Teoria

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“Tirem as mãos de Rosa Luxemburgo”: quando a biografia procura ser fiel à biografada [Parte II]

No Brasil, Rosa Luxemburgo é, via de regra, mal interpretada: é tomada como inspiração para o combate a Lenin e à questão do partido revolucionário, e chega a ser indevidamente incorporada pelos anarquistas e pela liderança de certos movimentos sociais, como o MST, para defender todo tipo de improvisação estratégica. No entanto, uma biografia de Rosa, elaborada por Paul Frölich, publicada pelo IPS/Buenos Aires, finalmente pode ter resgatado a Rosa real e não aquela que é tradicionalmente propagandeada nos nossos meios de esquerda.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 26 de dezembro de 2015| Edição do dia

Não teremos oportunidade, no espaço de uma breve resenha, de examinarmos os inúmeros aspectos da obra de Rosa que seu biógrafo [Paul Frölich] destaca e desenvolve, desde o papel da greve de massas, sua crítica ao reformismo, ao economicismo, ao sindicalismo, ao gradualismo parlamentar, à ilusão ministerialista, ate a colaboração de classes por parte do aparato socialista já degenerado, dirigido por K Kautski e que agora apoia sua burguesia imperialista na guerra.

O que é importante destacar é que tais elementos constituem, sim, elaborações de completa vigência na luta pela construção de uma consciência marxista revolucionária hoje. E são leitura de primeira em qualquer processo de formação política revolucionária.

Mesmo A acumulação do capital, de 1912, é um grande livro. Certamente deve ser lido com uma reserva que o próprio Frölich, depois de valorizá-lo para a análise do imperialismo, assinala corretamente. No livro, com razão, Rosa Luxemburgo põe ênfase na caracterização de uma nova fase do capitalismo, agora monopolista [que Lenin desenvolverá no seu Imperialismo fase superior, em 1916], fase sumamente destrutiva, catastrófica e reacionária em toda linha, sem espaço para o reformismo que foi possível nos 30 anos anteriores. Profética e, antecipando outros autores, ela aponta rumos para o capitalismo que, em vez de qualquer tipo de evolução pacífica – como pretendiam os chefes da II Internacional –, marcha para grandes catástrofes [barbárie moderna] contra as massas. Quanto aos limites do seu estudo sobre a acumulação do capital (neste livro, que vem a ser sua tese de doutorado)eles já foram evidenciados por outros autores [Rosa imagina, por exemplo, que o volume II de O capital tem bases teóricas para alguma política reformista e, neste ponto aflora certa incompreensão sua sobre a questão da recapitalização da mais valia que a levam a ver como incontornável, para a existência do capitalismo, a presença de áreas não-capitalistas].

É muito importante, em termos de uma autêntica biografia intelectual e política de Rosa a ênfase de P Frölich, ao contrário de outras biografias, no sentido de mostrar que não existe espaço na Rosa real para se construir uma pretensa Rosa espontaneista até o fim e muito menos antileninista. “Não existe um grão de verdade na afirmação de que Rosa Luxemburgo tenha adotado um tipo de mitologia da espontaneidade. Esta ideia em si mesma é um mito usado para fins políticos particulares, por pequenos funcionários mesquinhos, que olham por cima dos seus ombros e ao mesmo tempo acreditam que podem controlar e intimidar impunemente a um partido” (p. 179).

A estratégia de Rosa é a da revolução proletária armada, insurrecional [mais acentuadamente que em A. Gramsci até], por mais que em sua prolongada luta contra a burocracia do seu partido social-democrata, contra os Kautski/Bernstein, ela não tenha desenvolvido até o fim o necessário equilíbrio dialético entre ação espontânea, iniciativa de massa e partido. Mandel, ao escrever sobre Rosa, a defende dos seus detratores e completa a argumentação lembrando que não existe espontaneísmo puro [sempre há o elemento político “de fora”] e que se existisse tal coisa, seria pura improvisação, o equivalente à garantia de derrota de qualquer tentativa revolucionária séria.

Um dos mais importantes elementos dessa biografia de alto nível vem a ser sua permanente ênfase na defesa estratégica por parte de Rosa sobre o papel do proletariado como sujeito político revolucionário. Neste item ela integra, sem a menor sombra de dúvida, a galeria dos mais importantes marxistas revolucionários do século XX, na defesa da intransigência para com a revolução proletária e fusão do marxismo com a vanguarda mais combativa dos trabalhadores.

Na questão da estratégia revolucionária versus reformas graduais e especialmente na chantagem que os reformistas costumam fazer aos revolucionários como os “unilaterais”, os “radicais”, que se recusam a participar de governos “democráticos” etc, Rosa é pioneira em textos notáveis contra isso, contra o ministerialismo.
Frölich lembra que foi Rosa quem analisou o primeiro caso em que os socialistas participam de um governo burguês, na França em 1899, e o fez com uma profundidade marxista e clarividência notáveis.

Na medida em que os socialistas estão no governo passam a ser chantageados pela “teoria” do “mal menor”: “Qualquer tentativa de oposição ao governo por parte dos socialistas era sufocada através da ameaça de dissolver a aliança governamental e ceder seu lugar aos reacionários. Desta forma, o princípio do ´mal menor´ determinou toda a política socialista e conduziu o partido a comprometer-se cada vez mais com o governo. Os socialistas foram ficando cada vez mais dependentes do governo, e este cada vez mais independente dos socialistas” (p.101); na sequência daquela colaboração, o socialismo passa a viver do mundo das palavras enquanto a política prática do governo burguês segue adiante. Jaurès, do partido de Rosa, defendia essa colaboração de classe à qual Rosa se opunha, já ali em 1901, quando ela denunciou aquela triste farsa na França e que, como assinala Frölich, iria terminar “na Alemanha como tragédia”.

Nos grandes temas da luta de classes são imperdíveis os textos de Rosa. Com as devidas críticas, aliás já levadas a cabo por Lenin, Trotski, Mandel.
Portanto, não presta qualquer serviço a Rosa Luxemburgo quem pretenda reinventar sua obra ou sua figura histórica como revolucionária alinhada com o anarquismo, o semi-autonomismo, como uma socialista “democrática” em luta contra o socialismo de Lenin/Trotski ou muito menos ainda como uma Rosa anti-partido. É profundamente esquemática – e para nada fiel a Rosa – a ideia de que Lenin se prendia à consciência trazida “de fora” e ponto, e que Rosa é a defensora da consciência emergindo “de dentro”. Mesmo os melhores dentre aqueles que tentam levar adiante essa operação lógica [na verdade ilógica e, de saída, desleal com Rosa] não podem deixar de admitir que a última Rosa não via condições de uma greve de massa triunfar sem o partido que tome sua direção política.

É verdade que “quando desenvolveu essas ideias pela primeira vez, em 1904, Rosa considerava que a greve geral substituiria a insurreição. No entanto, posteriormente, com a experiência da Revolução Russa, ela avaliou que a insurreição não poderia ser descartada, uma greve geral poderia muito bem culminar em um levantamento armado” (p. 167). O fator consciente da/na ação de massas é chave no pensamento dela, pensamento que vai se construindo a cada experiência, sobretudo pela mais importante delas: a Revolução Russa. Por exemplo, o levante operário de novembro de 1917 foi planificado pelo partido bolchevique no auge e no ponto crítico da revolução. Rosa não ignorava isso. No entanto, “quando mais tarde se debruçou sobre a experiência da Revolução Russa para os partidos do ocidente aprofundou no ponto sobre a greve de massas, que estava na ordem do dia, mas não mencionou a não ser acessoriamente a questão da insurreição” (p.144).

Muitos desses elementos tomarão forma cada vez mais clara para a última Rosa, no entanto. Na questão do partido isso é bem claro. O que ela escrevera um pouco antes, na prisão, vai contra o que ela própria executa na prática, em seguida.
P Frölich é incisivo ao afirmar que não estão corretos aqueles que pensam que Rosa “imaginava o partido como uma agrupação flexível de gente que compartilhava ideias afins” e ponto.

Ela insistia muito na liberdade de opinião e de crítica como meios contra o esclerosamento do partido, prossegue o autor, mas tinha noção e igualmente insistia “que esta liberdade devia estar limitada por um conjunto de princípios marxistas compartilhados” (p. 123). E lembremos que, durante praticamente toda sua vida política, ela teve que estar em combate aberto contra o sufocante aparato do seu partido.

Finalmente Frölich conclui: não tentem vincular a degeneração da Revolução Russa ao tipo de partido proposto e levado adiante por Lenin: a degeneração do partido leninista é sintoma do stalinismo. “As caricaturas grotescas do atual comunismo oficial não obedecem tanto a uma teoria concebida há varias décadas e sim à decadência da Revolução Russa, cujo sintoma principal é a formação de uma burocracia do partido que exerce um domínio ilimitado sobre o Estado e que está a serviço de determinadas ideias sociais e interesses particulares” (p.123). Por fim, ele também destaca o elemento histórico: “É certo que quando o partido comunista de Lenin foi ao poder o centralismo foi uma das características da qual é mais acusado, mas a guerra civil o obrigara a adotar uma organização de perfil militar. Mas apesar disso, em todos os anos em que Lenin esteve à cabeça da URSS, as grandes decisões políticas não eram ditadas de cima para baixo, mas eram resultado de acirrados debates internos” (p.123).

Nesse sentido, do partido, é que Frölich argumenta, com toda flexibilidade, em favor de Rosa e de Lenin, no sentido de que este se vinculava mais fortemente ao objetivo final e buscava os meios para sua realização e tinha clareza sobre o partido como a ponta de lança de todo o movimento; e Rosa, que amadurecerá nessa direção, punha ênfase em maior medida no elemento decisivo da massa, da experiência histórica de massa (p. 124). Sem nunca terem sido antagônicos, em que pese suas divergências públicas e, vale repetir, superadas por Rosa na prática, no caso da questão do partido, da mescla parlamento/sovietes etc.

Os leitores dessa qualificada biografia de Rosa, ao revisitarem sua vida plena de paixão pelo socialismo, pelo proletariado revolucionário, sua condição de marxista revolucionária profunda, dela sairão com a certeza de que é necessário romper com a má tradição dos adeptos nativos de Rosa que seguem pregando uma Rosa parcial, mutilada e, frequentemente, estereotipada, Rosa contra Rosa.

Parafraseando Trotski, se poderia dizer aos que fabricam uma Rosa estereotipada: “tirem suas mãos de Rosa!”, ela não serve aos propósitos reformistas-espontaneístas encobertos por uma fraseologia revolucionária, muito menos retirada do contexto da sua obra, da sua evolução política e da sua vida.

* Nota sobre o título: É com essa expressão, “Tirem as mãos de Rosa Luxemburgo” que o bolchevismo repelia as deformações contra o pensamento de Rosa. Neste artigo resenhamos o livro Rosa Luxemburg – vida y obra, de Paul Frölich Paul Frölich [1884-1953], publicada em 2013 pelas Ediciones IPS, Buenos Aires, Argentina. Foi traduzido do original dos anos 1940, Rosa Luxemburg: her life and work. Edição a cargo de Cecilia Feijoo e Demian Paredes. P Frölich foi contemporâneo de luta e muito próximo de Rosa.




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