Sociedade

TUBERCULOSE

Tuberculose mata mais que AIDS, ou como o capitalismo do século XXI ressuscitou a praga do século XIX

A doença que foi a praga do século XIX volta a se tornar uma das doenças que mais mata em todo o mundo. Apesar do discurso triunfante do capitalismo, do desenvolvimento de países periféricos, do avanço na urbanização no mundo e maior acesso a serviços médicos, do desenvolvimento de tecnologias, o retorno desta velha praga tem uma causa fundamental: o capitalismo.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sexta-feira 30 de outubro de 2015| Edição do dia

Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta quinta-feira, 29, apontam que a doença faz 1,5 milhão de vítimas por ano. Em 2014, a AIDS matou 1,2 milhão de pessoas. "A tuberculose agora divide a liderança do ranking com o HIV como os maiores responsáveis por mortes no mundo", indicou a OMS. No ano passado, a tuberculose matou 890 mil homens, 480 mil mulheres e 140 mil crianças. Dessas 1,5 milhão de vítimas, 400 mil haviam sido infectadas pela AIDS também.

Por ano, 9,6 milhões de novos casos de tuberculose são registrados: 54% deles estão na China, Índia, Indonésia, Nigéria e Paquistão. O Brasil continua entre os 22 países considerados de "alta incidência" da doença que juntos concentram 80% dos casos do mundo. O Brasil é o 17º colocado no ranking. Em 2014, 81 mil novos casos foram detectados.

Sub-detecção e falta de tratamento adequado

Um dos maiores desafios, segundo a OMS, é detectar todos os casos de tuberculose. Da estimativa de 9,6 milhões de pessoas que teriam sido infectadas em 2014, apenas 6 milhões foram informadas às autoridades nacionais. Isso significa que, pelo mundo, 37% dos casos não são diagnosticados ou não foram informados ao sistema de saúde. "A qualidade do tratamento para essas pessoas é desconhecido", alertou a OMS. Outro problema é ainda a falta de tratamento para todos os infectados.

Para a entidade, porém, não se trata de falta de produtos. O maior desafio é financeiro. "O déficit nos recursos é o maior obstáculo", disse Winnie Mpanju-Shumbusho, especialista da OMS para doenças negligenciadas.

O buraco nas contas chega a US$ 1,4 bilhão, de um total de US$ 8 bilhões necessários para implementar uma estratégia para frear a doença. No lado da pesquisa, o déficit é de mais US$ 1,3 bilhão. Uma doença que atinge sobretudo trabalhadores e pobres não é atrativa para a indústria farmacêutica, como desenvolvemos mais abaixo.

Um mapa epidemiológico capitalista

Os países citados como maiores fontes de novos casos de tuberculose, tais como China, Índia, Indonésia, Nigéria e Paquistão, e a persistência do Brasil no topo do ranking, mostra como justamente aqueles países que passaram nos anos recentes por um aumento em sua população urbana que são a maior fonte de vítimas para a doença. Justamente os países que foram utilizados de fontes de mão de obra barata para o capitalismo, são justamente estes que mais concentram novos casos desta velha-nova praga.

No próprio Brasil uma das áreas de maior incidência desta doença “do passado industrial europeu” é a superpovoada Rocinha. Nesta favela há segundo a prefeitura do Rio, 372 casos para cada cem mil habitantes, enquanto no restante do país seriam aproximadamente 34 casos para cada cem mil habitantes. Esta desproporção escancara a relação da incidência desta doença com as condições de moradia e de vida.

Empregos precários, exposição a poluição industrial nos trabalhos e urbana, moradia precária são elementos que explicam a epidemiologia da doença.

Os trabalhadores, sobretudo os novos migrantes, sejam para a Rocinha ou novas cidades industriais da China, precisam se amontoar em lugares insalubres, pequenos, não arejados, facilitando a transmissão da bactéria de Koch que causa a doença.

Trabalhadores expostos a produtos químicos que são imunodepressores (benzeno, tolueno, entre vários outros derivados do petróleo), que realizam duplas jornadas de trabalho (e portanto dormem menos), e por outros motivos (como também ter AIDS sem tratamento adequado) que os levem a ter uma menor imunidade são mais expostos à bactéria.

O capitalismo que coloca os trabalhadores nestas condições de trabalho e nestes locais de moradia para garantir salários mais baratos, não arca com salários mais elevados que permitissem a reprodução da classe trabalhadora em dignas condições de moradia e saúde ceifa vidas.

Em pleno século XXI se reproduz um padrão urbano com a incidência endêmica da doença do século XIX.

A indústria farmacêutica e sua dupla culpa na tuberculose

Segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras, de 1963 a 2013 não houve nenhum lançamento em nenhum lugar do mundo de algum novo medicamento para tuberculose. Esta paralisia na pesquisa está relacionada com a menor lucratividade da indústria farmacêutica com esta doença que atinge principalmente trabalhadores, pobres e de países “periféricos”.

Diante deste “blecaute tecnológico”, segundo a mesma organização, o índice mundial de cura com a doença é baixíssimo, de somente 48%. Ou seja 52% não se curam!

Esta primeira culpa da indústria farmaceutica e dos governos se combina a uma segunda culpa.

Esta mesma indústria que não pesquisa novos medicamentos para esta bactéria incentiva médicos no mundo todo a receitarem indiscriminadamente antibióticos para qualquer doença. Deste modo estão criando “super-bactérias” que não reagem a antibióticos tradicionais. Por ano são registrados mais de 300 mil casos de “tuberculose multirresistente”, que é uma variante de super-bactéria desta doença, que não reage aos remédios tradicionais.

Como todo fenômeno social, a tuberculose, tem múltiplas determinações, e as que aqui foram expostas não “esgotam” o problema. Porém fornecem um mapa geral de onde esta se desenvolvendo esta epidemia e como ela se relaciona com o capitalismo. Com todo o desenvolvimento tecnológico, com toda a expansão deste modo de produção, derrubando todos os muros e muralhas da China, em sua maturidade em pleno século XXI vermos o ressurgir desta praga de dois séculos atrás. Assim, mostra-se mais uma vez a decadência histórica deste sistema baseado na exploração do homem pelo homem e na valorização do capital. Pela vida e saúde de nossa e futuras gerações o capitalismo precisa ser abolido a partir da luta revolucionária dos trabalhadores e sua tomada de todos meios de produção para organizar a sociedade de acordo com nossas necessidades, incluindo moradia, saúde, descanso e lazer e não aos do lucro.




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