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Surto de microcefalia no Brasil: mais de 1.700 casos em 12 estados brasileiros

Ainda em estudo, surto de microcefalia pode estar relacionado ao vírus zica. Região do nordeste no país é a que registra mais casos, com Pernambuco ultrapassando 800 casos este ano.

Fernanda Peluci

Metroviária de São Paulo e militante do Movimento Nossa Classe e Pão e Rosas

terça-feira 15 de dezembro de 2015| Edição do dia

A situação dos registros de casos de microcefalia em 2015, divulgada pelo Ministério da Saúde em 08/12/2015, é a seguinte: Pernambuco 804 casos; Paraíba 316 casos; Sergipe 96 casos; Alagoas 108 casos (atualizado em 13/12/2015); Rio Grande do Norte 106 casos; Piauí 36 casos; Ceará 40 casos; Bahia 180 casos; Maranhão 37 casos; Rio de janeiro 23 casos; Tocantins 29 casos; Goiás 3 casos; Mato Grosso do Sul 9 casos; Distrito Federal 1 caso.

De acordo com o Ministério da Saúde, já foram registrados mais de 400 casos de microcefalia em recém-nascidos de sete estados somente na região do Nordeste. Esta situação apresentou um grande aumento no número de casos recentemente, já que o Boletim Epidemiológico de Microcefalia, divulgado pelo Ministério da Saúde anunciou 1.761 casos suspeitos este ano até 5/12. Até então o Brasil registrava anualmente 200 casos. Foi confirmada a presença do vírus zika no líquido amniótico de duas gestantes na Paraíba cujos bebês são microcefálicos, o que aponta uma potencial correlação entre as duas doenças naquela região no Brasil.

Segundo Alberto Chebabo, infectologista e integrante do corpo clínico do Laboratório Bronstein Medicina Diagnóstica, existe a probabilidade de que as mães com infecção aguda de vírus zika tenham passado a doença para o feto, mas ainda está sendo estudada a relação direta do zica e dos casos de microcefalia. "A correlação entre o vírus e o surto de microcefalia ainda não foi totalmente pontuada pelo governo, já que esta é uma situação totalmente nova. Não existe qualquer publicação médica que aponte esta correlação, apesar de terem ocorrido surtos em outras regiões do mundo. Há a necessidade de mais estudos para avaliar a correlação", diz o especialista.

A microcefalia é caracterizada pelo menor perímetro cefálico dos recém-nascidos, sendo que o tamanho normal é acima de 32 centímetros. Além de infecções virais, o problema pode ser causado por rubéola e toxoplasmose, alterações genéticas, consumo de álcool e de drogas pela mãe. A microcefalia pode ser diagnosticada ainda durante a gravidez, e os comprometimentos causados variam, podendo afetar as capacidades motoras e psicológicas, e até levar à morte da criança.

Chebabo reforça que a situação é mais grave na região Nordeste, mas já há casos descritos em outras regiões do Brasil. O infectologista explica que o vírus zika é transmitido pelos mosquitos Aedes Aegypti e Aedes Albopictus. "É uma doença parecida com a dengue, inclusive nos sinais e nos sintomas", revela. Inicialmente, os casos assemelham-se a uma gripe, apresentando dor de cabeça, dor nas articulações, conjuntivite, dor de garganta, febre leve, irritação da pele, náuseas e dor muscular, com cura espontânea em 5 dias.

O médico afirma que a melhor forma de se prevenir contra a febre zika é combatendo os mosquitos Aedes, por meio de inseticidas, uso de repelentes, telas nas janelas e campanhas de prevenção. Chebabo lembra que não existem vacinas ou tratamentos específicos para a febre zika.

O vírus zika foi identificado pela primeira vez em 1947 em macacos Rhesus, em Uganda. É um arbovírus (vírus essencialmente transmitido por artrópodes, como os mosquitos) que tem o nome relacionado a uma floresta do local. Os primeiros casos em humanos ocorreram na Nigéria, em 1954. Em 2007 foram registrados casos de infecção em 75% da população das Ilhas Yap, na Micronésia. "É importante observar que os arbovírus têm uma taxa de mutação 300 vezes mais elevadas do que os outros tipos de vírus, podendo se desenvolver rapidamente", alerta o médico.

Em 2008, reapareceu entre pesquisadores no Senegal, sem sintomas graves. O vírus zika voltou a ser observado na Polinésia Francesa em 2013, com 55 mil casos num período de 3 meses. Neste surto observaram-se casos clínicos mais graves associados à Síndrome de Guillain-Barré (quadro neurológico/paralisia), além de outras complicações neurológicas como a encefalite, meningoencefalite, parestesia e paralisia facial.

No Brasil, existem registros desse vírus desde outubro de 2014, quando o zika foi identificado em amostras de sangue de pacientes residentes em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, na Bahia.

Como medida de precaução, enquanto se aguardam os resultados das investigações em curso, o Ministério da Saúde do Brasil reforça a importância de recomendações que as mulheres grávidas durante o pré-natal devem evitar o consumo de álcool, drogas, medicamentos sem receita médica e contato com pessoas que apresentem febre ou infecção. Além disso, foram emitidas recomendações específicas sobre proteção contra picadas de mosquito, como manter portas e janelas fechadas ou com telas, vestindo calças e camisas de mangas compridas e usar repelentes autorizados durante a gravidez, além de não deixar água parada, evitando a proliferação do mosquito.

Como já denunciado pelo Esquerda Diário, a realidade no país é de um serviço de saúde pública cada vez mais sucateado, precarizado, insuficiente para atender plenamente às necessidades do conjunto da população. A trágica consequência é a não atenção básica que milhões de mães sofrem em sua gravidez e o resultado desse descaso dos governos é a persistência de doenças que há muito já poderia ser superadas se tratadas com seriedade pelo governo, como a microcefalia, o que não acontece. As agências sanitárias brasileiras recebem muita verba, porém são um verdadeiro fosso de corrupção. Esta realidade política do país, faz com que tenhamos que olhar a microcefalia do ponto de vista político e social, como um sinônimo de falta de proteção à maternidade por parte dos governos, particularmente, do governo Dilma, de uma presidente mulher.

O governo federal deve se responsabilizar por esta situação e buscar intensificar a pesquisa do vírus zika afim de encontrar soluções efetivas no combate à contaminação da doença na busca da cura da doença, assim como universalizar o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) público, gratuito e de qualidade para todos, em nível nacional, para prevenção e diminuição dos casos de microcefalia até então apresentados. Além disso, o governo deve buscar fornecer massivamente e de forma gratuita repelentes naturais (como a citronela e a andiroba), distribuição de mosquiteiros (para as mulheres grávidas em especial) para proteger a população contra picadas de mosquito e ampliar efetivamente a distribuição de métodos contraceptivos para evitar a gravidez indesejada.

Garantir toda a assistência médica e psicológica às famílias e mulheres que adquirirem o vírus na gravidez e optarem por segui-la é o mínimo que o Estado deve oferecer às crianças com microcefalia perante às graves consequências para elas, pois a microcefalia exige cuidado extra do Estado, que envolve a criação de centros de reabilitação e creches especializados no tratamento destas crianças, com profissionais especialistas e equipamentos, assim como permitir e legalizar o aborto nos casos em que as mulheres optarem após identificarem estar contagiadas pelo vírus (e das não contagiadas também).

A universalização do acesso ao saneamento básico; campanhas de esclarecimento a partir do movimento de massas (e não de forma burocrática por meio do Ministério da Saúde, como também está na proposta do governo); campanhas junto aos sindicatos, associações de bairros, movimento estudantil, para irem em campo, desinfetar e sanear os bairros para atacar os focos do mosquito, são outras três providências que atacam a raiz do problema relacionado ao surto microcefalia, se associado ao zika vírus.

Um combate efetivo à esta tragédia social e médica que é a microcefalia no Brasil e em defesa do direito pleno a uma maternidade protegida, só pode ser feito de modo independente dos governos e anticapitalista. É urgente a luta por um outro sistema público de saúde, gratuito e universal no qual a prioridade seja a vida, a prevenção, e não os lucros das empresas farmacêuticas que lucram com a tragédia de tantas famílias brasileiras reféns do sistema público sucateado de saúde do país.




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