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ESQUERDA DIÁRIO IMPRESSO

Um regime repressivo na Turquia que visa acabar com a resistência operária e juvenil

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 3 de agosto de 2016| Edição do dia

Na noite do dia 20 de julho, o presidente ministro Recep Tayyip Erdogan anunciou um estado de emergência na Turquia, como resultado do golpe militar fracassado que deixou mais de 250 mortos e 1500 feridos. Aproveitando-se do repúdio popular à sangrenta trajetória de ditaduras militares no século XX, Erdogan lançou mão de medidas para incrementar o autoritarismo de seu regime político também reacionário.

Imediatamente depois da tentativa de golpe, o primeiro ministro, Binali Yildirim, informou que foram presos 3000 membros das Forças Armadas e de segurança, além de 2700 juízes e 9 membros do tribunal supremo que foram destituídos, todos suspeitos de ter organizado e formado parte da conspiração. 20 mil professores da rede pública foram exonerados de seus cargos por “incitarem a revolta”. Com o estado de emergência, os governadores poderão proibir livremente todas as manifestações, fechar associações, banir publicações e instalar o toque de recolher.

Erdogan assinalou a tentativa falida de golpe no dia 15 de julho como pretexto para endurecer a repressão interna a todos os opositores, principalmente à minoria curda e à juventude trabalhadora que encabeçou os protestos na Praça Taksim em 2013. E como a reação não tem fronteiras, indicou que sua “inspiração” foi o estado de emergência aplicado por Hollande na França (que o governo francês utilizou para reprimir o movimento contra a reforma trabalhista).

Paradoxalmente, portanto, o presidente turco está introduzindo um regime sumamente repressivo supostamente a serviço de “combater o golpe militar”, sobre a base de leis sancionadas pelos governos militares da década de 1980.

Como parte desta ofensiva, o governo ordenou o fechamento de 131 veículos de comunicação — entre eles 45 jornais, 23 rádios e 16 TVs — e emitiu ordem de prisão contra 47 jornalistas.

Estas medidas visam dificultar ao máximo a organização e a resistência da juventude e dos trabalhadores à crise econômica que golpeia o país, como as greves metalúrgicas e automotrizes de 2015. Mas nada indica que Erdogan conseguirá pacificar a Turquia.

O golpe fracassado na Turquia não é um acontecimento isolado. Os atentados terroristas na França; a crise aberta pelo Brexit; a emergência de partidos de extrema direita que disputam governos nos países centrais com uma mistura de xenofobia, racismo e demagogia nacionalista dirigida aos “perdedores” da globalização; o golpe institucional no Brasil: não parecem ser obra da casualidade, mas, com toda sua singularidade, a expressão de que a institucionalidade burguesa das últimas décadas está desmoronando depois de longos anos de crise capitalista, guerras e decadência da “ordem liberal” hegemonizada pela liderança norteamericana.

Isso abre a porta a fenômenos aberrantes, como Donald Trump nos Estados Unidos, a Frente Nacional da França e os populismos de extrema direita, e também ao Estado Islâmico e seus brutais métodos terroristas. Mas ao mesmo tempo cria as condições para uma eventual erupção vulcânica das massas trabalhadoras e populares e possibilidades de novas organizações revolucionárias.




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