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ESPETÁCULO?

Sônia Abrão e a morte de mulheres na TV

O objetivo aqui é observar como a grande midia noticia os casos de violência contra a mulher. Destacamos o programa “A Tarde é Sua” (Rede TV!), apresentado por Sônia Abrão e o caso de Amanda Bueno, brutalmente assassinada pelo noivo em março deste ano.

sexta-feira 8 de maio de 2015| Edição do dia

Os telejornais e os programas de tv noticiam todos os dias os casos de violência contra a mulher. Todo o dia e o dia inteiro somos apresentados a uma sequência pavorosa de notícias como "adolescente é estuprada pelo pai", "jovem é assassinada pelo companheiro", "mulher é morta com nove tiros no quintal de casa" , "mulher é encontrada morta na rua", etc.

Sônia Abrão, no programa "A tarde é Sua" (Rede TV!), cobriu o caso da dançarina Amanda Bueno (ex-integrante do grupo musical Gaiola das Popozudas), assassinada pelo noivo, Milton Severiano Vieira, no dia 16 de março de 2015. Neste programa https://www.youtube.com/watch?v=08mHoWavtKk discutem um vídeo que supostamente "teria causado a fúria do noivo".

Música de terror no estúdio. Sônia Abrão, o apresentador Jorge Lordello e a sensitiva Márcia Fernandes comentam detalhes do crime. Querem saber o motivo do massacre. Por que ele fez isso? O que ela fez de errado? O apresentador chega a comentar que Amanda teve escolhas e preferiu ficar com o noivo. Sonia Abrão fala de uma possível "vingança feminina".

Lordello informa que o assassino foi enquadrado na nova lei que tipifica o feminicídio e define como crime hediondo a morte violenta de mulheres por razões de gênero, sancionada no dia 09 de março de 2015. Após este rápido comentário sobre a lei do feminicídio, o apresentador tece um longo comentário sobre as armas usadas para matar Amanda. Notem que ele explica como "engatilhar" a calibre 12.

Durante toda a matéria intercalam imagens de Amanda dançando e imagens do assassinato captadas por câmeras de segurança. Erotismo e morte numa relação mórbida.

Repetem o momento em que o assassino bate a cabeça da vítima várias vezes no chão. Márcia Fernandes diz que ele bateu a cabeça da vítima onze vezes no chão e "onze é o número auge do satanismo."

Sonia Abrão e Márcia Fernandes afirmam que em hipótese alguma estão retirando a culpa do assassino, mas não descartam o papel do “demônio" neste caso. Segundo a sensitiva o criminoso "simplesmente foi e com certeza estava possuído, isso não tenha dúvida.”, “ele estava sob comando satânico".

Feminicídio "motivado por forças sobrenaturais”. Transformaram um crime histórico cometido contra as mulheres em algo que não pode ser explicado, um acontecimento extraordinário descolado da realidade e das relações econômicas, políticas e culturais que produzem, incitam e defendem os crimes contra a mulher. Crimes que não são, em hipótese alguma, casos isolados ou “fruto de uma mente doentia ou possessa”, mas uma regra concreta nas sociedades patriarcal-capitalistas.

Jorge Lordello cita a nova lei do feminicídio aprovada mas não discute sua importância e seus limites, reconhece como um crime de gênero e pára por ai. Apenas breves comentários.

A "Rede TV!" e toda a grande mídia ligada a empresários e governos não debatem as causas reais do feminicídio e as formas efetivas de combatê-las porque não querem discutir o papel do Estado, da Igreja, da família conservadora, da escola e dos próprios meios de comunicação na promoção de políticas reacionárias e estereótipos machistas que matam e reforçam o ódio contra as mulheres.

Numa clara “espetacularização da morte” construída a partir de elementos da pornografia, do romance policial, das histórias de terror e do folhetim, usados para comover e manipular opiniões, o "A Tarde é Sua!" apresentou o feminicídio como uma “curiosidade” intrigante. A violência contra a mulher é apresentada como um “mistério” para as tardes brasileiras, neste caso, cheio de “possessões” e “números mágicos”.




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