fora Bolsonaro (Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, PT, PCdoB, PSOL, UP, PCB, PSTU, PCO) com partidos burgueses e organizações da direita liberal. Os organizadores passaram toda a semana anunciando atos muito maiores que os anteriores por conta da “amplitude” de alianças - mas os atos foram menores!

Por isso, frente a todos os ataques, colocamos para o conjunto da esquerda socialista a necessidade de lutar contra o regime de conjunto, mas também de dialogar com as ilusões das massas na democracia burguesa. Defendemos, portanto, uma assembleia constituinte livre e soberana imposta pela luta - dissolvendo executivo, legislativo e judiciário, na qual os trabalhadores poderiam impor suas demandas democráticas, reverter as reformas e os ataques e mudar todas as regras do jogo, não só os jogadores. E é evidente que nos transcorrer dessa luta, os capitalistas não iriam permitir reverter todos os seus ataques, o que colocaria a necessidade para amplas camadas da população de se auto-organizar e avançar na luta por um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo.

Algo assim pode ser imposto pela luta, e para isso, é necessário uma unidade de combate e anti-burocrática na luta de classes. Mais do que nunca, é preciso uma juventude pró-operária disposta a ser linha de frente em cada universidade e local de trabalho conquistando mentes para a urgente necessidade de exigir das centrais sindicais, dirigidas pelo PT e os stalinistas do PCdoB, um plano de lutas nacional rumo a uma greve geral para derrubar Bolsonaro e Mourão. Para isso, é preciso buscar unidade da esquerda.

Afinal, apesar de nossas diferenças, reagrupar a vanguarda é ser subversivo - enfrentar o sectarismo para atuar em comum na luta de classes, batalhando pela unidade da esquerda com um programa classista, sem adaptações oportunistas ao PT, para que os capitalistas paguem pela crise.

O último Congresso do PSOL votou lamentavelmente uma subordinação política do partido ao PT. Os setores da oposição de esquerda do PSOL, ainda que programaticamente estejam unificados com a ala majoritária, questionam esta adaptação. Por outro lado, o PSTU e ativistas lançaram um chamado à construção de um Polo Socialista e Revolucionário que nós do MRT respondemos positivamente; da mesma forma, queremos debater também propostas e iniciativas de outras correntes, como o PCB que vem propondo a defesa de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora.

O desafio que está colocado parte de reagrupar a vanguarda socialista, avançando para construir um partido revolucionário da classe trabalhadora, uma necessidade histórica em tempos de crise que se prepare para momentos mais agudos da luta de classes. Para isso, precisamos de uma juventude subversiva, trotskista. Por isso, como parte de uma breve reflexão inicial convidamos todos os jovens a pensarem como construir essa juventude, pensando em como resolver os grandes desafios colocados para nossa época, tendo certeza que só os trotskistas podemos dar aos jovens um programa revolucionário, o direito a um futuro. O desafio é inspirar e conquistar esses jovens para esse programa.

Dê um futuro aos jovens, dê um futuro ao mundo!

“É por isso que a juventude se reunirá sob a bandeira daqueles que lhe trazem um futuro. Apenas a Quarta Internacional, porque representa os interesses históricos da única classe que pode reorganizar o mundo sobre novas bases, apenas os Bolcheviques-Leninistas pode prometer aos jovens um futuro no qual pode colocar suas habilidades em pleno uso.”




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