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MULHERES NEGRAS E MARXISMO | “Temos um judiciário racista, mas a gente não pode baixar a cabeça!”, Mirtes Renata

Confira a fala emocionante de Mirtes Renata na live de lançamento do livro Mulheres Negras e Marxismo. Reproduzimos abaixo sua fala.

sexta-feira 26 de março | Edição do dia

Boa noite a todos, todas e todes, muito obrigada por atender minha convocação. Pra mim é uma satisfação muito grande estar participando dessa live de lançamento, desse livro que conta um pouco da minha história e situação, tem uma pequena homenagem a miguel também. Agradecer a todos que estão participando.

Falar um pouco da importância desse livro, que vocês obtenham esse livro, que tem histórias muito importante para o nosso povo, para o nosso conhecimento, que infelizmente muitas pessoas estão com os olhos tampados ainda para a nossa realidade, principalmente com relação ao racismo e com o preconceito. Eu era uma das pessoas que tinham os olhos fechados para isso. Quando aconteceu aquela fatalidade com meu fillho, aquele assassinato (queira que não, foi um assassinato), muita gente dizia que era racismo, e eu dizia que não via como racismo. Depois de entrar na ONG Curumim e no coletivo AfroResistence, estou tendo um período de formação política e to entendendo tudo o que aconteceu comigo e vi que o que aconteceu foi racismo.

Minha situação como empregada doméstica, aconteceu racismo estrutural. Muita gente diz, “é mimimi, tudo é racismo”. Não, não é mimimi, é realidade. Infelizmente essas pessoas que dizem que é “mimimi” são racistas e têm os olhos fechados para essa realidade, não querem enxergar o que realmente está acontecendo.

Mtas empregadas domésticas não foram dispensadas nesse período de pandemia, principalmente ano passado quando teve o Lockdown.

Perdi meu filho pelo racismo, pelo preconceito, pelo desgoverno. Eu perdi meu filho por conta disso.

Não só eu trabalhei durante a pandemia, mas muitas outras empregadas domésticas trabalharam. Eu trabelhei doente, com Covid, Minha mãe tbm. Meu filho também pegou Covid no ambiente de trabalho. Graças a deus sobrevivi para tá aqui falando com vocês. Graças a Deus estou firme e forte lutando pelo meu filho e não vou desistir.

To com problema agora com o judiciário porque o judiciário diz que não é essencial e parou. O TJ-PE parou, então todos os processos físicos e judiciais parou só voltam dia 4. Me deixa indignada, porque outros tribunais estão funcionando, só o TJ-PE que parou tudo. E isso atrapalha muito o andamento do processo do meu filho.

Com relação ao trabalho doméstico. Ainda existe o racismo, ainda existe a escravidão, como vocês viram o caso de Madalena. Mais recente foi uma senhora de 63 anos que passou 41 anos da vida dela trabalhando sendo escravizada. No período de folga dela ela catava latinha na rua e o dinheiro disso os patrões recolhiam. A escravidão ainda existe. Muitas empregadas domésticas ainda são escravizadas. Teve a PEC das domésticas mas não tem fiscalização, pq é um ambiente privado. Ninguém entra para fiscalizar, para ver a condição de trabalho dessas empregadas domésticas.

Recentemente teve o lançamento de um projeto do professor Afonso aqui da federal que chama “Suite master, quarto de empregada”, que mostra a realidade da casa grande e da senzala moderna. O apartamento dos patrões e o quarto das empregadas parece mais um depósito dos entulhos da casa que é aonde muitas empregadas domésticas passam o tempo do seu dia, da sua semana, da sua vida praticamente. Muitas empregadas dormem no trabalho, tem hora para pegar mas não tem hora pra largar. Tem que acordar mais cedo do que os patrões pra preparar o café da manhã e só larga depois que deixa a cozinha limpa. Isso acontece muito e não tá sendo fiscalizado. Muita delas tá sendo retida de informação para elas não abram os olhos e se libertem dessa situação que vivem, muitas delas têm informação retida. E a gente precisa trabalhar essa questão da informação, mostrar pra essas pessoas pra não continuar passando o que vêm passando.

Pelo que eu passei, foi mto dificil pra mim, principalmente nesse período da pandemia, trabalhar, dormir no trabalho, ter hora pra pegar, mas nao ter hora pra largar. Eu era paga pra cozinhar pra eles, arrumar uma parte da casa, mas eu cuidava do cachorro, dos filhos deles, é algo bem dificil mesmo. Eu, infelizmente, em partes, eu me livrei disso dessa forma trágica. Hoje venho lutando pelas minhas questões trabalhistas, quarta-feira teve uma audiência em que desambargador junto de outros desembargadores e advogados me deu causa ganha, mas hoje recebi a notícia de que eles vão recorrer pra não pagar. Eles não querem pagar o que eu e minha mãe temos de direito. Mas eu não vou desistir pq é meu de direito. Só quero porque é meu de direito, não quero nada além disso.

Como muitas empregadas domésticas, estou lutando para ter o que é seu. Eles estão atrapalhando minha questão trabalhista. No começo diziam que eu e minha mae não era empregada deles, mas da éramos empregadas da prefeitura. Que quem tinha que pagar as nossas contas era a prefeitura. Mas foi provado que a gente era funcionaria deles, foram multados por má-fé, em 10% da minha causa. O TRT entrou com ação civil pública contra eles pela forma irregular da contratação, pela questão do racismo estrutural por manter eu, minha mãe e outra funcionária. Então foram multados de início por 2 milhoes, baixou para 386 mil e alguns quebrados e com certeza vão recorrer pra não pagar.

Mas pelo menos essa condenação deles vai servir para muitos empregadores para eles reverem sua forma de tratamento e a forma de contratação de funcionárias. Para eles verem que nada passa em branco, que um dia tudo vai ser descoberto, que vão ser penalizados. Quebrou regras, quebrou leis, vão ser penalizados. E eles estão sendo penalizados.

Nesse momento quero dizer que vamos seguir em frente. Ao fim dessa live compartilhem com outras pessoas essa live por causa da informação. Esse livro traz bastante informação. Informação é tudo o que podemos ter nessa vida para viver melhor, para enxergar as coisas melhor, pra não sofrer futuramente. É o que eu venho fazendo, venho me informando. To passando por uma formação política. Descobri tanta coisa que eu passei nessa vida que eu não sabia que era errado, que era crime. Descobri essa semana que sofri violência obstreta quando estava grávida, poderia ter denunciado mas não tinha conhecimento. Os governos retêm essas informações nas escolas, porque é mais barato para eles diminuir na educação, por isso cortam verba da educação. A gente tem que batalhar para se informar, pra poder viver bem.

Quero agradecer pelo convite, por participar dessa live, do livro também.

Estou fazendo faculdade de direito, daqui a pouco começa minha aula. Mas é vida que segue. Não podemos baixar a cabeça com essas coisas. Temos que lutar pelos nossos direitos.

Infelizmente a gente tem um judiciário classista, racista, mas a gente não pode baixar a cabeça pra isso.

Continuo firme e forte pela luta, buscando a condenação de Sari Corte Real e eu não vou desistir!

Justiça por miguel!




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