Internacional

COMO COMBATER A DIREITA XENÓFOBA

Trump, Le Pen e o ’momento populista’ da direita xenófoba?

O ano de 2015, impregnado de experiências políticas e o rápido esgotamento das apostas do neoreformismo, não passou em branco para o populismo de direita, que somou força a seus interesses nas Américas e na Europa.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quarta-feira 16 de dezembro de 2015| Edição do dia

Ilustração: David Parkins

Organizações política da extrema direita, que por anos fizeram demagogia contra as “elites egoístas” incapazes de atender à população comum (como se não fizessem parte da mesma “casta”), hoje começam a se projetar politicamente com mais força depois de décadas, através do medo que inspiram na incapacidade dos governos de “proteger” os cidadãos de ameaças externas.

Como o artigo de capa do último número do The Economist (que traz a imagem de Trump, Marine Le Pen e o primeiro ministro húngaro Viktor Orban juntos), muitos meios se questionam sobre a possibilidade de impedir o triunfo da política anti-establishment e intolerante da extrema direita. Por razões nada progressistas: querem o livre mercado capitalista, deixar a União Europeia imperialista de pé atacando os direitos dos trabalhadores, assim como sustentar o decadente império norteamericano. Os trabalhadores podem questionar de outro viés, enxergando as razões desta emergência.

Os pequenos Trumps europeus

Nos Estados Unidos, depois que um casal – que disse ser seguidor do Estado Islâmico – assassinou 14 pessoas em San Barnardino na Califórnia, o candidato favorito ao posto Republicano, o reacionário Donald Trump, chamou um “total e completo fechamento” das fronteiras norteamericanas aos muçulmanos. Já havia proposto o fechamento de mesquitas e registro de todos os muçulmanos num banco de dados. Propostas não muito diferentes das de Marine Le Pen (Frente Nacional) na França, ou Viktor Orban, que desde julho está construindo uma barreira de arame farpado de 175 km que separará a Hungria dos imigrantes que chegam à Sérvia.

A onda de imigrantes oriundos da Síria e do Iraque, fruto da derrota das primaveras árabes e das barbaridades militares do imperialismo norteamericano e europeu no Oriente Médio que deram origem ao Estado Islâmico, foi o eixo de toda a política na Europa. Desde os atentados de janeiro na França (contra a redação do Charlie Hebdo e o mercado judeu) o crescimento político da extrema direita da Frente Nacional de Marine Le Pen seguiu contínuo, sustentando-se no racismo e na xenofobia inscrita na política do governo Hollande, que foi assimilando mais elementos do programa desta direita.

Esta “adoção da agenda Le Pen” se desenvolveu ao ponto de, após os atentados de 13 de novembro em Paris, Hollande instalar um estado de exceção que prorrogou por três meses, militarizando os bairros periféricos, dando buscas nas residências da população muçulmana e atacando as liberdades democráticas mais elementares, chegando a prender 300 manifestantes nas marchas contra a Cúpula do Clima (COP21).

Politicamente, este clima reacionário (cuja debilidade para o governo Hollande é não conseguir hegemonizar amplas camadas dos setores proletários e oprimidos) se expressou nas eleições regionais francesas. No primeiro turno eleitoral, a 6 de dezembro, a Frente Nacional ganhou a maior proporção de votos no país, com 28%. Embora tenha sido derrotada no segundo turno pela “frente republicana” orquestrada pelo Partido Socialista (em que retirava suas candidaturas e chamava a votar na direita tradicional de Sarkozy onde a Frente Nacional tivesse possibilidades de vencer), sem conseguir vencer em nenhuma das 13 regiões metropolitanas da França, Le Pen e a Frente Nacional seguem avançando. A Frente Nacional conseguiu obter mais de 350 vereadores regionais ao final do segundo turno, superando 40% em três regiões. Perde, sendo o “considerável vencedor”.

As mudanças no discurso populista de direita

Trump e Le Pen não estão sozinhos. O apoio ao populismo de direita nestes países é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. A crise de 2011 deu nova energia a esta demagogia extrema da “razão neoliberal”. Os próprios votos da Frente Nacional entre 2003 e 2011 eram irrisórios, começando a subir em 2012 depois da crise na Grécia (quando os discursos de Le Pen eram de que os franceses não deveriam pagar pela indolência grega, e a Grécia deveria ser expulsa do euro). A extrema direita de Geert Wilders na Holanda, que não teve êxito na campanha islamófoba durante a década de 2000, mudou a chave do discurso na mesma toada que Le Pen, contra o “resgate” da União Europeia à Grécia.

A crise migratória foi o momento oportuno para o populismo de direita reiniciar a campanha xenófoba sobre as bases do racismo institucional do bipartidarismo europeu em crise (socialdemocratas e liberais). Na Suécia e na Holanda partido anti-imigrantes estão na ponta das pesquisas eleitorais, partidos estes que estão no governo na Dinamarca e na Hungria. Fruto da repressão aos imigrantes dos Bálcãs e a exploração trabalhista pela que passam os refugiados árabes na Alemanha de Merkel, o partido de extrema direita Alternative für Deutschland (AfD) incrementou sua popularidade, de 6% a 11%.

Diferentemente, entretanto, do seu comportamento na década de 1990, estas formações são obrigadas a dialogar com o sentimento de proteção aos direitos do Estado de bem-estar: Marine Le Pen levanta demagogicamente um discurso “popular” de proteção do emprego, enquanto Wilders promete usar o dinheiro atribuído aos direitos dos refugiados à melhoria dos hospitais para a cura de pacientes holandeses com câncer.

O fortalecimento da direita é expressão do fracasso do neoreformismo

De fato, os resultados e atenção midiática conquistada pela extrema direita não mostram um “momento populista” destes setores, mas uma situação bem mais contraditória. Apoiaram-se em três fatores: 1) a agenda de direita levada adiante por socialdemocratas e liberais tanto internamente (aplicando os ajustes em meio à crise) quanto externamente (continuando as intervenções militares estrangeiras, como faz Hollande no melhor estilo neocon). 2) o fracasso das alternativas neoreformistas encabeçadas pelo Syriza na Grécia, que emergiram fruto da derrota ou desvio de processos operários como as greves gerais na Grécia e o movimento de juventude no Estado espanhol. 3) a ausência de uma esquerda revolucionária fortemente instalada nos principais centros operários da Europa, que fosse capaz de dar respostas radicais à crise econômica e mostrasse.

Especialmente, este fortalecimento conjuntural da extrema direita é a pedra tumular sobre os fenômenos reformistas europeus, variantes impotentes como Syriza e Podemos, céticos das forças da classe operária. O Syriza, em poucos meses, passou do discurso de “terminar com a austeridade sem tocar no capitalismo” a ser o principal agente da austeridade na Grécia, pactuando um acordo de submissão neocolonial com a Alemanha.

O rápido fracasso do novo reformismo, que em tempo recorde se converteu no aplicador dos ajustes na Grécia enquanto o Podemos, mesmo antes de chegar ao governo, faz pactos com a casta do PSOE e os bancos espanhóis, deram razão aos marxistas, e reafirmaram a necessidade de que a classe trabalhadora conquiste um papel hegemônico para evitar os desvios e saídas contrarrevolucionárias a futuros ascensos, assim como a atualidade da luta para levantar partidos de trabalhadores revolucionários como parte da luta contra a xenofobia e a extrema direita.

Hipóteses para construir uma força material no movimento operário

Uma nota do jornal LeMonde dá um diagnóstico interessante da “morfologia social” do voto, inclusive na extrema direita. Apesar de ter alcançado demagogicamente um setor importante de trabalhadores mais velhos, estatísticas mostram que a Frente Nacional tem dificuldade de triunfar nas cidades, principalmente em grandes concentrações.

“Os ‘pequenos’ municípios votam mais voluntariamente pela Frente Nacional que aqueles municípios que são povoados. Tomando os resultados do segundo turno, a esquerda vê sua votação crescer à medida que a população dos municípios aumenta, em particular a partir do momento em que o município ultrapassa 5000 habitantes. Ao contrário, a Frente Nacional obtém os melhores resultados nos municípios menos povoados, ficando, entretanto, ainda atrás das chapas da união da direita tradicional [...] Embora a tendência ao voto para a Frente Nacional nas zonas rurais aumente, tem dificuldade em convencer nas cidades.”

Olhando para os Estados Unidos, Trump esbarra na mesma dificuldade, justamente nas cidades de maior concentração populacional e operária, como nos estados da Califórnia, o noroeste e o nordeste tecnológico norteamericanos. A classe trabalhadora não se convenceu da armadilha destas opções imperialistas. De fato, boa parte dela é hispânica e afro-descendente, que assim como o imenso contingente de trabalhadores muçulmanos na França, são os primeiros alvos do ódio desta casta política.

A debilidade estratégica da burguesia européia e norteamericana é que não têm uma saída de fundo à altura de suas possibilidades reais para resolver as contradições que estão estourando.

As classes aliadas dos trabalhadores urbanos, como os pequenos agricultores e trabalhadores do campo arruinados pela crise, precisam ter a oportunidade de enxergar que uma saída progressista à miséria a que o capitalismo os conduziu só pode ser atingida junto ao proletariado das cidades. Estes, por sua parte, devem mostrar a seus aliados que é capaz de lutar e vencer. É importantíssimo retomar um caminho baseado na mobilização social com a classe operária à frente, que lute até o fim por todas as demandas democráticas e por um programa claramente anticapitalista e socialista internacional.

Um programa que tome como tarefa urgente por fim à ofensiva militarista e que sirva para levantar partidos revolucionários de trabalhadores é a única forma de construir um movimento revolucionário com peso orgânico na classe operária e na juventude que pode ser uma alternativa à política da extrema direita. É com esta perspectiva que batalhamos os grupos da Fração Trotskista na Europa, com publicações diárias parte da rede de periódicos internacionais militantes Esquerda Diário, como o Révolution Permanente na França (que alcançou 370 mil acessos somente me novembro, é o mais importante site da extrema esquerda francesa), o LaIzquierdaDiario no Estado espanhol e o KlassenGegenKlassen na Alemanha.




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