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Trotski e a construção de uma juventude revolucionária

Mariana Duarte

Trotski e a construção de uma juventude revolucionária

Mariana Duarte

“Um partido revolucionário deve necessariamente se basear na juventude. Inclusive é possível dizer que o caráter revolucionário de um partido pode-se julgar, em primeira instância, pela sua capacidade de atrair para suas bandeiras a juventude da classe operária. O atributo básico da juventude socialista – e tenho em mente a juventude genuína, não os velhos de 20 anos – reside em sua disposição para se entregar total e completamente à causa socialista. Sem sacrifícios heroicos, valor, decisão, a história em geral não move-se adiante.”

Em 1922, 5 anos após a Revolução de Outubro, acontecia o quinto congresso da Juventude Comunista da União Soviética. Naquele momento, eram imensas as expectativas dos rumos do primeiro Estado operário da história da humanidade. Trotski, que havia acabado de liderar o Exército Vermelho na longa guerra civil, fez um discurso para a então juventude do Partido. Seu principal objetivo era informar os jovens bolcheviques da situação nacional e internacional na qual se encontravam para que assim pudessem atuar em prol da construção do socialismo:

“É claro que não poderei aqui, nem em um grau mínimo, esgotar as lições de nossa revolução, a maior da história. Minha tarefa é muito mais modesta: Oferecer uma caracterização de nossa situação internacional e interna segundo a maneira em que estas se desenvolveram como resultado de nossa luta."

Naquele então já havia ficado claro o papel que o dirigente do Exército Vermelho atribuia à juventude. Sabia como seriam as novas gerações as responsáveis pela defesa e continuidade da Revolução e justamente por isso, colocava a necessidade de que se formassem através da teoria e prática do marxismo revolucionário, valor que repetiu diversas vezes:

“Para que serve o treinamento, o estudo e a educação? Estas são as habilidades necessárias para desenvolver a capacidade de se orientar nas condições de tempo e espaço. Deve-se conhecer o país no qual se vive, os países que nos rodeiam e deve-se conhecer a história de nosso país, ainda que seja a dos últimos dez ou quinze anos, o período da véspera de Outubro, o período da coalisão, o kerenkismo, os pontos básicos da história de nossos partidos pequeno-burgueses, etc. Todo esse conhecimento deverá ser apropriado por cada trabalhador jovem, já que ainda restam muitas batalhas no caminho e o desenvolvimento da revolução no Ocidente avançará de forma sistemática, senão mais lenta, do que esperávamos.”

Para Trotski, tratava-se de uma questão de vida ou morte para o Estado operário, que os jovens trabalhadores do Partido se dessem conta dos desafios que estavam por vir. Reforçava a ligação que se estabelecia entre a juventude trabalhadora e camponesa e o Exército Vermelho, que havia sido renovado por uma fileira de jovens nascidos em meados de 1901 e 1902 e que naquele momento se viam no papel de defender as conquistas dos operários e camponeses russos. Como dirigente do Exército, dava muita ênfase na grande tarefa das instituições juvenis de estimularem o crescente ânimo de tais jovens em adentrar à luta socialista e, sobretudo, preenchê-la de conteúdo político. Era uma necessidade vital a formação e compreensão política do momento histórico pelo qual estavam passando e de todas as batalhas dadas para que chegassem até ai:

“É por isso, camaradas, que a questão da Liga da Juventude é uma questão de vida ou morte para nossa revolução, e uma questão do destino do movimento revolucionário mundial. Me permitam apelar à vocês e através de vocês à todas as camadas mais sensíveis, honestas e conscientes do jovem proletariado e campesinato avançado: Aprendam, formem-se com o granito da ciência, se afinem e preparem-se para estar ao mando!”

O apelo realizado pelo revolucionário, seria parte de mais uma série de discursos, cartas e discussões que este realizaria ao longo de todo o resto de sua trajetória:

“É necessário ter uma clara compreensão do curso dos acontecimentos e dos métodos apropriados para a ação. Isso somente pode ser obtido por meio da teoria e da experiência vivida. O mais flamante entusiasmo rapidamente se esfria e evapora, se não encontra a tempo uma clara compreensão das leis do desenvolvimento histórico. Com frequência temos observado como jovens entusiastas, tendo sido atingidos na cabeça, se convertem em sábios oportunistas; como ultra esquerdistas desenganados passam, em um curto tempo, a serem burocratas conservadores, assim como pessoas fora da lei corrigem-se e transformam-se em exelentes policiais. Adquirir conhecimento e experiência e ao mesmo tempo não dissipar o espírito lutador, o auto sacrifício revolucionário e a disposição para ir até o final, é a tarefa da educação e da auto educação da juventude revolucionária. ”

Para Trotski a questão da formação teórica se tratava de uma questão imprescindível. Era através do aprendizado das experiências práticas acumuladas pela classe trabalhadora mundial, que seria possível não cometer os mesmos erros na luta contra a burguesia. Tinha uma vontade incansável de compartilhar com as novas gerações todas as suas próprias experiências vividas ao longo dos anos.
Havia iniciado sua vida política cedo. Com 19 anos foi preso pelo regime czarista e dois anos de sua juventude foram passados na prisão. Foi ali que teve seu primeiro contato com Lenin, e desde onde pôde se aprofundar na teoria e no legado marxista. Sobre issoescreve:

“Na prisão tive que iniciar-me nos estudos revolucionários começando quase pelo ‘abc’. Dois anos e meio de encarceramento e outros dois de exílio me brindaram a ocasião de estabelecer as bases teóricas de uma filosofia revolucionária. A primeira emigração foi para mim uma alta escola de política. Sob a direção dos melhores marxistas revolucionários aprendi a contemplar os acontecimentos com o enfoque das grandes perspectivas históricas e em função das relações internacionais.”.

Ao sair do processo de exílio e encarceramento, não teve dúvidas em buscar as formas de contribuir para a construção do partido socialdemocráta russo. E foi em 1902, com 22 anos, que se juntou à Lenin e outros dirigentes da Social Democracia, como Plekanov e Martov, na edição do Iskra. Viveu o final de sua juventude no aprofundamento da defesa da bandeira do marxismo, e com 26 anos se tornou presidente do Soviet de Petesburgo.

Algumas décadas depois, já em sua batalha contra a degeneração do estado soviético, Trotski realça a importância da juventude no combate ao stalinismo e à burocracia que já havia se consolidado no interior da revolução. Numa declaração da oposição de Esquerda à Conferência Internacional da Juventude Comunista, coloca novamente sob seus ombros uma grande resposabilidade:

“É necessário que esta Conferência da Juventude eleve um protesto vigoroso contra
o regime burocrático do partido, que afoga a vida interna da vanguarda comunista e fecha toda possibilidade de desenvolvimento independente da juventude.”
Ao longo de toda a declaração, se esforça por convencer a juventude que se formava no Partido, de que era necessário a mais ampla democracia interna, em combate à prática burocrática de ordens e imposições, contra a obediência cega da direção. Tais combates eram parte de perceber que era necessário romper parte da base daqueles que seguiam Stalin para a bandeira de defesa da Revolução de Outubro:

“A obediência cega é uma virtude útil ao soldado de um exército capitalista, não ao combatente proletário. A disciplina revolucionária tem suas raízes no pensamento e na vontade coletivos. Um partidário do comunismo científico não acredita em palavras; julga tudo a luz da razão e da experiência. A juventude não pode aceitar o marxismo por mandato; o deve assimilar por si mesma, através de um esforço independente do pensamento. Precisamente por isso deve ter não somente a oportunidade de se educar como também a de se equivocar, para poder se elevar, através de seus próprios erros, a uma concepção comunista. A disciplina burocrática e artificial se transformou em pó num momento de perigo. A disciplina revolucionária não exclui, exige, o direito à comprovação e à crítica. Somente por esta via se poderá criar um exército revolucionário indestrutível.”

Desde ai se mostra outro ponto importante. Para Trotski era fundamental a criação do pensamento crítico da juventude, contra a visão reacionária de que os jovens não podem desenvolver seu próprio pensamento simplesmente pelo fato de serem jovens, e de que os mais velhos, por seu tempo passado de vida, necessáriamente sempre possuirão a visão correta. Muito ao contrário disso, Trotski defendia que seria a juventude a chacoalhar a sujeira dos velhos burocratas que degeneravam o legado da Revolução.

Cinco anos depois, em 16 de fevereiro de 1938, Trotski perde seu filho, Leon Sedov, assassinado pelas mãos da burocracia stalinista. Leon, o único de seus filhos que dedicou sua vida à construção da revolução mundial, havia tido uma vida extremamente simples, por fora de todos os luxos atribuídos por um tempo à sua família, sempre buscou estabelecer uma profunda relação com a classe operária, em todos os sentidos da vida. Em memória à seu legado revolucionário, como combatente das fileiras da Oposição de Esquerda, Trotski escreve uma emocionante carta à juventude trabalhadora, relembrando os grandes feitos do filho. Ao final da carta, o pai se dirige à juventude proletária:

“Jovens revolucionários de todos os países! Aceitem a lembrança de nosso Leon, adotem-no como seu filho – ele o é digno – e deixem que, a partir de agora, participe invisívelmente de suas batalhas, já que o destino lhe negou o direito de participar de sua vitória final!”

A profunda ligação que via que deveria se estabelecer entre a juventude e os trabalhadores era fundamental. Parte de um combate que estabelecia inclusive às pressões que sofriam setores de estudantes da lógica formal das universidades, que se dava por fora da dialética, método de análise do marxismo. Sobre isso, escreveu:
“As oscilações ideológicas serão menos tão menos frequentes quanto mais sólida se torne a base proletária da organização”

Com as mazelas derivadas da crise capitalista e da guerra que se aproximava, o nível de exploração à juventude trabalhadora era alto, e em setembro de 1938, ao fundar a Quarta Internacioal sob o Programa de Transição, viu como fundamental a consigna de “Lugar para a juventude” e defesa incondicional de seus direitos trabalhistas, assim como de sua sindicalização e direito à educação. A Quarta Internacional defendia igualmente a exigência de independência econômica dos jovens trabalhadores e estudantes, assim como licença maternidade para as jovens mães e igualdade de direitos para a juventude imigrante.

É inegável o papel fundamental que desde o início Trotski colocou para as novas gerações de jovens socialistas. Sempre com a preocupação de incentivar sua formação teórica e política, sob as bandeiras do marxismo revolucionário, assim como sua ligação com operários genuínos e a criação de um pensamento crítico não dogmático, mas a luz dos acontecimentos históricos. “É necessário ter uma clara compreensão dos métodos apropriados para a ação, o que só pode ser obtido por meio da teoria e da experiência vivida”.

É através destas lições que é necessário pensar a construção hoje de uma juventude da revolução internacional. Num momento em que as ideias do socialismo voltam ao imaginário da juventude pelo mundo, é fundamental recuperar as lições deixadas por Leon Trotski às novas gerações, a quem atribuía a responsabilidade da construção do grande sonho.

Em todo o mundo vemos crescentes levantes de juventude, que contra a carestia de vida, o desemprego e a precarização do trabalho se rebelam. É preciso preencher a revolta de conteúdo para que toda a força revolucionária da juventude se ligue a classe operária em uma forte aliança capaz de transformar tudo. É sob essa perspectiva que retomamos o legado de Trotski, incansável lutador, teórico e político da revolução socialista.

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Mariana Duarte

Estudante de Letras da USP
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