Teoria

TEORIA

"Tirem as mãos de Rosa Luxemburgo" [Parte 1]: quando a biografia procura ser fiel à biografada

No Brasil, Rosa Luxemburgo é, via de regra, mal interpretada: é tomada como inspiração para o combate a Lenin e à questão do partido revolucionário, e chega a ser indevidamente incorporada pelos anarquistas e pela liderança de certos movimentos sociais, como o MST, para defender todo tipo de improvisação estratégica. No entanto, uma biografia de Rosa, elaborada por Paul Frölich, publicada pelo IPS/Buenos Aires, finalmente pode ter resgatado a Rosa real e não aquela que é tradicionalmente propagandeada nos nossos meios de esquerda.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 19 de dezembro de 2015| Edição do dia

Começando pelo próprio Marx, todo autor marxista pode vir a ser vítima de uma interpretação estereotipada, parcial e, portanto, ser lançado, por assim dizer, contra si próprio. Já ocorreu mais de uma vez com Lenin, com Trotski, com Gramsci nem falar, mas no caso de Rosa Luxemburgo e, particularmente nos marcos da esquerda brasileira, esse processo de desconstrução ou parcialização de Rosa Luxemburgo é absolutamente recorrente.

E é levado adiante desde autores mais sofisticados e de extração trotskista, como Michael Lowy, até os mais toscos como o autor de “Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade” (o alemão Jörn Schutrumpf), em livro publicado pela direção do movimento dos sem-terra [MST], apenas para citar dois exemplos.

Justamente uma das grandes qualidades dessa biografia de Rosa escrita ao final da II Guerra por Paul Frölich, vem a ser a de romper com tais interpretações estereotipadas e recuperar a Rosa real em vez da outra, inventada por interesses políticos particulares. A nosso ver, a qualidade dessa biografia não decorre apenas do fato de que Frölich conviveu diretamente e intimamente com Rosa e que por isso a conheceu melhor, mas sobretudo tem a ver com um método mais dialético e mais profundamente histórico de procurar recuperar Rosa Luxemburgo nos marcos da estratégia, da intransigência revolucionária e proletária que ela efetivamente encarnou.

Rosa jamais foi uma espontaneísta até o final, por exemplo, e nem crítica irreconciliável de Lenin, no que este tem de essencial e estratégico, como alguns pretendem.

Essa biografia traz os elementos factuais, biográficos e políticos que deixam os elementos fundamentais do genial pensamento de Rosa bem evidentes e bem postos. Paul Frölich consegue alcançar e por de pé a grandeza histórica e teórica de Rosa. O que não é pouca coisa.

Apenas por isso já se torna uma das melhores ou talvez a mais profunda biografia de Rosa Luxemburgo. É muito comum que os luxemburguistas brasileiros das mais variadas estirpes [de anarcos a supostos trotskistas] tomem Rosa como aquela que foi capaz de formular ou de esboçar a ideia de um “socialismo revolucionário e ao mesmo tempo democrático”, de um “socialismo libertário” ou coisa parecida, como se os textos de Lenin antes e depois da Revolução Russa, por exemplo, fossem de conteúdo oposto ao socialismo de Rosa.

A recuperação do pensamento de Rosa por parte de Frölich se dá tomando como base aquele mundo real no qual Rosa desenvolveu a sua atividade militante, isto é, como combatente filiada a um partido proletário que se tornou progressivamente – e para indignação combativa de Rosa e seus companheiros como Karl Liebknecht, o grupo minoritário espartaquista – no maior aparato burocrático de esquerda da história do movimento operário até então, e, no olhar de Trotski, no maior obstáculo para a revolução operária na Alemanha e no mundo, a social-democracia (a II Internacional).

Nesses marcos de combate, ano após ano, contra o aparato socialista burocrático e reformista do seu país é que Rosa redige quase toda sua obra, portanto, em luta contra um aparato que desprezava, limitava e desviava toda e qualquer ação direta e espontânea de massa, que praticava o reformismo puro e simples, aparato que se colocava detrás da sua burguesia [imperialista] nos momentos-chave, mas que, no entanto, contava com o apoio dos principais batalhões da classe operária alemã.

Por conta disso, a obra de Rosa Luxemburgo acentua alguns aspectos da tática, da questão do partido, da estratégia, muitas vezes à custa de outros, muitas vezes em polêmica com os bolcheviques [onde ela, como Trotski, se enganou mais de uma vez ao propor a fusão com os mencheviques], mas também onde ela, foi capaz, antes de Lenin, de antever a degeneração do partido operário alemão e também a questão do papel central do proletariado no novo poder.

Neste particular, por exemplo, Trotski e Rosa Luxemburgo estavam completamente de acordo com Lenin em sua refutação dos mencheviques, como assinala Frölich (p. 128). Mas discordavam, com razão, da fórmula de poder que Lenin propunha ali, antes da Revolução Russa (ditadura democrática de operários e camponeses) e corretamente propunham, Trotski e também Rosa, o governo operário em aliança com o campesinato, portanto a ditadura do proletariado.

O fato é que Frölich, capítulo após capítulo, recupera a grandeza do pensamento luxemburguista em um nível tal que permite que possamos reafirmar as palavras de Lenin, reiteradas por Frölich: é preciso publicar toda a obra de Rosa Luxemburgo, militante proletária intransigente e cujos textos devem ser um “manual de educação da classe operária” revolucionária.

Na questão da luta contra o reformismo, Frölich não deixa margem a qualquer dúvida sobre a atualidade da argumentação de Rosa em todos os seus textos sobre o assunto, especialmente no seu Reforma ou revolução? A luta apenas por reformas não é um caminho que se possa escolher para o socialismo mas antes de mais nada a renúncia ao socialismo, uma rota de fuga oportunista e que é usualmente levada adiante em nome do socialismo. Em seu clássico combate ao reformismo do partido socialista alemão, um dos seus argumentos é claro: “A necessidade da conquista do poder político pelo proletariado nunca em momento algum foi posta em dúvida nem por Marx nem por Engels. Foi Bernstein quem se reservou o direito de considerar o galinheiro do parlamentarismo burguês como o órgão destinado a levar a cabo a mais formidável transformação da história: a passagem da sociedade capitalista à sociedade socialista” (p.87).


"Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem".

Na luta de Rosa contra a concepção mecanicista de materialismo histórico do “papa” do marxismo do seu partido, K Kautski, ela elaborou textos memoráveis dos quais transborda, cristalina, uma visão para nada fechada, evolutiva ou mecanicista da história humana. A centelha incendiária da vontade revolucionária do proletariado aparece claramente como o elemento insubstituível e o único que pode impor o socialismo contra a marcha do capitalismo rumo à barbárie.

Consciente de que não podemos escolher as condições históricas em que travamos nossa luta revolucionária, ela argumentava no sentido de reafirmar, seguindo Engels, que a liberdade é a consciência da necessidade, ou seja, de que é preciso quebrar a cabeça em busca da compreensão das leis profundas dos fenômenos. Ficar na superfície fenomênica não permite prever e nem levar o bom combate.

Rosa gostava de citar, contra seus adversários, o mote de que “as coisas possuem sua própria lógica, inclusive quando os homens deixaram de ser lógicos”. E continua Frölich: “Tomar consciência da lógica das coisas era para ela uma questão primordial, contra a ideia de ficar argumentando segundo a lógica formal das ideias” (p. 83).

Essa biografia de Frölich traz elementos de Rosa Luxemburgo e do seu mundo que permitem entender que mesmo quando o pensamento de Rosa se torna refém de algum limite [o que de resto ocorreu com Trotski, Lenin, em determinados elementos teóricos e nas devidas proporções] no entanto ela sempre estava muito acima do voo de galinha dos seus opositores e, mais ainda, dos seus intérpretes estereotipados do nosso tempo.

Ela tinha uma concepção sobre o papel do partido revolucionário [partido que ela somente irá fundar em 1918, em ruptura com a II Internacional, semanas antes de ser assassinada] que foi criticada por Lenin, em polêmicas já no início do século XX.

Vale notar que, já em 1916, Lenin propôs que Rosa rompesse com a social-democrática e fundasse o partido revolucionário na Alemanha; em 1921, o mesmo Lenin irá avaliar que a ruptura de Rosa com a social-democracia só veio a ocorrer “muito tardiamente”, o que criou sérias dificuldades na construção da direção revolucionária. De toda forma, qualquer que seja a crítica que possa ser feita a elementos do pensamento de Rosa Luxemburgo, o seu biógrafo nos permite enxergar que ela jamais foi anti-partido, nem anti-Lenin e nunca chegou a desenvolver elementos semi-espontaneístas até o fim.

Ao contrário, mesmo em relação ao seu texto mais fraco, o manuscrito escrito em 1918, na prisão, jamais publicado por ela, aqueles elementos do texto onde ela mais critica a condução bolchevique da Revolução Russa serão justamente os que ela irá negar, na prática, ao sair da prisão [quando ela sai para fundar o partido comunista alemão, nos moldes leninistas e quando ela passa a entender que os bolcheviques estavam certos em fechar a Assembleia Constituinte agitada pela burguesia e esquerda moderada russa em 1918].

Como menciona Frölich referindo-se ao momento em que Rosa rejeita o amálgama entre parlamento e sovietes: “Se, pouco tempo antes, em sua crítica da política bolchevique, [Rosa] defendia a coexistência do parlamento e os sovietes, agora nos encontramos diante de uma inequívoca alternativa. Trata-se de uma revisão de sua crítica da Revolução Russa? Certamente. É simplesmente a imitação pura do exemplo russo? Não. A realidade alemã tinha feito com que ela reconhecesse o caráter necessário desse tipo de evolução na Rússia” [p.299].

Os elementos que Rosa chegou a propor, por outro lado, a respeito da divisão entre bolcheviques e mencheviques [quando propunha, em 1914, contra Lenin e ao lado de Plekanov a fusão dos bolcheviques com os mencheviques ou, antes, em 1903, a não-ruptura entre bolcheviques e mencheviques], no entanto, ela se lançou rapidamente a superá-los, na prática, como já foi mencionado.

O mais chocante, no entanto, é que em boa parte da esquerda brasileira, aquele texto – que, vale reiterar, não está entre os mais fortes de Rosa Luxemburgo -, é hoje o mais reivindicado por autores como M Lowy e expressamente qualificado como o mais importante e atual de Rosa. Ao prefaciar o livro acima citado, livro de qualidade duvidosa porém elogiadíssimo por Lowy, e publicado pela editora do MST, Lowy propõe aquele texto de Rosa como “indispensável para entender o passado” e “sobretudo para uma refundação do socialismo (ou do comunismo) do século XXI”. Lowy vai mais longe e consegue se localizar à direita da última Rosa ao afirmar que “não pode haver socialismo sem ... sufrágio universal” (ver prefácio de 2006 àquele livro da Expressão Popular).

Não podemos nos furtar de recomendar a todos os companheiros que queiram compreender Rosa em profundidade e sem tais análises particulares em torno de uma pretensa Rosa do “sufrágio universal”, que leiam essa biografia de Frölich, bem mais próxima da Rosa Luxemburgo real.

* Nota sobre o título do artigo: É com essa expressão, “Tirem as mãos de Rosa Luxemburgo” que o bolchevismo repelia as deformações contra o pensamento de Rosa. Neste artigo resenhamos o livro Rosa Luxemburg – vida y obra, de Paul Frölich Paul Frölich [1884-1953], publicada em 2013 pelas Ediciones IPS, Buenos Aires, Argentina. Foi traduzido do original dos anos 1940, Rosa Luxemburg: her life and work. Edição a cargo de Cecilia Feijoo e Demian Paredes. P Frölich foi contemporâneo de luta e muito próximo de Rosa.




Tópicos relacionados

Teoria   /    Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar